Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
por Francisca Almeida

Quando me convidaram para assinar um espaço quinzenal de opinião aqui no NG perguntei, naturalmente, o que dele se pretendia. Se se procurava uma crónica sobre a vida política local ou se me podia estender a considerações sobre a política nacional e europeia. Disseram-me com uma abertura extrema: Será sobre o que quiser, o que achar relevante. Podem ser críticas, crónicas ou até "desabafos"!

Esta semana trago, justamente, alguns desabafos. Considerações avulsas, todas motivadas por acontecimentos ocorridos nas duas últimas semanas, e que - julgo - dizem alguma coisa de nós enquanto povo.

 

 

CENTRALISMO

O pior centralismo - francamente pior do que aquele que decorre dos erros sucessivos dos vários governos ao nível do investimento e da política de desenvolvimento das cidades - é o que ainda teima em morar no espírito de muitos de nós.

A ignorância com que alguma Lisboa olha para o resto do país relembra-me o pobre Artur d' A Capital! de Eça de Queirós. O mesmo Artur que chegou fascinado a Lisboa, decidido a renegar as origens para ser um "lisboeta de gema" e, ironia do destino, acabou por regressar desencantado à vida mais pacata, mas tremendamente mais genuína, de Oliveira de Azeméis.

Na passada semana, acabada de entrar num táxi, lá veio a frase do costume: É do Norte, vê-se pela pronúncia... Vem do Porto? Não, sou de Guimarães! Oh, é quase a mesma coisa! Naturalmente que não me contive, e lá fui desvendando as identidades - que são tantas e tão diferentes - das cidades desse outro país longínquo que é norte de Portugal.

Coincidentemente, poucas horas depois, estava já no bar da Assembleia da República para um almoço rápido: Hoje é melhor não pedir um prego. Está muito atrasado, temos cá um grupo grande. São de onde? - perguntei. Do Porto - respondeu-me o funcionário. Enquanto saía, ouvi atrás de mim uma voz desconhecida: "São do Porto?! Vieram à civilização".

Que dizer? "Não há nada mais assustador que a ignorância em acção." (Goethe)

 

IDADES

Nunca ninguém está contente com a idade que tem. Adolescentes clamam pela idade adulta, os mais velhos entoam de ora em vez um "ó tempo volta para trás". Não conheço qualquer estudo que - pelo menos a partir da idade adulta - relacione a idade com a competência, com o compromisso, com o empenho ou a orientação para resultados. Mas na cabeça de muitos, eles existem! Existem numa certa condescendência com que os supostos mais velhos ocasionalmente tratam os mais novos, do estilo, "Quando tinha a tua idade, também achava que podia mudar o mundo". De resto, já deixei de contar as vezes em que perguntam como é ser deputada tão jovem, ou como me sinto ao ser a mais jovem vice-presidente da bancada do Grupo Parlamentar do PSD. Normalmente respondo dizendo que se a idade for um problema, o tempo encarregar-se-á de o resolver e que, por enquanto, gostaria de ser avaliada no mesmíssimo patamar de exigência que os meus colegas mais velhos. Que exijo - e, ademais, mereço, - ver o meu trabalho sindicado segundo os mesmos parâmetros. Para o bem e para o mal.

Tudo porque, em boa verdade, "Não mudamos com a idade na estrutura do que somos. Apenas, como na música, somo-lo noutro tom." (Vergílio Ferreira)

 

 

A PESCA DE SALMÃO NO IÉMEN

O título faria prever um filme entrado directamente no circuito do DVD. No entanto, lá acabei por aceitar ir ver o que me garantiram ser um bom momento de cinema sobre utopias tornadas realidade à custa de persistência e de muita vontade. Perfeito, portanto, para os tais " jovenzinhos" à procura de mudar o mundo. 

O certo é que, dormindo sobre o assunto, pus-me a cismar sobre a forma como tradicionalmente tendemos a descredibilizar os projectos que nos parecem demasiado "out of the box". Num tempo em que a realidade veio pôr em causa algumas verdades ocasionalmente havidas como dogmas, talvez devêssemos premiar de outra forma o arrojo, a inovação e o empreendedorismo daqueles que arriscam um emprego por um sonho.

Quem ousaria imaginar que salmões britânicos ainda viriam a nadar nas águas do Iémen?

(artigo publicado no jornal Notícias de Guimarães)


tiro de Francisca Almeida
tiro único | gosto pois!

De Pedro Correia a 22 de Junho de 2012 às 00:52
Muito bem, Francisca. Também vi o filme - e gostei.
Muito mal, só mesmo esses preconceitos 'centralistas' que teimam em perdurar.


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