Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
por Pedro Correia

Pela quarta vez, Portugal atingiu as meias-finais de um Campeonato da Europeu. E pela terceira vez ficamos pelo caminho. Mas desta vez com uma satisfação suplementar em comparação com o que ocorreu em 1984 e 2000: não fomos derrotados em campo, apenas a lotaria dos penáltis nos impediu de ir à final em Kiev. Só nesse instante a Espanha, após 120 minutos de confronto aberto e tenaz em campo, se revelou superior.

Não saímos, no entanto, sem enviar outra bola ao poste. Aconteceu com Bruno Alves, ao desperdiçar na barra da baliza de Casillas uma grande penalidade. Um momento decisivo, que acabou por ditar a sorte do encontro: os espanhóis estarão presentes, já no domingo, na terceira final consecutiva de uma grande competição futebolística internacional.

Portugal sai de cabeça erguida. Com uma defesa praticamente intransponível e um meio-campo que foi subindo de rendimento de jogo para jogo, culminando no desafio de hoje em Donetsk (Ucrânia), que vulgarizou alguns dos principais talentos da selecção adversária (incluindo Xavi e Silva), impedindo a equipa treinada por Vicente del Bosque de praticar o seu habitual rendilhado em campo.

Durante uma grande parte do encontro a equipa portuguesa revelou-se mais coesa, mais homogénea: há muito que os espanhóis não pareciam tão receosos nem jogavam em terreno tão recuado.

Houve uma quebra de rendimento dos portugueses na meia hora de prolongamento contra a equipa campeã da Europa e do Mundo. Del Bosque antecipou-se ao seleccionador português nas substituições. Isso ajuda a explicar a quebra física da selecção nacional nos últimos 20 minutos de um jogo muito exigente, desde logo no plano táctico.

Ficámos por aqui. Mas o balanço é claramente positivo. Só por ignorância ou má-fé alguém pode afirmar o contrário.

 

Portugal, 0 - Espanha, 0 (2-4 nos penáltis após prolongamento)

.................................................

Os jogadores portugueses, um a um:

 

Rui Patrício - Esteve a um passo de ter uma noite de glória. Ao defender o penálti de Xabí Alonso, o que nos prometia abrir caminho para a final. Não conseguiu defender mais nenhum. Mas voltou a estar em bom nível, sempre atento entre os postes. Aos 104' deteve o mais perigoso lance de ataque espanhol, que partiu dos pés de Iniesta.

 

João Pereira - Voluntarioso, muito activo, tinha uma missão particularmente difícil ao enfrentar Iniesta - o melhor dos espanhóis. Mas não se deixou intimidar, integrando-se bem na restante muralha defensiva. Ousou menos raides pelo corredor direito do que nos dois jogos anteriores, o que não surpreende atendendo ao valor da equipa adversária. Cartão amarelo aos 64'.

 

Bruno Alves - Muito duro a defender, com a solidez a que já nos habituou mas um pouco mais ríspido do que nos restantes jogos do Euro 2012. Recebeu o cartão amarelo, talvez já tardio, aos 85'. Destacado para os penáltis, partiu para a bola sem confiança, como ficou logo bem patente. De tal maneira que, numa primeira tentativa, Nani antecipou-se e decidiu ser ele a marcar.

 

Pepe - Impediu aos 28' um possível golo de Iniesta. E não falhou quando lhe coube marcar um penálti, no final. Manteve-se praticamente intransponível no comando da linha defensiva portuguesa. Cartão amarelo aos 60'.

 

Fábio Coentrão - Mais uma excelente exibição. Impediu Pedro de marcar aos 113' numa corrida desenfreada que chegou a bom termo. Venceu vários despiques com Arbeloa no corredor esquerdo português e, como é hábito, foi sempre perigoso a atacar. Cartão amarelo aos 45'.

 

Miguel Veloso - Muito eficaz em acções de contenção, soube ocupar sempre bem os espaços no terreno confiado à sua guarda. Cartão amarelo aos 90', o que levou Paulo Bento a substituí-lo por Custódio um quarto de hora depois.

 

Raul Meireles - Cumpriu, uma vez mais, o essencial da sua missão no meio-campo português. Graças a ele, em boa parte, Portugal conseguiu pressionar os espanhóis longe da nossa grande-área. À beira da exaustão, numa partida muito exigente, deu lugar a Varela aos 112'.

 

João Moutinho - O melhor português em campo, numa exibição de antologia. Foi o mais eficaz recuperador de bolas e voltaram a sair dos pés dele alguns dos passes mais perigosos da nossa selecção. Travou inúmeros lances ofensivos dos espanhóis e ganhou quase todos os duelos individuais, contribuindo em grande parte para o apagamento de Xavi. Terminou esgotado. E só foi pena ter falhado uma grande penalidade ao cair do pano.

 

Nani - Despede-se do Euro 2012 sem o golo em lance corrido que bem merecia pelo talento revelado. Mas assinou um tento de honra ao marcar o penálti final numa partida em que voltou a mostrar-se em boa forma embora algo perdulário nos últimos metros do terreno.

 

Cristiano Ronaldo - Esforçou-se muito e também ele acabou esgotado. Este não chegou a ser o jogo da vida dele, mas esteve quase a ser: Ronaldo podia ter marcado no último minuto do jogo quando se isolou à frente de Casillas, seu colega no Real Madrid e provavelmente o melhor guarda-redes do mundo. Este falhanço de algum modo prenunciou o desaire português nas meias-finais. Ronaldo desperdiçou ainda três livres durante o jogo - daqueles que não costuma falhar em Madrid.

 

Hugo Almeida - Um bom remate de longe, aos 57'. E três outros que também saíram fora. Hugo Almeida, que substituiu Helder Postiga como titular no ataque, esteve mais apagado do que se exigia numa partida em que era fundamental marcar. Mas integrou-se bem nas missões defensivas. Saiu aos 81'.

 

Nélson Oliveira - Substituiu Hugo Almeida aos 81'. Protagonizou dois ou três lances inócuos e pouco mais se viu.

 

Custódio - Entrou aos 105' para o lugar de Miguel Veloso. Tacticamente muito disciplinado. Sempre seguro.

 

Varela - Entrou só aos 112' para o lugar de Meireles. Ficou a sensação de que a equipa das quinas teria ganho se entrasse mais cedo. Teve uma boa arrancada pelo lado direito, quatro minutos depois, deixando nervosa a defesa espanhola.


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17 comentários:
De fado alexandrino a 28 de Junho de 2012 às 09:36
Ronaldo o melhor marcador de penalty foi deixado para o fim. Não foi preciso.
A Espanha com menos dois dias esteve mais fresca no prolongamento porque Bento errou na subsituições.
Um jogador vai marcar o penalty e é mandado para trás por outro.
Platine não apareceu e ficou um luso livre sem ter que fazer marcações.
Ronaldo conseguiu não acertar uma única vez com a baliza.
A defesa "intransponível" foi toda corrida a cartões amarelos.
Um honroso terceiro lugar.
Cabeça erguida.
Tivemos azar.
É igual no futebol e noutras coisas.


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2012 às 10:34
Não é igual. No futebol somos melhores. Como ficou demonstrado. Basta ler a imprensa internacional - não apenas a desportiva. O Ronaldo falhou, o Iniesta também. Não comecemos agora com as habituais sessões de autoflagelação: precisamos de tudo menos disso.


De fado alexandrino a 28 de Junho de 2012 às 19:59
Claro que somos melhores, infelizmente os outros com sorte, por causa do vento ou porque acertam ganham.
Não é justo.
Há que rever este tipo de apuramento no próximo Campeonato do Mundo.
Talvez uma votação pelo telefone?


De Pedro Correia a 29 de Junho de 2012 às 15:17
Meu caro, uma coisa é perdermos porque recusámos combater, porque virámos a cara à luta, porque nos acobardámos. Outra, muito diferente, é perdermos depois de uma longa e dura batalha em que nunca receámos o combate.
Foi este segundo cenário que sucedeu na Ucrânia. E a selecção chegou mais longe do que qualquer um de nós imaginava à partida. Daí o facto de merecer o nosso aplauso.


De João André a 28 de Junho de 2012 às 11:32
Alguém me diz quem é Javí? É Xavi no acordo ortográfico de 1594 a.C. ou de 2833 d.C.?

Moutinho contribuiu pouco para o apagamento de Xavi. Xavi jogou numa posição consideravelmente diferente daquilo que faz no Barcelona (ou noutros anos pela selecção) e caiu muito mais na área de acção do Veloso, o qual o secou como tinha secado Özil, Eriksson e van Persie/Sneijder. Moutinho foi importantíssimo, isso sim, para o apagamento de Iniesta na maior parte do tempo.


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2012 às 17:38
Sim, Xavi e não Javi: emenda feita. Se havia apenas esta gralha, nada mal para quem escreveu este texto minutos após o fim do jogo. Como aliás fiz, desde o início do Euro-2012, com todos os jogos em que participou a selecção portuguesa. Dei entretanto uma espreitadela ao seu blogue para saber se me poderia inspirar: nem outra coisa seria de esperar da parte de quem arrota tanta sapiência "técnico-táctica". Afinal o blogue está inactivo desde 30 de Maio. Fiquei esclarecido. Típica atitude tuga: faz o que eu digo, não faças o que eu faço (que é nada).


De João André a 28 de Junho de 2012 às 20:11
Fiquei a saber que para ter uma opinião e apontar aquilo que são erros aparentemente preciso de escrever no meu blogue.

É engraçado, o Pedro Correia que eu sempre gostei de ler e respeitei imenso (sempre respeitoso das opiniões diferentes) parece ter desaparecido depois de Junho do ano passado. Devem ser tiques vindos de cima.

Sinceramente não preciso de explicar porque razão não escrevo. Poderia ser por uma imensidão de razões. Falta de tempo é uma. Falta de vontade é outra. O facto de eu estar a escrever pessimamente por causa da revolta que este governo me provoca é ainda mais uma. Ter de pagar os salários do governo, segundo o próprio governo me diz, também me ocupa tempo.

Seja como for, se me dá a honra de querer ler o que escrevo sobre futebol, esteja à disposição:
http://notthatkindofcomment.wordpress.com/

Já agora, qual é sua sapiência comparada com a minha? Por acaso melhor ou pior? Ou tem aí algum argumento de autoridade para resolver a questão?


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2012 às 22:16
Não sei se joga futebol, mas já vi que cultiva a entrada a pés juntos. Esse não é o meu estilo. Vou espreitar o seu blogue sobre bola.


De João André a 29 de Junho de 2012 às 08:34
Vá lá, já não arroto sapiência nem faço nada. Só tenho entradas a pés juntos.

Por acaso jogo e até sou mais jogador de defesa e algo durinho (falta de técnica dá nisso), mas sempre leal e nunca magoei ninguém. Apenas não viro a cara aos embates e dou tudo pelo meu lado. Às vezes não me apetece jogar, mas se jogo dou tudo.

Quanto ao resto, é questão de tempo.

PS - imediatamente a seguir ao jogo ao não, lamento mas o erro de Javi em vez de Xavi é algo que me parece inadmissível quando falamos de um dos melhores médios de sempre e quando quem comete o erro é alguém que vai em mais que uma centena de queixas em relação ao acordo ortográfico. Escrever Zhirkov, por exemplo, seria asneira mas tão comum que até se aceita. Já o Xavi...

Mas deixe, não é por aí que nos chateamos.


De Pedro Correia a 29 de Junho de 2012 às 13:06
Tenho de perder a mania de dar nomes castelhanos aos catalães. Também já chamei mais de uma vez 'Carlos' ao Carles Puyol.
Já vi... que tenho de conferir com mais atenção os textos sobre uma selecção com um Xavi, um Xabi e um Javi.
Não se preocupe muito. A 'Marca' também chamou "Paolo" Bento... ao Paulo Bento.

(o que terá isso a ver com o acordo ortográfico é algo que escapa por completo à minha compreensão; convém sempre deixar algo em aberto, fica para um próximo bate-papo)


De Octávio dos Santos a 28 de Junho de 2012 às 14:01
«Satisfação suplementar»?!

«Portugal sai de cabeça erguida»?!

«O Ronaldo falhou, o Iniesta também»?! Pois, mas o Ronaldo perdeu - mais uma vez, não conseguiu marcar ao seu colega Casillas - e o Iniesta venceu...

Não há dúvida: estamos condenados às «victórias morais»...


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2012 às 17:30
Já estavam a faltar as sessões de autoflagelação. Os Velhos do Restelo andaram três semanas com a viola metida no saco roendo as unhas de ansiedade à espera do primeiro desairezinho de Portugal. Vencida a Dinamarca, vencida a Holanda, vencida a República Checa, ultrapassada a fase de grupos, ultrapassados os quartos-de-final, não deram um ar da sua graça. Nem uma linha, como é o caso deste leitor. Ei-los, agora, no seu 'habitat' natural, arremessando pedras à selecção portuguesa, negando sequer que no embate com a equipa que é campeã da Europa e campeã do Mundo em título Portugal se tenha batido de igual para igual. Confirma-se o aforismo: não somos os herdeiros dos que foram à Índia, somos herdeiros dos que nunca de cá saíram.


De Octávio dos Santos a 28 de Junho de 2012 às 19:12
Verdadeiros «herdeiros dos que foram à Índia» já teriam vencido um campeonato - se não este, pelo menos o de 2004, em Portugal, frente à Grécia.

Você pode contentar-se, estar conformado, com as derrotas, e tentar «dourá-las» de todas as formas e feitios. Eu não. Portugal tem tido, e agora ainda tem, jogadores em quantidade e qualidade suficiente para vencer uma prova importante. Mas falham. Logo, são perdedores, e não vencedores.

Acaso a Espanha - a quem ganhámos, no anterior jogo contra eles, por 4-0! - é campeã europeia e mundial por «direito divino»? Em 2008 ninguém acreditava neles, a começar pelos próprios espanhóis. Não eram considerados favoritos. Mas encheram-se de brios e superaram-se. Tiveram aquele «acréscimo de alma» que a nós nos falta.

Os jogadores portugueses sabem que, quando falham, são sempre «perdoados», que os seus erros e insuficiências são sempre justificados. São os eternos «coitadinhos». Esse é que é o problema. O que eles precisam é que se arremesse mais «pedras» contra eles.


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2012 às 19:28
Você, se fosse treinador, havia de conseguir bons resultados com esse original método pedagógico de "arremessar pedras" para aumentar a motivação dos jogadores...
Enfim, para remate de conversa deixo-lhe duas citações.
Esta, do Santiago Segurola, um dos mais prestigiados jornalistas desportivos espanhóis (do jornal 'Marca'): "Portugal é uma equipa admirável pelo seu rigor táctivo, o seu impressionante desempenho atlético e a sua velocidade, representada especialmente por CR e Nani, duas balas em cada extremo do campo."
E esta, do seleccionador espanhol, Del Bosque: "Se Portugal está entre as quatro melhores selecções da Europa, por alguma coisa é."
Tenha calma. Não se perdeu nenhuma guerra: tratou-se apenas de um campeonato de futebol. E aprenda alguma coisa com os adeptos irlandeses: mesmo a perderem 0-4 contra a Espanha continuaram a incentivar a equipa até ao último minuto nas bancadas.
Temos muito a aprender com gente assim.
Quanto a lançamentos de pedras, remeto-o para uma célebre frase de Cristo. Não preciso de lhe dizer qual é.


De Octávio dos Santos a 28 de Junho de 2012 às 22:48
O Pedro com certeza não pensa que, quando eu falo em «pedras», estou a falar literalmente, pois não? E, afinal, foi você quem primeiro falou nisso, e sem aspas, ao contrário de mim... ;-)

Quando falo em «pedras» quero significar, obviamente, acusações, críticas, até mesmo alguma hostilidade. «Chamar os bois pelos nomes». Já chega de tanta sabujice, lambe-botismo e ridicularia por parte da «imprensa desportiva» portuguesa (e não só). Lembro-me que em 1982 a relação da selecção italiana com os jornalistas transalpinos era péssima. Estes diziam «cobras e lagartos» - e com razão - daquela. Creio que chegaram a estar de relações cortadas - e nem sei se chegou a haver pancadaria! E quem ganhou no fim esse campeonato do Mundo em Espanha?

E... a sério? Responde-me com citações de espanhóis a exercitarem a sua condescendência de vencedores?

Estou a escrever este comentário ao mesmo tempo que, na RTP2, se refere a «receção calorosa» na chegada da «seleção» a Portugal. Sem dúvida que esta equipa - recessiva! - está muito bem para o AO90...


De Pedro Correia a 29 de Junho de 2012 às 13:10
Se bem o entendi, você entende que nos contentamos com pouco. Mas atenção: o futebol português tem vindo a progredir, a tendência é essa, sempre constante. Por algum motivo estamos em 5º no 'ranking' da UEFA e em 7º no da FIFA.


De Octávio dos Santos a 29 de Junho de 2012 às 17:06
Portugal já esteve em 4º, ou mesmo 3º, na FIFA.


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