Terça-feira, 3 de Julho de 2012
por Pedro Correia

Devemos ter visto dois Campeonatos da Europa diferentes, o Rui Santos e eu. Só isto explica a minha perplexidade ao ler o texto que ele publicou na passada sexta-feira no diário Record (sem hiperligação disponível). Um texto que, logo pelo título, deixava adivinhar todo o seu propósito: «... E, então, as charretes?!» Tanto sinal gráfico - reticências, um par de vírgulas, ponto de interrogação seguido de ponto de exclamação - para dizer tão pouco. A intenção do autor, como fica bem claro logo nas primeiras linhas, é desvalorizar o que os jogadores e a equipa técnica da selecção nacional conseguiram no Euro 2012. Esquecendo-se ele da grelha de análise que utilizou para avaliar o desempenho português no Campeonato do Mundo da África do Sul, quando o seleccionador era outro. Mas essa comparação fica para outro texto a publicar aqui no decurso desta semana...

 

O texto está repleto de falácias, na habitual lógica de "achismo" cultivada pelo autor, que demasiadas vezes considera dispensável alicerçar as suas opiniões em factos. Eu acho que isto, eu acho que aquilo...

Felizmente não falta comentário de qualidade nos órgãos de informação portugueses para o público poder separar o trigo do joio. Reparem no que Rui Santos, de dente afiado e em estilo jocoso, se apressou a escrever logo a 7 de Junho, 48 horas antes da nossa tangencial derrota frente à selecção então vice-campeã da Europa, a Alemanha: «Lá fomos então, com o folclore do costume, rumo ao Euro’2012. Partimos em ambiente de festa e euforia, como se tivéssemos chegado com um troféu na bagagem. O circo montado, com o melhor pano na tenda, e o país pendurado na asa do avião. (...) Não é fácil combinar excursionismo com profissionalismo. Esta direcção da FPF ainda não fez nada que travasse a ideia de que, para os jogadores, a Selecção Nacional não é mais do que o recreio dos clubes. E a culpa não é totalmente deles, que são induzidos a pensar assim.»

 

Que quereria ele dizer com isto no próprio dia em que Portugal regressava a um dos maiores palcos do futebol mundial? Estaria a confundir esta presença portuguesa na fase final do Europeu com a desastrosa campanha de qualificação conduzida inicialmente por Carlos Queiroz, o técnico que ele mais admira? Só o próprio comentador saberá responder. O facto é que, no rescaldo do desafio da meia-final, após a selecção das quinas ter chegado muito mais longe do que ele imaginara, Rui Santos escreve um dos artigos mais lamentáveis da sua carreira (o tal com as charretes em título).

Escreve o quê?

Isto: «Portugal foi eliminado pelos espanhóis. Sem mácula, em razão da melhor meia hora de tempo extra realizada pelo adversário. Nada de surpreendente, pois.» Quem não tenha visto o jogo é capaz de acreditar. Sem saber que Portugal foi eliminado só nas grandes penalidades após o prolongamento...

E isto: «Ser a quarta melhor equipa da Europa representa 'missão cumprida' e um estímulo para o futuro. Mas nada mais senão isso. Os excessos à chegada foram iguais aos excessos da partida.» Não sei onde foi ele buscar essa despromoção portuguesa ao quarto posto: como não há jogo para atribuição dos lugares 3º e 4º, Portugal ficou ex-aequo em terceiro, juntamente com a Alemanha.

E ainda isto: «Portugal fez um Campeonato da Europa muito positivo, mas longe do brilhantismo que nos querem agora impingir.» Ser a terceira melhor selecção da Europa não basta para este mestre do comentário esférico lhe reconhecer brilhantismo.

 

Eis o ruissantismo no seu melhor. Ou pior, conforme as opiniões.

A quilómetros de distância do que Santiago Segurola, um dos mais prestigiados jornalistas desportivos espanhóis, escreveu na diário Marca: "Portugal é uma equipa admirável pelo seu rigor táctico, o seu impressionante desempenho atlético e a sua velocidade, representada especialmente por Cristiano Ronaldo e Nani, duas balas em cada extremo do campo."

Ou do que escreveu Bruno Prata, hoje mesmo, no jornal Público: «Depois de ontem se ter visto a demonstração de superioridade da 'Roja' no Estádio Olímpico de Kiev, ficou claro que a verdadeira final foi o Espanha-Portugal, o que é o melhor elogio que se pode fazer à equipa treinada por Paulo Bento. De facto, ninguém como a selecção portuguesa foi capaz de criar tantos problemas à campeoníssima Espanha.»

Sob um título que diz tudo: «A verdadeira final foi com Portugal».

Avisem o Rui Santos, por favor. Tenho a impressão que só ele não percebeu. Talvez por andar demasiado preocupado com as charretes.


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11 comentários:
De raioverde a 3 de Julho de 2012 às 02:41
sabe o que está mal? é ainda se perder tempo com estes sócios.
Mas lá está...como representam as ideias de muito bom(?) povo português sempre tem que se dar atenção para perceber porque tão mal vai o nosso país.


De Pedro Correia a 3 de Julho de 2012 às 08:41
Nenhum comentador desportivo tem tanto tempo de antena. É saudável que os comentários dos comentadores - passe a redundância - sejam escrutinados.


De Marão a 3 de Julho de 2012 às 09:13
Para empréstimo ao Santíssimo recupero este escrito feito "antes de tempo" por um simples e viciado observador não remunerado:


De Marão a 3 de Junho de 2012 às 08:48

Sem prejuízo de considerar que adoptamos e valorizamos demasiado o jogo da bola como bem de todos os males e receita de roleta para todas as curas, mantenho o que pensava antes da choradeira com Turquia, e que agora, fugindo a generalizado encharcar de lenços assumo aqui por escrito. Ao cair no bicudo grupo que lhe calhou em sorte, e pretendendo Portugal passar á fase seguinte, tem que se assumir desde já forte candidato á vitória final, que tendo equipa para se bater com toda a gente, deixar feras do próprio grupo pelo caminho pode ser meio caminho andado.
A este propósito recupero as minhas muito pontapeadas SEGUNDAS Bolas, escrito antigo que já tinha posto em qualquer lado:
Comentadores profissionais do jogo da bola, afinal não passam de primeiros especialistas em prognósticos no fim dos jogos. Dão-se ao luxo de antecipadamente descascar ao milímetro uma partida que ainda não foi, e depois, em cada lance ou canelada vão apalpando fragilidades e estatutos superiores virtuais, que acabando por ruir logo os faz mudar de discurso como quem passa a outro cigarro. Esquecem pacoviamente que é durante os 90 minutos que o pau vai e vem, mas nem se coçam com os disparos de rajada que lhes vão saindo pela culatra. A fazer fé em tais artes feiticeiras, até o tempo de jogo seria dispensável dada a ciência exacta que em profusão não se cansam de debitar.
No mundo dos futebóis, o topo do mérito vai inteirinho para o raio a bola, e o fundo pantanoso para a chusma palradora que se despista e atropela a cada apitadela. É vê-los durante uma partida a despejar sábias cuspidelas, onde não faltam sentenças de morte para quem lhes caia na parcial alçada, e quando o sentenciado e precoce moribundo se ergue para ganhar, sacam bruxarias da cartola com a destreza de carteirista, mudando num ápice o discurso sem avermelhar de vergonha.
Apanha bolas verdes de raiva, humilhem-se.


De Pedro Correia a 5 de Julho de 2012 às 00:27
Tem toda a razão: «Comentadores profissionais do jogo da bola, afinal não passam de primeiros especialistas em prognósticos no fim dos jogos.»
É isso mesmo.


De João André a 3 de Julho de 2012 às 09:17
Infelizmente, nem Santos nem Prata são exactamente exemplos do bom comentário (embora Santos seja de longe o pior que por aí anda). Prata embarca pelo caminho oposto, o de um triunfalismo que me parece desajustado.

Esclareço logo: sempre pensei que Portugal não sairia do grupo. Imaginava uma derrota com a Alemanha (e que sairia mais pesada que 1-0), uma vitória tangencial com a Dinamarca e um empate com uma Holanda que eu imaginava quase apurada nessa altura. Um terceiro lugar naquele grupo não era mau de todo, do meu ponto de vista. Não era falta de crença, era análise objectiva.

Portugal beneficiou de uma enorme falta de sorte dos holandeses contra a Dinamarca (também conta) e depois da sua desintegração total (as selecções holandeses têm sempre estes botões de auto-destruição incorporados). Beneficiou também de sorte contra a Dinamarca depois de quase ter deitado a perder uma vantagem claríssima (em golos e na qualidade de jogo), mas mais uma vez é importante ter sorte. No último jogo houve Portugal (e especialmente Ronaldo) a mais, Holanda a menos e uma capacidade mental pouco comum. Sair da fase de grupos, na minha opinião, fez desta campanha um sucesso.

Nos quartos de final, a verdade é que deu sorte sair uma República Checa bem organizadinha mas algo fraca. Especialmente depois de perderem o principal jogador, Rosicky. Tudo isto faz parte, claro, e não diminui a qualidade do jogo, mas é importante notar que o jogo dos quartos de final foi mais fácil que os do grupo.

Contra a Espanha, Paulo Bento montou um belo colete de forças contra a Espanha, complicou-lhes a vida, obrigou-os aos erros e, não fosse um mau passe de Raul Meireles mesmo no fim, poderia ter acabado com vitória portuguesa. Ainda assim nos 90 minutos não houve grande oportunidade para nenhum lado e no prolongamento só deu Espanha. Foi nos penalties e isso honra Portugal. Mas também a Itália só ultrapassou a Inglaterra da mesma maneira e ninguém vai louvar os ingleses por isso.

Devemos nós congratular-nos por este Europeu? Bom, eu não me congratulo porque nada tive a ver com ele. A minha avaliação da selecção portuguesa é largamente positiva, mas não embandeiro em arco. Ronaldo teve um jogo fabuloso (contra a Holanda), outro muito bom (checos), outro bom (Dinamarca). Contra a Alemanha e contra a Espanha esteve quase ausente (não se faz desaparecer um jogador como ele). Portugal esteve bem quando ele esteve bem. Isso, apesar da qualidade de alguns outros joadores e da excelência do trabalho de Paulo Bento, é uma razão para ficar preocupado com o futuro, especialmente porque não estou a ver jogadores de qualidade a aparecer.

PS - note-se que sempre fui, desde há muito tempo, um defensor do trabalho de Paulo Bento, mesmo quando parecia ser desporto entre os sportinguistas atacá-lo. Sempre me pareceu que ele fez omeletes muito boas com os poucos ovos que tinha. Este trabalho na selecção provou-o, especialmente na forma como equilibrou a equipa para poder tirar o máximo de proveito de Ronaldo (e à custa do losango a meio campo...).


De Pedro Correia a 3 de Julho de 2012 às 19:49
Concordo, no essencial, com a sua reflexão. Também não supus, à partida, que Portugal chegasse tão longe. Há que reconhecer que a selecção superou as expectativas generalizadas dos portugueses - comentadores incluídos. Mas, uma vez comprovado o mérito de jogadores e do seleccionador (que existiu), é de elementar honestidade intelectual reconhecê-lo. Ora RS não faz isso: pelo contrário, ele pretende que a realidade se molde aos seus juízos apriorísticos. Perde por completo a capacidade argumentativa quando os factos lhe atrapalham a construção mental.
Só uma nota final a propósito de sorte, João. Há sorte sem aspas e "sorte". Espanha foi claramente bafejada pela arbitragem no jogo contra a Croácia. Há um penálti claro perdoado à selecção espanhola.


De João André a 4 de Julho de 2012 às 13:29
Ainda em relação à "sorte": contra Portugal, também a Espanha bem pode agradecer meia dúzia de pormenores. Aquela arrancada do Nani, o facto de o Arbeloa ter feito uma dúzia de faltas até ao intervalo sem ver amarelo (nenhuma, individualmente, o mereceria, mas existem amarelos por jogo faltoso) e mais um ou outro aspecto (o amarelo ao Coentrão foi exagerado, o do Veloso ridículo). Foram coisas pequenas que no fim também ajudaram.


De Pedro Correia a 5 de Julho de 2012 às 00:26
De acordo. O caso da falta sobre o Nani, beneficiando escandalosamente o infractor, foi quase inacreditável. Com o apito a soar quando ele já fazia um raide rumo à baliza espanhola.


De Rodrigo Saraiva a 3 de Julho de 2012 às 12:15
tiro certeiro!!!!!!!


De Pedro Correia a 5 de Julho de 2012 às 00:27
Gracias, caríssimo.


De TLD a 5 de Julho de 2012 às 00:56
Eu sei que custa ouvir as verdades. É preciso reconhecer que a selecção falhou. A mim não me interessam vitórias morais. E o Carlos Queiroz é um grande treinador.


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