Quarta-feira, 4 de Julho de 2012
por Pedro Correia

Rui Santos falou sempre em tom muito crítico nas apreciações que foi fazendo à equipa portuguesa ao longo do Euro 2012. Mas abriu uma notória excepção: sobre Nélson Oliveira falou sempre bem. De tal maneira que nunca regateou um elogio ao jovem avançado do Benfica. O entusiasmo era tanto que só ele viu o que mais ninguém conseguiu vislumbrar.

É caso para lhe gabarmos a coerência. Mas nada mais há para gabar. Porque o Nélson Oliveira que deslumbrou Rui Santos não chegou a comparecer nos relvados deste Europeu. Não jogou bem nem mal - foi simplesmente irrelevante. Varela, que esteve menos tempo em campo, teve oportunidade de marcar um golo e falhar outro que tentou marcar. O jovem que tanto elogio mereceu ao quilométrico comentador da SIC Notícias nem andou lá perto. Percebeu-se melhor por que motivo Jorge Jesus nunca o colocou a titular durante o campeonato: pode vir a ser um jogador de grande nível mas por enquanto não passa de uma simpática promessa.

Não é assim, Rui Santos?

 

Parece que não.

Já a 9 de Junho, nos estúdios de Carnaxide, o seu entusiasmo era incontrolável logo após o jogo contra a Alemanha: «Potencialmente, Nélson Oliveira é já o melhor ponta-de-lança português. Não temos melhor.» O raciocínio é tortuoso e até paradoxal, mas percebe-se a ideia. Faltou apenas sustentá-la em factos.

A 13 de Junho, consumada a vitória contra a Dinamarca, parafraseou-se a si próprio. Nos mesmos termos paradoxais: «Potencialmente, Nélson Oliveira é já neste momento o melhor ponta-de-lança português.» Em perfeito contraste (pasme-se) com os centrocampistas. «Sobretudo ao nível do meio-campo, há muito tempo que não tínhamos tanta falta de bons jogadores», afirmou no mesmo canal televisivo. Lançando um anátema simultâneo sobre Miguel Veloso, Raul Meireles e João Moutinho. Alguma lógica nisto? Absolutamente nenhuma. Mas tanto faz.

 

Ficaram por aqui os hossanas ao miúdo? Nem pensar. A 17 de Junho, consumada a vitória portuguesa sobre os holandeses, Santos insistia. Proclamando isto: «Eu sou um fã do Nélson Oliveira. Gosto muito do Nélson Oliveira.» E mais isto: «Nélson Oliveira é de facto um jogador que dá uma outra cara ao ataque português. Com ele o nosso ataque transforma-se.»

Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta. Deixo só uma perguntinha em jeito de remate: lembram-se quantos golos o "melhor ponta-de-lança português" marcou neste Europeu? Isso mesmo: não marcou nenhum.

 


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | gosto pois!

6 comentários:
De l.rodrigues a 4 de Julho de 2012 às 19:56

A pergunta está desde logo errada: quantos golos o "potencialmente desde já melhor ponta-de-lança português" marcou neste Europeu.

E assim sim, a resposta é:
potencialmente podia ter dado a marcar dois. Os outros é que falharam.


De Pedro Correia a 4 de Julho de 2012 às 23:02
"Potencialmente podia" é redundância, mas nada me espantaria se ouvisse essa frase da boca do RS. Tomo-a à conta de ironia sua, naturalmente.


De l.rodrigues a 4 de Julho de 2012 às 23:14
E toma bem, que eu acho um mistério alguém ter achado que era um bom formato de TV ter um tipo a debitar do púlpito sobre futebol (e acessórios) durante, aproximadamente, o tempo de um jogo.


De Pedro Correia a 6 de Julho de 2012 às 00:15
Já somos dois intrigados com esse mistério. Um dia ainda tenho esperança de poder tirar isso a limpo.


De Manuel Vila Pouca a 5 de Julho de 2012 às 10:20
Viva, acha mesmo que se o Rui Santos não dissesse essas barbaridades, conseguia manter o Tempo Extra tanto tempo no ar? É óbvio que não.

Abraço


De Pedro Correia a 6 de Julho de 2012 às 00:16
É capaz de ter razão, dentro da lógica que levava antigamente as mulheres de bigode a ser atracção nos circos.


comentar tiro

Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds