Quinta-feira, 5 de Julho de 2012
por Pedro Correia

No princípio era Scolari. Já o seleccionador brasileiro que conduziu Portugal a vice-campeão europeu e ao quarto lugar no Campeonato do Mundo se havia retirado um ano atrás e ainda Rui Santos lhe apontava o dedo acusador em Setembro de 2009. Era a melhor maneira de afastar responsabilidades do seu amigo Carlos Queiroz, que conduzia rapidamente a selecção nacional ao descalabro. Sem vencer um só jogo em casa na atribulada campanha para a qualificação do Mundial de 2010, com opções tácticas que ninguém entendia, sem controlo no balneário, Queiroz andava à deriva. Mas o amigo comentador, sem o beliscar, limitava-se a chutar para trás: «Quando Scolari abandonou Portugal os sintomas de uma certa degradação qualitativa eram evidentes.»

 

Depois de uma lamentável presença na África do Sul da qual excluiu o sportinguista João Moutinho, com a selecção portuguesa sem marcar em três dos quatros jogos disputados, Queiroz iniciou da pior maneira a campanha para o Euro 2012. Com um empate em casa (4-4) com o modestíssimo Chipre, em Guimarães, a que assistiram só nove mil pessoas. Soaram as campainhas de alarme: após a euforia da era Scolari, os portugueses estavam divorciados da selecção.

 

E Rui Santos, criticava enfim o seleccionador? Nada disso: «Temos que responsabilizar os jogadores», acusou. E aproveitava até esta derrota para lançar o nome de Queiroz como futuro presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Porquê? «Carlos Queiroz pensa o futebol, em termos de organização, como poucos em Portugal.» Nunca o Tempo Extra foi tão extraordinário.

 

A campanha prosseguiu da pior maneira, com uma derrota na Noruega. Cinco pontos perdidos nos primeiros dois jogos, três anúncios de retirada precoce da selecção: Deco, Paulo Ferreira e Simão Sabrosa haviam anunciado que não voltariam a vestir a camisola das quinas. Eduardo, o guarda-redes titular, parecia uma sombra de si mesmo. Nani fora afectado por uma estranha lesão, nunca bem explicada. E Cristiano Ronaldo, sem esconder a desmotivação, causara alguns desmaios no clube de fãs do seleccionador com uma frase letal: «Perguntem ao Queiroz.» Queria dizer: perguntem-lhe pelas derrotas, claro. Só Rui Santos não perguntou.

 

Acossado, o seleccionador sacudia a água do capote: «Tendo em conta a estrutura amadora da Federação, as coisas correram muito bem [na África do Sul]», disparou Queiroz. Era a versão que lhe convinha. Mas não pegou.

 

O desnorte do seleccionador era tanto que chegou a dizer isto: «Portugal não merece ganhar um campeonato do Mundo.» Uma frase impensável na boca de qualquer outro responsável do futebol nacional. Convém ter memória.

 

Imperou enfim o bom senso: Queiroz foi afastado. E Paulo Bento não tardou a ser escolhido para o seu lugar, conduzindo uma boa campanha para o Euro 2012. Tudo mudou. Logo com vitórias contra a Islândia e a Dinamarca (ambas por 3-1). O novo seleccionador reabilitou Moutinho e Carlos Martins, convocou João Pereira, recuperou Cristiano, Nani e Postiga. Os portugueses aplaudiam.

 

Voltámos a ter selecção nesse mês de Outubro de 2010. Ronaldo falava por todos os jogadores ao dizer isto: «Tem sido bom trabalhar com Paulo Bento e isso reflecte-se no campo." Percebia-se bem.

 

Todos com Paulo Bento? Não. Havia quem lamentasse a saída de Queiroz. Quem? O mesmo que tempos antes, quando Portugal sofreu uma humilhante derrota frente ao Brasil, fechava os olhos a todas as evidências continuando a enaltecer o seleccionador amigo. Com frases assim: "Eu não duvido nunca das capacidades de Carlos Queiroz"; "Carlos Queiroz faz muita falta ao futebol português"; "É um treinador necessário a qualquer federação de futebol do mundo." Quase a roçar a idolatria.

 

Quem então falava deste modo, abdicando do espírito crítico, hoje diz coisas como estas: «Paulo Bento tem um modelo de jogo muito conservador»; «Esta selecção não é a única do futebol português»; «Nós não ganhámos nada. Se o Paulo Bento pensa que o futebol começou com ele, está muito enganado».

Em termos de coerência ficamos definitivamente conversados.


tiro de Pedro Correia
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4 comentários:
De Vortex a 5 de Julho de 2012 às 21:36
porra!
há anos que não lia post tão tendencioso. sem factos. os argumentos parecem ser os da 'c... da mãe do horta'. nada me liga a ninguém. não suporto deuses urbanos tipo bento e outros
vou apagar o blogue da minha lista


De Pedro Correia a 5 de Julho de 2012 às 22:55
Você anda a precisar de uma consulta urgente ao oftalmologista, na melhor das hipóteses: este texto é todo suportado em factos. Por isso me dei ao trabalho de deixar hiperligações por todo o lado. Ameaça zarpar? Pois bom proveito. Vá pela sombra.


De Alexandre a 7 de Julho de 2012 às 12:38
Caro Pedro Correia, não desespere (pelo comentário anterior). O Rui Santos é uma piada, (quase) toda a gente sabe disso. O Paulo Bento pode não ser um estratega brilhante, mas é um líder e um motivador nato, o que é exactamente o que uma selecção precisa. E foi inteligente ao ponto de escolher muitos jogadores que já tinham jogado juntos, e não se pôs a fazer experiências. Colocou-os nas posições que lhes são familiares, e aonde eles rendem mais. O Queiroz é um filósofo, fazia bem em liderar a equipa dos Monty Python.


De Pedro Correia a 7 de Julho de 2012 às 14:35
Boa sugestão, Alexandre. Só não sei se os Monty Python aceitavam ser treinados por este filósofo.


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