Terça-feira, 10 de Julho de 2012
por Constança Martins da Cunha

 

«De início, Maria T. ainda achara aquele conselho acerca do tratamento por doutora um exagero. Para quem, como ela, vinha de um mundo profissional descontraído e informal, em que praticamente toda a gente se tratava pelo nome próprio e por tu, desde o director ao estagiário, e em que ela demorara meses até descobrir, por mero acaso, que muitos dos seus companheiros de trabalho eram licenciados, e em que áreas específicas, soava-lhe no mínimo pomposo ver-se de repente tratada por senhora doutora para aqui, senhora doutora para acolá, por gente licenciada, que, supostamente, detinha naquela instituição um estatuto equivalente ao dela, em vários casos até superior.

 

Demorou por isso a habituar-se à ideia, mas atendendo a quem lhe dera aquele conselho, achou mais prudente segui-lo, sobretudo porque Felícia "era da casa" e parecia ser uma pessoa sensata, pelo que deveria saber certamente o que dizia. E como Maria veio a constatar rapidamente, fez muito bem em dar-lhe ouvidos. Cedo viria a perceber que ser-se ou não doutor, não importa do quê, e acima de tudo, ganhar o direito a ser tratado como tal, pode fazer toda a diferença numa Administração Pública que vive demasiado das aparências, do estatuto, do poder e influência pessoal, amiúde também do ciúme, e até do despique frequentemente desleal.

 

Em breve começaria a perceber que, salvo raras e honrosas excepções, o sonho (ainda que inconfessado) do comum funcionário público que não era doutor seria poder vir a sê-lo um dia. E da maneira como o sistema estava montado, motivos não faltavam para tal. Embora crítica daquela gente, Maria foi percebendo aos poucos as suas razões. Lutavam o melhor que podiam e sabiam por um lugar ao sol, procurando usar as armas que sabiam necessárias para o efeito. Não havia ali lugar para preocupações moralistas ou falsas modéstias, era o salve-se quem puder, sob o lema: "Quem tiver unhas é que toca guitarra". E ter unhas significava, quase sempre, exibir um canudo.  

 

Na maioria dos casos, aquelas pessoas desejavam ser doutores/as, não porque achassem que isso iria contribuir decisivamente para a sua própria realização pessoal ou enriquecimento humano, ou sequer motivadas por qualquer vocação recalcada por falta de oportunidades na juventude, mas simplesmente porque o canudo lhes permitiria ter acesso imediato a um salto considerável na tabela remuneratória e a uma muito maior deferência no tratamento. Era a diferença, por exemplo, entre quem ordenava: "Traga-me um café", ainda que acompanhado de um "se faz favor"; e quem o trazia, de bandeja na mão, para perguntar no fim: "Mais alguma coisa?".

 

Enfim, porque fazer preceder o nome de um "dr(a)" na Administração Pública e sectores afins significava, na prática, galgar de uma assentada uma série de letras do abecedário e almejar uma promoção profissional e social garantida, passando a ser o topo da tabela com horizonte atingível, o que não acontecia com os administrativos, muito menos os auxiliares, para quem os lugares cimeiros estariam à partida vedados. E naturalmente, o estatuto conquistado por um canudo também lhes permitiria sonhar com uma reforma bastante mais gorda, no fim da carreira. (...)»

 

in FEIO, Lurdes, Para onde vai o nosso dinheiro - Uma jornalista nos bastidores da Administração Pública, Lisboa: Ésquilo, 2012,  pp. 27-28. 


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