Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
por Pedro Correia

Na noite de 27 de Junho, num jogo concluído com um empate após prolongamento e que culminou com a lotaria das grandes penalidades, Espanha eliminou Portugal, qualificando-se para a final do Campeonato da Europa de futebol, que viria a ganhar goleando a Itália. Ficámos à beira do título sem conseguirmos lá chegar. Mas superámos todas as expectativas, que à partida eram muito baixas. E alguns dos mais exigentes críticos internacionais da especialidade não hesitaram em qualificar aquele Portugal-Espanha como o verdadeiro jogo da final do Europeu.

Indiferentes a essas expressões de admiração alheia, de imediato começámos a escutar um coro de críticas: é o habitual nestas ocasiões. Se em alguma coisa o português se esmera é nas contínuas sessões de autoflagelação. Após três semanas de silêncio dos Velhos do Restelo, enquanto se sucediam as vitórias da equipa das quinas no Euro 2012, as tais sessões ressuscitaram minutos após essa suadíssima meia-final disputada na Ucrânia. Motivo? "Apenas" ficámos em terceiro lugar entre as 16 melhores selecções de futebol da Europa. "Apenas" empatámos ao fim de 120 minutos com os campeões do Mundo. É português "apenas" o melhor treinador da actualidade. É português "apenas" um dos dois melhores jogadores da modalidade à escala planetária. "Apenas" são portugueses dois detentores do prestigiado Prémio Pritzker, de arquitectura. "Apenas" era português o vencedor do Nobel da Literatura de 1998. "Apenas" é portuguesa uma das mais bem cotadas pintoras da actualidade. "Apenas" é português o único cineasta ainda em actividade que iniciou a carreira no tempo do cinema mudo.


Isto tem a ver com a pura incapacidade de valorizarmos o que é nosso. Mesmo quando é reconhecido, aplaudido e distinguido noutros países e noutros continentes. O nosso problema não é desvalorizarmos as derrotas, como alguns sustentam. Parece-me que o problema é precisamente o inverso: as boas notícias, para uma certa cultura dominante, tornam-se más notícias. Convivemos mal com os triunfos. Regresso ao futebol, pois é um tema emblemático: lá fora, apontam-nos como uma das três ou quatro melhores selecções da Europa; nós, pelo contrário, autoflagelamo-nos por não termos sido campeões.

E não suportamos o triunfo em ca(u)sa própria. Repare-se no que sucede com José Mourinho ou Cristiano Ronaldo: por mais provas públicas que dêem de talento e sucesso, encontrarão sempre detractores entre os compatriotas. O mesmo se aplica, noutros domínios, a um Lobo Antunes, um Siza Vieira, um António Damásio, uma Maria João Pires, uma Paula Rego, um Manoel de Oliveira.
O futebol serve de símbolo. Ou de metáfora. De um povo que olha para o copo e o vê sempre vazio. Mesmo quando tem água.

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7 comentários:
De Constança Martins da Cunha a 11 de Julho de 2012 às 17:53
Excelente post, Pedro!


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 19:37
Obrigado, Constança.


De fado alexandrino a 11 de Julho de 2012 às 20:54
O post é bom e muito bem escrito.
Acontece que o hábito de ficar em primeiro dos últimos começa a ser inquietante.
E porque estamos em futebol os sub-19 lá foram eliminados na praia e no mesmo escalão mas em femininos também fomos borda fora.
Nada disto é trágico mas é bom que deixemos de deitar foguetes por derrotas.
Os outros fazem a festa mas ganham.


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 21:45
É bom ganhar. Mas não é indispensável ganhar. Indispensável, parece-me, é estarmos entre os melhores. E estamos. Fundamental é fazermos cada vez melhor. E fazemos. Portugal qualificou-se para as fases finais dos últimos cinco campeonatos da Europa - nada semelhante sucedeu nas décadas anteriores - e esteve presente nas meias-finais dos últimos quatro.
Olhemos para o copo e não o vejamos sempre quase vazio.

(Agradeço, naturalmente, as suas palavras iniciais)


De Marão a 11 de Julho de 2012 às 21:25
Parece mesmo que padecemos de uma maleita tenebrosamente enraizada. "Para nos sentirmos felizes nem é preciso que a vida nos corra bem, basta que corra mal ao vizinho do lado".


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 21:47
É péssimo que essa mentalidade perdure, Marão. Julgo, apesar de tudo, que nessa matéria já estivemos pior. Pelo menos tento ser optimista também nisso.


De Joaquim Camacho a 12 de Julho de 2012 às 02:48
Eu sei que se te acabou a capacidade de encaixe democrática e que este comentário fará companhia aos últimos que aqui depositei, no arquivo dos nados-mortos, mas pelo menos ficas a saber como lamento o papel que presentemente desempenhas com tanto gosto.
Como os "comentadores autorizados" demonstram, na doce masturbação com que te brindam, estarem tão estrábicos como tu, Pedro, aqui vai para destoar: NINGUÉM VIU O QUE NO POST DESCREVES.
Aliás, a recepção que acolheu a selecção de futebol no regresso é prova disso mesmo. Paradoxalmente, quem demonstra, em todo o post, padecer do mal que critica nos outros és tu. Se dúvidas houvesse, aí está o "remate" final: «O futebol serve de símbolo. (...) De um povo que olha para o copo e o vê sempre vazio. Mesmo quando tem água.»
Sacana de povo mal-agradecido que despreza e não merece as generosas benesses que a Divina Providência lhe ofereceu. Desprezo com desprezo se paga. Por isso mesmo merece a ralé o desprezo que lhe dedicas. Mas também se percebe a mensagem subliminar, o subtexto, que projecta no campo político-social uma explicação para as crescentes manifestações de descontentamento. E que subtexto é esse? Elementar, meu caro Watson: este povo ingrato não compreende as maravilhosas boas intenções das pauladas e empalações a que é sujeito pelas sumidades que presentemente lhe determinam presente e futuro (ou falta dele), pelo que merece todos os castigos que venham a ser-lhe aplicados.
Apontando acusadoramente o argueiro no olho da multidão, é patética a cegueira que demonstras em relação ao eucalipto que trazes amarrado à testa.
Pois é, Pedro, o povo é fodido, nomeadamente quando diz, na sua infinita sabedoria: deixa-os poisar!


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