Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
por José Meireles Graça

Relvas tirou um curso de favor, porque era quem era; e Sócrates um curso de favor tirou porque era quem era. Os casos não são exactamente iguais: um aproveitou uma legislação que não devia existir e somou-lhe o jeitinho português; e o outro ficou-se pelo jeitinho, acrescentando-lhe, provavelmente, uma falsificação.

 


A blogosfera dos reflexos condicionados, que é quase toda, reagiu canonicamente, crucificando uns um e outros outro. Está bem: a previsibilidade, a mim, dá-me uma certa paz.


Os dois fait-divers foram porém positivos: vieram mostrar que um diploma de curso superior não certifica coisa alguma ou, melhor, que ele há diplomas e diplomas. A Católica ou Coimbra não são a Lusófona ou o Instituto de Estudos Superiores de Fafe.


E como o Estado, que deve certificar o ensino obrigatório, não deve certificar o ensino superior se quiser preservar a liberdade das universidades, fica o mercado para fazer a destrinça.


O mercado é muito imperfeito: o próprio Estado não distingue, para prover os seus quadros, a universidade A da B. Mas devia - nas empresas já isso se faz, diz-me em que te formaste e onde.


Depois há as doutorices: um perfeito imbecil pode não apenas licenciar-se mas inclusive dar aulas. Sempre assim foi - a diferença actual não é qualitativamente muita, ainda que em casos extremos se possa falar de pura e simples vigarice. Que a opinião pública se habitue a ligar mais aos argumentos per se, e menos aos de autoridade, é uma coisa boa.


Quanto ao bom do Relvas, é claro que se devia ter demitido há muito, no interesse próprio, no do Governo e no do País. Se o tivesse feito a tempo, perderia a auctoritas mas não a dignitas.

 

Mas o incidente tem um valor pedagógico, e esse vai ficar; a trapalhada esquecerá, como foram esquecidas as várias dúzias que há décadas alimentam o espaço público do nosso entretém.


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4 comentários:
De Tiro ao Alvo a 19 de Julho de 2012 às 08:52
Inteiramente de acordo consigo. Se fosse uma composição para eu apreciar dava-lhe 19 em 20, isto porque nunca dei a nota máxima.
Com isto quero dizer que gostaria de ser eu a escrever este post, mas...falta-me para tal "engenho e arte".
Declaração de interesses, não sou professor, nem licenciado.


De José Meireles Graça a 19 de Julho de 2012 às 12:11
Fico até embaraçado, Tiro... não estou habituado a receber elogios. Obrigado.


De João André a 19 de Julho de 2012 às 11:43
Giro: se dissermos que Relvas "provavelmente" moveu influências (algo de ilegal, notemos), estamos a difamar e em plena campanha contra Relvas. Se a direita disser que Sócrates "provavelmente" falsificou, já está tudo bem.

Não gosto dum caso nem de outro. Não tenho curso da farinha amparo (como os dois têm) e não sou doutor por favor feito por outros (nem Relvas nem Sócrates o são, note-se, Sócrates é engenheiro e Relvas é apenas um bacharel). Isto é apenas e só tretas.

Folgo, no entanto, ver alguém de direita (não é o único, sei-o) a afirmar que Relvas se deveria ter demitido. É, se nada mais, também uma questão de imagem e de, como escreve muito bem, de dignidade.

Só não lhe chamo "o bom do Relvas".


De José Meireles Graça a 19 de Julho de 2012 às 12:19
Parece-me óbvio que Relvas moveu influências (foi o que quis dizer com "jeitinho"), o que duvido seja ilegal - depende das circunstâncias e com quem o fez. A falsificação que Sócrates fez, ou alguém por ele, está razoavelmente documentada na blogosfera. Mas, ao contrário do que possa parecer, sou mais exigente com os meus (enfim, não exactamente "meus", eu estou bastante mais à direita) do que com os dos outros. Cumps.


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