Sexta-feira, 20 de Julho de 2012
por Luís Naves

Instalou-se na blogosfera um dos mitos mais peculiares, segundo o qual existem dois tipos de jornalismo, o bom, que se caracteriza por uma pureza lava mais branco, e o mau, que é uma pérfida manipulação conspirativa. Neste post de Nuno Lobo explodem algumas ilusões e preconceitos sobre o meio jornalístico que resultam deste mito.
Não me vou alongar, nem serei exaustivo na minha crítica ao post de Nuno lobo. Há de imediato um problema: o que é o "jornalismo interpretativo", em oposição a outra coisa qualquer? Por definição, o jornalismo é uma interpretação do real, envolve sempre um ponto de vista. Não há notícias neutras, nem reportagens, nem crónicas, nem entrevistas. Qualquer jornalista que afirme o inverso já perdeu a neutralidade, para além de negar o próprio uso da inteligência. Aliás, até a estupidez consegue interpretar uma parte do que está à sua frente.
Também são estranhas as frases do autor "a política não incumbe ao jornalista" ou os "relatos meramente objectivos". Tudo isto me parece ser uma ilusão. Na realidade, o jornalismo sempre esteve ligado à política activa. Jornalismo e política são gémeos siameses, em democracia ou ditadura.  No caso da democracia, ninguém elege os jornalistas, mas estes estão (tal como os políticos) num  ramo que depende da credibilidade, o que explica a circunstância de tantas carreiras serem efémeras. Ao contrário do que afirma Nuno Lobo, o escrutínio faz-se em cada momento.
Levada ao extremo, a tese do jornalismo bacteriologicamente puro pode levar à limitação dos direitos cívicos, ao empobrecimento extremo da matéria jornalística. O autor até podia ter levantado um problema bem mais interessante: a política activa disfarçada de comentário político.

Quando ouço argumentos sobre a separação entre jornalismo e política, a necessidade de criar severos mecanismos de escrutínio e regulação, sorrio sempre. Convém ao poder, a qualquer poder, dispor de uma imprensa dócil. A suposta 'neutralidade' significa apenas domesticar o ponto de vista e a interpretação dos factos, não é mais do que excluir todas as hipóteses de interpretação, menos uma.

Vivemos na época da relatividade. Neutro, nem sequer o cemitério.

 

Aqui, um texto mais elaborado com a mesma argumentação. 


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5 comentários:
De DEsconnhecido Alfacinha a 20 de Julho de 2012 às 17:41
Excelente e desempoeirada analise.

"O autor até podia ter levantado um problema bem mais interessante: a política activa disfarçada de comentário político."

Pois... Mais diria de Marcelo a Antonio...

Bom fds


De CeC a 20 de Julho de 2012 às 17:45
Resta, no entanto, acrescentar uma falha grave a essa noção tão magnânima do jornalismo.

É por demais óbvio que o trabalho do jornalista passará sempre pela descrição -e repito, descrição- do que se está a tentar dar a conhecer aos leitores, ouvintes, telespectadores. Até aí acredito que ninguém discordará, nem os próprios jornalista cairão no erro de uma intempestiva opinião e visão dos factos; o que falta sim, e aí me refiro à anterior falha que mencionei, é a não apresentação de dados que permitam uma estóica análise ao que está a ser apresentado.

Costumo dizer que é uma analogia semelhante a um aluno estar na escola sem livros; aprendendo apenas pelo que o professor diz, sem uma base de apoio que permita ir compreendendo e analisando.
Já agora, quando falo de dados apresentados estou a referir-me a comparações OCDE, UE, informações dos últimos anos, etc.


De Tiago Cabral a 23 de Julho de 2012 às 09:04
Não gosto de pessoas isentas. Isentas no sentido de sobre algo preferirem ficar no meio, ou de lado. Ser isento é ser acéfalo. É não ter opinião. Até pode ter uma não opinião, achar um assunto desinteressante e não lhe dar importância, mas por favor tenha alguma coisa. Na vida de todos, todos temos que tomar decisões sobre as quais os nossos sentimentos actuam. Podemos ter que tomar uma decisão que afectará alguém pela qual sentimos algo, positivo ou negativo. Esse sentimento pode afectar a decisão. Mas também pode não afectar. Ser sério sim, devemos ser sérios e não ser isentos. Podemos e devemos opinar e mesmo assim saber escutar e compreender o nosso lado oposto.

Não gosto de jornalistas acéfalos, daqueles que se arrogam como tal e por isso se dizem sérios. Um jornalista tem que ser sério no seu trabalho, mas não tem que ser isento. Gosto de jornalistas que transmitam a sua opinião, gosto de jornalistas que assumam a sua condição mas que por isso mesmo também assumem o que são, o que pensam. Enoja-me aquela escrita direitinha, sem expressão, suave (no sentido de não questionar), uma escrita muito branca, sem luta para oferecer. Viro folhas e folhas de jornais com escrita muito rasa de nível. Alguns jornalistas encaixam-se bem em qualquer lado. São burros, são pequenos, porque não imaginam o poder que têm se não encaixassem.


De k. a 23 de Julho de 2012 às 09:15
Não sou jornalista, nem percebo nada de teorias do bom ou mau jornalismo

Mas sei que quando abro um jornal, quero a verdade dos factos: esses devem ser objectivos (2+2=4). Não entendo como é que um jornalista que abandone o (impossivel) esforço de ser neutro, conseguirá dar todos os factos de forma imparcial - a interpretação da realidade, sou eu que a faço (como leitor, há que encarar a possibilidade de eu não ser completamente idiota).

Se eu quiser a interpretação dos outros, leio comentários.

Por exemplo: Se eu ler uma noticia por si, Luis Naves, eu irei desconfiar do conteudo - E não preciso de o desconsiderar; Mesmo considerando-o perfeitamente competente e honesto, a partir do momento em que voce tem um ponto de vista "interessado" numa determinada noticia, eu não sei se inconscientemente não estará a sonegar informação relevante à MINHA interpretação. Não sei se pela sua escolha de palavras, não estará a desviar o meu raciocinio - e se eu descobrir isso, mesmo mantendo a consideração por si, não lhe vou prestar atenção.





De Luís Naves a 23 de Julho de 2012 às 11:14
Não falei em 'ponto de vista interessado', mas 'em ponto de vista'. O que digo, sem ambiguidade, é que qualquer matéria jornalística tem um ponto de vista. Não existe "verdade dos factos", há distintas "verdades dos factos". Não é preciso ir mais longe do que uma situação banal de tráfego, um atropelamento, que duas testemunhas estão a observar. Pois, as duas testemunhas viram de diferentes ângulos, olharam em momentos diferentes, emocionaram-se de forma diferente. Uma vai culpar o peão, outra o automobilista.
Já ouviu a testemunha de uma explosão? Ela diz invariavelmente algo do género: "Fui a correr e a minha sobrinha (segue-se algo irrelevante) e a vítima queimada (segue-se algo irrelevante) e o senhor afonso vinha para baixo com uma sachola e começou a apagar o fogo (segue-se algo irrelevante)".
A notícia é sempre uma interpretação do real, a leitura das notícias também. A circunstância de já haver uma interpretação não retira essa liberdade ao leitor.
Sobretudo, "2+2=4" não é notícia; se toda a gente sabe, é uma informação que não adianta nada.


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