Segunda-feira, 23 de Julho de 2012
por Pedro Correia

 

Aos jovens que o procuravam para lhe perguntar como conseguia captar imagens que nenhum outro repórter fotográfico era capaz de obter, Robert Capa costumava retorquir: "Eu estava lá. Se não te aproximares suficientemente, nunca conseguirás uma boa fotografia."

Lembrei-me da lição de jornalismo contida nesta frase quinta-feira passada, ao acompanhar as dramáticas imagens televisivas dos pavorosos incêndios que têm devastado muitas zonas do país, com destaque para a Madeira. Conhecida em todo o mundo pelo magnífico verde das suas paisagens, a ilha corre agora o risco de se transformar num mar de cinza.

Vou com frequência à Madeira: considero-a uma das minhas terras adoptivas. Dói-me profundamente a visão destas imagens das chamas a devorarem casas, quintas e florestas em zonas que já visitei demoradamente, com um deslumbramento que nunca se apaga.

Com grande parte da costa sul da ilha em chamas, os repórteres acorreram à região autónoma, mostrando aos portugueses a real dimensão desta tragédia. Estes repórteres, trabalhando sem horário, por vezes em condições duríssimas, prestaram um inestimável serviço público. Mesmo os dos canais privados, que nesta matéria se equivalem aos do canal público.

Foi precisamente num dos canais privados, a SIC, que vi a melhor reportagem desse dia. Assinada pela repórter Sara Antunes de Oliveira e pelo repórter de imagem Rui do Ó. Estavam tão perto da frente de incêndio que a dado momento tiveram de abandonar o local: um súbito golpe de vento deslocara as chamas na direcção deles.

Robert Capa aplaudiria este jornalismo que não se limita a observar à distância. Eu registei a assinalável coragem física desta equipa de reportagem da SIC. E também uma rápida entrevista de Sara Antunes de Oliveira a um chefe local dos bombeiros, presente no teatro das operações. A dado momento, alguém diz que há pessoas dentro de uma casa cercada pelas chamas. "Eu não lhe roubo mais tempo", diz de imediato a repórter ao chefe dos bombeiros. A recolha de declarações era importante, mas salvar vidas humanas era incomparavelmente mais urgente.

O jornalista competente nunca abdica do seu contributo cívico. Nem que perca uma boa entrevista por causa disso.

Imagem: SIC

 


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