Terça-feira, 7 de Agosto de 2012
por Alexandre Guerra

Zho Lulu, atleta chinesa a bater um recorde mundial/Foto: Oficial/London2012

 

Que ninguém se iluda, em Portugal não existe uma cultura desportiva na sociedade e muito menos uma abordagem política ao desporto enquanto factor de poder de um Estado (tal como também não existe para a língua ou para a cultura).

E quando se menciona desporto convém referir que não se está a falar de passeatas de Domingo no paredão da marginal ou de algumas futeboladas entre amigos de semana a semana.

O desporto, que aqui interessa, é aquele que se insere numa lógica competitiva, que pressupõe a superação diária de dificuldades, um espírito de autossacrifício e a ambição pela perfeição e pelos resultados. O desporto, assim, glorifica os seus intervenientes e prestigia as suas bandeiras.

Muitas das vezes, os Estados tentam reflectir nos feitos desportivos (tal como noutras áreas) um certo modelo de sociedade, evoluída e sofisticada. Na verdade, um pouco à imagem do pensamento “platónico”, a integração do desporto no quotidiano dos cidadãos representa um estádio evolutivo da "cidade".

Todas as nações com ambições nas Relações Internacionais utilizam o desporto como forma de prestígio e de ascensão mundial. Muitas das vezes de forma perversa, como aconteceu na Alemanha do III Reich, no regime Soviético durante a Guerra Fria ou na China emergente no início dos anos 90. Nestes casos não se podia falar numa verdadeira cultura social pelo desporto, mas antes numa política autoritária/totalitária governamental de “produção” de campeões. Um modelo que, à semelhança do paradigma que regia as suas sociedades, era insustentável e tendia a desabar, como veio a acontecer. A própria China, em plena globalização, foi obrigada a repensar a sua política desportiva, caso quisesse integrar o “concerto” das nações "respeitadas" no sistema internacional.

Entre os países mais desenvolvidos o desporto também foi sempre visto como um factor de poder, altamente valorizado, no entanto, o seu enquadramento na sociedade foi feito de forma “democrática” e sustentável.  

 

Os Estados Unidos, goste-se ou não, serão o expoente máximo dessa homenagem ao desporto. Paradoxalmente, é um país que cultiva o sedentarismo e o facilitismo, mas ao mesmo tempo existe um entusiasmo genuíno pelo desporto.

Um entusiasmo que nasce nas comunidades familiares ou de bairro e que depois amadurece no âmbito do desporto escolar (levado a sério e não como uma brincadeira como acontece em Portugal). Depois é nas universidades que se fazem os campeões.

Se nos Estados Unidos a valorização do desporto e das suas várias modalidades é uma realidade intrinsecamente ligada às grandes políticas governamentais, também países como o Reino Unido, a Espanha ou a China são sensíveis a esta matéria.

Embora com poucas medalhas nestes Jogos Olímpicos, a Espanha é um caso muito interessante pela forma como tem utilizado o desporto (mas também a sua língua e cultura) para se afirmar no mundo. Mas será a China o melhor exemplo dessa relação do desporto com a imagem do Estado, com os actuais Jogos Olímpicos a espelharem fielmente o poderio emergente do Império do Meio no sistema internacional.  

Outros exemplos há. Veja-se o Cazaquistão. Herdeiro da predisposição soviética para a valorização do desporto, os seus líderes têm procurado potenciar determinadas modalidades como forma de afirmação daquele país, sobretudo num contexto regional. A sua equipa de ciclismo, a Astana (capital), será o expoente máximo dessa estratégia, com Alexandre Vinokurov à cabeça e que venceu a medalha de outro na prova de estrada destes Olímpicos.     

Também países como o Quénia ou a Etiópia, com os seus inúmeros campeões de atletismo nas disciplinas de fundo e meio fundo, ou ainda a Jamaica, com os seus velocistas, assumem-se com um alto perfil na cena internacional no que diz respeito ao desporto.

O mais interessante nestes Estados é que parece haver uma orientação para os resultados nas disciplinas potencialmente vencedoras, numa estratégia em que os Governos e as respectivas federações nacionais desempenham um papel muito importante.

Um dos pontos comuns entre estes países menos avançados e nações como os Estados Unidos ou a Espanha é a focagem concertada e estratégica que passa por uma cultura colectiva permanente de respeito e de gosto pelo desporto e pelas modalidades que são mais acarinhadas nas sociedades.

Ora, em Portugal, à semelhança do que tem acontecido com a língua e a cultura, não se pensa o desporto como recurso nacional. À falta de cultura desportiva dos cidadãos, associa-se a ausência de um pensamento estratégico sobre a política do desporto.  

Os portugueses lá despertam para o “desporto” de quatro em quatro anos. Pelo meio, é futebol, futebol e futebol. Na verdade, Portugal é dos poucos países desenvolvidos onde uma modalidade se sobrepõe de forma tão desequilibrada sobre as outras.

Os cidadãos, pouco cultos (desportivamente falando, claro está), não têm predisposição para, regularmente, irem acompanhando o mundo do desporto (com excepção do futebol). E muito menos sensibilidade têm para passar e incutir aos seus filhos os valores do desporto.

Dos líderes políticos não se ouve uma palavra sobre o assunto e a imprensa só revela ignorância (com uma ou outra excepção). Veja-se a pobreza do discurso no sequência da falta de medalhas da comitiva portuguesa nos Jogos... Lá veio a mais que previsível discussão sobre as bolsas dadas aos atletas. Hoje, infelizmente, tudo se parece resumir a contas de merceeiro.

Mas o problema é que o tema dos apoios só faz sentido ser discutido se primeiro forem feitas as perguntas certas, tais como: “Que desporto Portugal quer ter?”; “Faz sentido levar mais de 70 atletas aos Olímpicos, quando alguns deles não têm argumentos competitivos aceitáveis?”; “Quais são os atletas que estiveram em consonância com as suas marcas do ano e aqueles que estiveram muito abaixo?”; “Que tipo de projecto olímpico faz sentido para Portugal?”.

Nem uma destas perguntas foi feita pela imprensa ou pelos decisores. Mais, são poucos os que têm tido a perspicácia de analisar os resultados nacionais verdadeiramente inéditos e importantes que se têm estado a alcançar nestes Jogos Olímpicos. Resultados, esses, (nomeadamente, com algumas meias-finais e finais), que são sustentáveis no tempo e que resultam de um esforço continuado ao longo dos últimos anos.

O problema é que à nossa sociedade portuguesa falta-lhe a tal cultura do desporto, inviabilizando qualquer debate profícuo e sério sobre o assunto, assim como a criação de bases sólidas para uma abordagem estruturada ao desporto. O que se vê é antes uma psicose contemporânea obsessiva pelo “saudável” (onde impera a lógica dos ginásios, do “light”, das dietas) que nada tem a ver com desporto nem com os seus valores.   

Numa declaração de interesses, o autor destas linhas confessa-se um apaixonado e desde sempre um praticante de desporto. Começou cedo e muito jovem já tinha três a quatro treinos por semana. Antigo competidor de judo nos escalões de infantil, juvenil e de júnior, chegou a ser internacional, com um segundo lugar em França. Para um jovem, são momentos que nunca mais se esquecem e que ajudam a moldar o carácter e a forma de estar em sociedade.

Desde então que o desporto é parte integrante da vida. Hoje, e de há 15 a 20 anos a esta parte, o prazer de correr ou de pedalar em BTT (seja em Cross Country ou Enduro/Freeride) faz parte do quotidiano.

Para este autor, a paixão pelo desporto não surge de quatro em quatro anos, ela está lá diariamente e faz parte da sua vida. De quatro em quatro anos é, sim, a hora da festa olímpica e da glorificação daqueles semideuses. 

 


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5 comentários:
De Cobarde a 7 de Agosto de 2012 às 12:37
Concordo no essencial e em absoluto na ausência de uma política séria de desporto; o que queremos dele; e até onde queremos chegar. Com a ameaça de desaparecimento da RTP 2 quero ver onde vou ver essas outras modalidades que não o futebol. Finalmente, sobre a declaração de interesses do autor, estou certo que os 70 olímpicos e muitos outros desportistas, têm esse espírito e essa vontade de treinar de praticar de serem homens e mulheres melhores. Mente sã em corpo sã, não é o que se diz? Haja condições e vão ver. Afinal só somos 10 milhões e já estivemos taco a taco com as grandes potencias.


De Alexandre Guerra a 7 de Agosto de 2012 às 15:43
Pertinente, a observação sobre a RTP2. Porque, quanto a desporto (que não futebol), a SIC e a TVI são inexistentes.
Cumprimentos,
Alexandre


De João André a 7 de Agosto de 2012 às 14:47
Um aplauso caro Alexandre, vindo de alguém que também sempre praticou o desporto (embora nunca ao mesmo nível).

Tal como foi dito, falta cultura desportiva. Para muitos atletas, ir aos JO é a sua vitória. Sabem que não poderão fazer mais. Mas mesmo que não esperemos nada de especial de alguns deles, porque razão haveríamos de lhes cortar a possibilidade de irem? Por um lado podem eles (e os treinadores) ganhar experiência. É como ir a uma conferência científica mesmo que não se apresente nada. Há sempre possibilidade de aprender novos métodos, partilhar ideias e até fazer contactos que poderão no futuro ser úteis. Por outro lado, se um praticante de (por exemplo) badminton vir que por provavelmente não passar da primeira fase não terá possibilidade de ir aos JO, poderá decidir não continuar a praticar. Tem que haver uma recompensa para certos praticantes. O Comité Olímpico Internacional reconhece-o e por isso mesmo dá vagas a países cujos atletas nunca chegariam aos JO através dos seus mínimos. O caso de Eric Moussambani que acabou por se apurar 4 anos depois de ser figura de ridículo demonstra-o bem.

Quanto aos apoios, a Grã Bretanha é um exemplo perfeito. Em 1996 tiveram uma única medalha de ouro. Depois disso decidiram atribuir fundos da lotaria nacional aos atletas. Hoje, mesmo contando com o "factor casa" estão em 3º lugar no medalheiro. São o exemplo de uma nação que, não tendo à partida as vantagens genéticas de países como os da África de Leste ou caribenhos (fora alguns emigrantes ou descendentes destes), consegue vários triunfos em diversos desportos. Esse apoio faz a diferença na possibilidade de fazer estágios, acompanhar os atletas de forma científica, retirar-lhes preocupações a nível financeiro, ter um gabinete que lhes trata das questões burocráticas (vistos para estágios no Quénia, por exemplo), etc.

Outra vantagem que têm está nos comentadores. Os da BBC são sempre ex-desportistas, homens e mulheres que sabem o significado de uma vitória ou uma derrota e que não desancam os atletas quando falham. Como entendem bastante de desporto, também percebem a importância das circunstâncias de um resultado negativo (Vera Barbosa esteve algo mal na sua meia-final dos 400 m barreiras, mas correu na pista 9 e não tem experiência suficiente para isso. Os comentadores da BBC fizeram essa mesma observação de passagem ainda antes da partida).

Isto não quer dizer que tenhamos maus comentadores. Pelo contrário. Luís Lopes é fabuloso. O comentador do ténis de mesa ensinou-me mais em meia hora do que anos de partidas ocasionais com amigos. O problema é que estes comentadores, tão didáticos, acabam por ser mal recebidos por portugueses habituados a comentadores de futebol que nada percebem do que dizem (não creio que haja hoje um único decente nesse desporto). E a fraca visibilidade desses desportos ainda mais piora o panorama.

Se alguém me leu até aqui, já está cansado/a de mim. Deixo apenas um conselho para ver os JO: http://www.eurovisionsports.tv/london2012/index.html. Neste link estão televisões de toda a Europa e feeds sem comentários para todos os desportos a decorrer. Explorem. Vale bem a pena.


De Alexandre Guerra a 7 de Agosto de 2012 às 15:38
Caro João,
excelente contributo.
Abraço,
Alexandre


De César Rodrigues a 11 de Abril de 2013 às 12:40
Olá Alexandre,

Peço desculpa por recuperar um post um pouco mais antigo mas o mesmo ajudou-me a servir, à altura, de mote a uma pequena iniciativa pessoal que tinha em mente.

Quando tive a oportunidade de ler este post estava também "cansado" de, mais uma vez e em ciclos de quatro anos, Portugal acordar para o desporto (que não o futebol) pela participação dos atletas olímpicos. Que depois se desvanece e que muito dificilmente se consegue ir acompanhando a evolução

Daí surgiu a ideia de criar este blog (http://caminhadadosherois.pt) que apenas, com pena minha, o consegui erguê-lo durante o mês passado. É um projecto no qual pretendo, acima de tudo, dar a conhecer melhor os nossos atletas olímpicos (denominados Heróis), quer pelas vitórias que vão alcançado Nesta primeira fase apenas estou a "trabalhar" com as notícias que vou recebendo mas espero que consiga envolver cada vez mais cada um dos atletas referenciados no blog.

Lembrei-me agora de "repescar" este post para dar a conhecer ao Alexandre este pequena iniciativa que espero, possa mudar um pouco a percepção do público da dedicação que estes Heróis colocam nas suas modalidades. Caso o Alexandre ache pertinente dar a conhecer aos leitores do Forte este projecto, ficaria-lhe grato por essa divulgação.

Um Abraço,


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