Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012
por Carlos Faria

Concluí de rajada a dose fast food da trilogia Millennium de Stieg Larsson e não me arrependi.
Sabia que não seria uma obra-prima de arte literária, mas não leio apenas Mann, Proust e afins, precisava de perceber o que motivara tão grande sucesso e claro percebi logo que a estratégia do thriller costuma dar bons frutos, mas este conjunto não é só isso.
Além de ter sabido encadear acontecimento, Stieg Larsson mostrou um conjunto de personagens que apesar de parecerem amorais nos bons costumes estão cheias de princípios éticos e sedentas de uma justiça não atada pelas próprias regras que sustentam a liberdade e a democracia social na Suécia.
O primeiro volume é uma obra à parte, tecnicamente mais bem estruturada e com princípio meio e fim, pode servir de experiência para quem não arrisca comprar a trilogia de uma só vez.
Apresentação dos protagonistas com uma heroína estilo punk vítima dum mundo preconceituoso que não a compreende e é sujo, a qual acompanha uma investigação jornalística, onde se descobre do pior que pode haver no ser humano e se desmascara esta sociedade corrupta em que vivemos. Uma escrita despretensiosa pouco interessante... mas que é uma denúncia cheia de emoções.
Devido à minha cooperação com jornais retenho o seguinte parágrafo já perto do final "Oh sim, os media tem uma enorme responsabilidade. Durante quase vinte anos, muitos jornalistas abstiveram-se de investigar... Se tivessem feito o seu trabalho como deve ser, não estaríamos hoje na situação em que estamos."

 

 

Os outros dois volumes são demasiado interdependentes e dificilmente podem ser lidos isoladamente e têm pormenores repetidos dos anteriores que por vezes cansam e provavelmente era desnecessário serem tão extensos, mas levantam uma série de questões que mereceram sublinhados no meio de um suspense de cortar por vezes a respiração e de alguma violência que dói só de imaginar.
Pode o edifício da democracia criar monstros dentro de si cujo objetivo é a sustentação desse mesmo edifício? Seria o Estado bem melhor se os jornalistas em vez de meros transmissores de notas e conferências de imprensa ou daquilo que veem fossem sobretudo investigadores a sério da realidade? Estará o Estado de direito maniatado pelas suas próprias leis que não consegue assegurar uma verdadeira justiça aos cidadãos vítimas de quem não respeita a normas? Não perdoaríamos o Estado que transgredisse a Lei para fazer justiça, mas perdoaremos que alguém de fora transgrida as regras para se conseguir o mesmo fim? Julian Assange não estará em parte retratado e justificado nesta trilogia?

 

  

Um fast food que tem em simultâneo a capacidade de nos distrair e de fazer pensar, se quisermos mesmo refletir as ideias constantes nas entrelinhas da escrita deste jornalista precocemente desaparecido.


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