Domingo, 12 de Agosto de 2012
por Joana Nave

Tenho um enorme fascínio pela profissão de tradutor. Sendo eu uma apaixonada pelas letras, delicio-me com a imensidão de palavras que existem em cada idioma e nas equivalências entre elas. Maravilho-me com expressões idiomáticas, estrangeirismos, e mais ainda com as palavras ou expressões que são únicas em cada língua, pertença da cultura que lhes deu origem.

Quando era miúda passou-me pela cabeça ser jornalista, depois ganhei juízo e percebi que seria mais bem sucedida como economista mas hoje, olhando para trás, acho que teria sido uma boa tradutora, ou talvez não… Admiro imenso a profissão e acho-a verdadeiramente útil no contexto de globalização em que vivemos. Não consigo conceber o mundo como um conjunto de povos isolados, sem contacto uns com os outros, nem me imagino a viver confinada à produção nacional. Existe muita coisa boa e interessante produzida em português, mas não podemos esquecer-nos que o conhecimento advém do que já foi dito, escrito ou traduzido, o resto é fruto do que a nossa imaginação cria e traz à luz do mundo.

Claro que ao falar em tradução não posso deixar de mencionar a indústria audiovisual. Confesso que a minha falta de conhecimento me levou muitas vezes a criticar este tipo de tradução, com comentários do tipo: “que péssima tradução”, “ele não disse aquilo”, “ele disse muito mais do que foi traduzido”, ou o mais castrador “os portugueses não sabem traduzir”. Foi preciso ter alguma humildade para revelar estes comentários a uma amiga, tradutora de audiovisual, e pedir que me explicasse porque é que a tradução em Portugal não é fiel ao que é dito pelos actores. A explicação, surpreendentemente simples, revelou-me a minha ignorância sobre o assunto. De facto, a tradução audiovisual é bem mais complexa do que parece à primeira vista, é necessário cumprir regras criteriosas, nomeadamente, número de palavras por linha e número de palavras em cada cena. Traduzir um filme, por exemplo, não tem nada a ver com a tradução de um livro, em que para transmitir uma determinada ideia se pode recorrer a uma explicação minuciosa. A tradução audiovisual tem de ser simples e perceptível, transmitindo apenas as ideias principais, até porque o mais importante é conciliar o que se lê com o que se vê. Depois disso, comecei a comparar traduções de filmes em inglês com legendas em inglês e dei-me conta que as traduções portuguesas seguem as mesmas regras que as outras.

Como diz a minha amiga tradutora, o trabalho do tradutor deve ser invisível, isso marca uma boa tradução. E hoje, realisticamente, sou levada a concluir que a profissão de tradutor me fascina, mas não é para mim!


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7 comentários:
De Carlos Moreno a 11 de Agosto de 2012 às 20:55
Blogue sobre pintura: http://pintormor946.blogspot.pt/


De Pedro Correia a 12 de Agosto de 2012 às 00:10
Muito bem, Joana. Inteiramente de acordo. Há traduções e traduções. No audiovisual esses condicionalismos exigem requisitos muito especiais.


De Carlos Faria a 12 de Agosto de 2012 às 11:38
Gostei imenso do artigo, adorei a ideia deixada pela invisibilidade do tradutor. Diz tudo, sobretudo na literatura... compreendo a questão no audiovisual, mas claro há bons tradutores e não só.



De João Espinho a 13 de Agosto de 2012 às 14:28
Gostei de ler.
A tradução é um mundo para muitos verdadeiramente desconhecido. Recordo-me de ter um colega dedicado à tradução e legendagem de filmes e das preocupações com a condensação da mensagem.
Realço também aqueles tradutores invisíveis mas presentes no nosso quotidiano (os tradutores técnicos em diversas áreas como a aeronáutica, a arquitectura e as engenharias), não esquecendo os tradutores das leis e das ferramentas das diversas justiças.


De Júlio Freire de Andrade a 13 de Agosto de 2012 às 18:52
Em geral estou de acordo, principalmente no que se refere à tradução do audiovisual. No entanto, neste aspecto como noutros, deparo frequentemente com enormes disparates de tradução. Como tradutor profissional, mas de domínios técnicos, sei bem que há dificuldades e limitações, mas há também erros ou critérios duvidosos. No meu blog (Será que os anjos têm sexo?) falei sobre a mania que alguns tradutores de falas em notícias na TV têm para tentar corrigir ou aformosear o que dizem os oradores, o que me irrita profundamente.


De Joana Nave a 15 de Agosto de 2012 às 15:47
Muito obrigada pelos vossos comentários.
Valorizo muito a tradução e tenho uma profunda admiração pelos tradutores (os bons, claro), porque facilitam, e muito, a vida de todos os que gostam de aprender sobre as mais variadas áreas.
Até à próxima crónica!


De Carla a 16 de Agosto de 2012 às 12:25
Adorei ler a tua crónica, Joana. De facto, além dos treinadores de bancada, há muito "tradutor de bancada" em Portugal. É verdade que se vê, por vezes, uns valentes disparates nas traduções. Lembro-me de uma legendagem d' "O Senhor dos Anéis" onde traduziram o famoso "No man can kill me" do senhor dos Nazgul por um grotesco "Nenhum ser humano me pode matar", que não faz qualquer sentido quando se conhece a história. Mas há também muito boas traduções, onde se encontram soluções absolutamente geniais.


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