Segunda-feira, 27 de Agosto de 2012
por Maurício Barra

O neo-realista residente do Largo do Rato Arons de Carvalho, os comentadores da RTPN, o tremendista Miguel Sousa Tavares, a primeira página do Expresso, o "editorial" do Ricardo Costa, a notícia direccionada do Público (que iniciou há duas semanas uma campanha para criar divergências entre o PSD e o CDS), a SICN, a redacção da RTP1 (*), todos eles juntaram-se ao PC e ao BE na crítica à privatização da RTP. O PC que desde 1974 quer (e em certas fases conseguiu) controlar a RTP. Na redacção, na edição, nos sindicatos, sempre o PC enquadrou a RTP (e a RDP) como o "seu" meio por excelência para transmitir a "sua mensagem", formatando ideológicamente a informação a que os portugueses tinham direito. Ramalho Eanes enfentou-os em 1974, mais tarde Sá Carneiro obrigou-os a recuar, mas depois com as televisões privadas (contra as quais estiveram sempre contra mas a que rapidamente "aderiram") e o sucesso que estas rapidamente obtiveram baseadas em puro trabalho jornalistico e na credibilidade, o impacto da informação condicionada da RTP perdeu escala de valor.

Todos eles estão, não contra o modelo de privatização, mas contra qualquer privatização. Tout court.

Eis como um "complicómetro" (**) levantado por uma "lebre" do Governo acabou por levantar e juntar os interesses corporativos e políticos que  ao longo da nossa "democracia " se mancomunaram para nos controlar.

A perturbação é evidente. Todos vão perder parte do poder que actualmente dispôem para controlar a informação que chega aos portugueses. Um novo player obrigará a que todos possam vir a ser avaliados pelo mercado em termos de credibilidade e formatação ideológica da informação. 

Daí o pânico que grassa sobretudo nos partidos não democráticos de esquerda e, infelizmente sem surpresa, nos "órgãos oficiais" da Impresa/Balsemão, onde a estratégia da aranha dos actuais directores, que demorou anos a tecer para controlar o principal grupo privado da imprensa portuguesa, transformando-o em informação mais "amiga" da esquerda do que amiga da verdade, pode ir todo por água abaixo.

 

(*) aqui não incluo o realizador António Pedro de Vasconcelos, porque a sua questão principal é o financiamento do audiovisual português a partir de uma plataforma pública, assunto que terá de ser equacionado seja qual for o modelo de privatização que o Governo entenda accionar.

(**) de facto o Governo aparentemente ligou o complicómetro para resolver este assunto. Em vez de seguir em frente com a proposta consensual de privatizar a RTP1, RTPN e RDP, reservando a RTP2, a RTPMemória, a RTPInternacional e RTPÁfrica para o "serviço público" que a Constituição "consagra", decidiu-se por um caminho absurdo que levantará dúvidas até para quem quer a privatização da RTP . Como diz Carlos Fiolhais " queremos acabar com as PPP's e agora com a RTP querem fazer mais uma". Voltamos a uma velha   tradição portuguesa : quando há a hipótese de decidir de uma forma clara e enxuta, prefere-se avançar para soluções a  dar tiros nos pés. 


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6 comentários:
De Tiro ao Alvo a 27 de Agosto de 2012 às 08:51
De acordo. Só me admiro é de não aparecerem outras pessoas a dizerem coisas semelhantes.
Toda essa gente que apareceu agora, e que aparece quase sempre, a defender a televisão pública, não se importa com os rios de dinheiro que a RTP nos consome. Até parece que vivem, todos eles, desses dinheiros. E, daí, muitos deles, talvez vivam...


De Marão a 27 de Agosto de 2012 às 09:06
Esperteza em cru. Há a coisa garantida de que Relvas não goza mais comigo e leva Passos atrelado. Este sério malfadado anda muito mal acompanhado, e nem as milagrosas aparições Borgeanas restauram qualquer Santa da Ladeira.



De Tiago Cabral a 27 de Agosto de 2012 às 10:23
Teremos sempre o correio da manhã.


De opaisquetemos a 29 de Agosto de 2012 às 09:24
Todas as análises sobre a realidade têm mais de uma interpretação. Tudo depende do ponto de vista de cada um.
Números, percentagens e estatísticas dependem da forma e intenção como são apresentados, mas nem sempre correspondem às realidades do dia a dia.


De isabel costa a 29 de Agosto de 2012 às 09:48
A RTP é hoje uma estrutura extremamente pesada com 7 canais e com um share de audiências no canal 1 a rondar os 20% mais 3,2% da RTP2 e que para isso absorve 145 milhões de euros anuais mais receitas de publicidade e não tem praticamente nada que se possa considerar serviço público. Com o aparecimento das estações privadas deixou de se justificar a cobrança de uma taxa de audiovisual para manter uma estação de televisão pública com audiências tão reduzidas. Existem outras prioridades onde aplicar esses recursos financeiros da saúde à educação passado pela segurança onde existem fortes carências (na minha modesta opinião). Portanto a RTP 1 deve ser vendida. Idem para a TAP. Eventualmente eu também preferia que se mantivesse a RTP 2 mas com um controlo rigoroso quer financeiro quer de conteúdos, todavia tal não me parece uma hipótese muito realista numa empresa habituada a uma cultura de esbanjamento total. Proclama -se muito o facto de a estação pública estar a dar lucro nos últimos 2 anos (em 2003 deu 1200 milhões de euros de prejuízo pagos por nós cidadãos) a verdade é que a RTP sem a "alavanca " da taxa audiovisual seria um desastre financeiro total e isso é desleal em relação a estações privadas que sobrevivem apenas de receitas publicitárias. Acho portanto que a empresa deve ser privatizada e acabar-se com a taxa de audiovisual. A factura da EDP já é bastante elevada sem isso e para lixo televisivo já nos bastam a SIC e a TVI que cumprem perfeitamente a custo zero o papel de "entreter" e informar a população. A triste realidade é que estamos a viver com empréstimos estrangeiros (e por isso a abdicar da soberania nacional) e não temos recursos financeiros próprios para estes "luxos" tal como existem noutros países europeus em melhor situação financeira. Ou acordamos para essa realidade e mudamos ou apesar das promessas dos políticos ainda iremos viver verdadeiros tempos de pesadelo bem piores que os actuais.


De Maurício Barra a 29 de Agosto de 2012 às 15:06
Concordo substancialmente consigo. A alternativa de manter a rtp2 é só mesmo para "cumprir" a obrigação constitucional de haver um serviço público.


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