Há não muito tempo o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça foi filmado enquanto, em passinhos apressados no Terreiro do Paço (salvo erro), dava uma entrevista a um jornalista malcriado sobre a interferência de Sócrates na TVI. Ficou-me na retina a imagem do mais alto magistrado judicial a balbuciar umas coisas mal amanhadas, enquanto contrariado se encolhia perante a saraivada de perguntas.
Os jornalistas acham que, se forem insolentes, puserem de lado normas elementares de trato, atalharem o passo, interromperem raciocínios e discursos, transformarem entrevistas em debates - interpretam o sentir e os desejos do público. Terão talvez razão: pelo menos para o público das caixas de comentários dos jornais on-line, onde a indignação em maiúsculas vai de par com o insulto rasca, a linguagem desbragada e o pontapé na Gramática.
Os políticos, os nossos e os dos outros, julgam que assim se aproximam do "povo". Engano deles: o povo que berra e esperneia também é povo, mas não é o Povo. E não se pode respeitar quem não se dá ao respeito.
Numa versão mais tecnológica deste equívoco, há as páginas do Facebook. Nelas, o governante "ouve" os dislates, as irrelevâncias, a graxa ou as piedades de quem imagina que ele tem tempo para o ouvir.
De um líder espera-se que seja mais lúcido do que os liderados; e que trabalhe, estude, ouça especialistas, pondere, avalie - e decida.
Não é que um privatus esteja necessariamente errado e os especialistas necessariamente certos. É que no dia em que os homens de Estado forem marionetas de uma opinião pública volúvel, sentimental, ignorante e espectadora do Preço Certo, estaremos perdidos. Não se pode confiar num tribunal no qual possamos dizer ao juiz, se discordarmos da sentença: és burro como uma porta, ó caramelo!
E pior se o Juiz se dirigir à parte decaída e lhe disser, compungido: ai queridos, o tanto que me custou esta sentença! Eu bem queria decidir de outra maneira, mas não pude, ai!, não pude, que ele há o Direito, e as minhas obrigações, e a ponderação dos interesses em presença, e tal.
Passos Coelho e quem o aconselha poderiam talvez lembrar-se que há modas que mais vale não copiar. Senão, um destes dias tem que ser filmado com os pés em cima da mesa, a beber coca-cola e a fingir que é um de nós.
Isso funciona com Americanos. Nós bebemos vinho, mesmo que seja uma zurrapa.