Terça-feira, 11 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

Há não muito tempo o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça foi filmado enquanto, em passinhos apressados no Terreiro do Paço (salvo erro), dava uma entrevista a um jornalista malcriado sobre a interferência de Sócrates na TVI. Ficou-me na retina a imagem do mais alto magistrado judicial a balbuciar umas coisas mal amanhadas, enquanto contrariado se encolhia perante a saraivada de perguntas.


Os jornalistas acham que, se forem insolentes, puserem de lado normas elementares de trato, atalharem o passo, interromperem raciocínios e discursos, transformarem entrevistas em debates - interpretam o sentir e os desejos do público. Terão talvez razão: pelo menos para o público das caixas de comentários dos jornais on-line, onde a indignação em maiúsculas vai de par com o insulto rasca, a linguagem desbragada e o pontapé na Gramática.


Os políticos, os nossos e os dos outros, julgam que assim se aproximam do "povo". Engano deles: o povo que berra e esperneia também é povo, mas não é o Povo. E não se pode respeitar quem não se dá ao respeito.


Numa versão mais tecnológica deste equívoco, há as páginas do Facebook. Nelas, o governante "ouve" os dislates, as irrelevâncias, a graxa ou as piedades de quem imagina que ele tem tempo para o ouvir.


De um líder espera-se que seja mais lúcido do que os liderados; e que trabalhe, estude, ouça especialistas, pondere, avalie - e decida.


Não é que um privatus esteja necessariamente errado e os especialistas necessariamente certos. É que no dia em que os homens de Estado forem marionetas de uma opinião pública volúvel, sentimental, ignorante e espectadora do Preço Certo, estaremos perdidos. Não se pode confiar num tribunal no qual possamos dizer ao juiz, se discordarmos da sentença: és burro como uma porta, ó caramelo!


E pior se o Juiz se dirigir à parte decaída e lhe disser, compungido: ai queridos, o tanto que me custou esta sentença! Eu bem queria decidir de outra maneira, mas não pude, ai!, não pude, que ele há o Direito, e as minhas obrigações, e a ponderação dos interesses em presença, e tal.


Passos Coelho e quem o aconselha poderiam talvez lembrar-se que há modas que mais vale não copiar. Senão, um destes dias tem que ser filmado com os pés em cima da mesa, a beber coca-cola e a fingir que é um de nós.


Isso funciona com Americanos. Nós bebemos vinho, mesmo que seja uma zurrapa.

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4 comentários:
De fado alexandrino a 11 de Setembro de 2012 às 18:35
Gostava de ter escrito isto.


De José Meireles Graça a 11 de Setembro de 2012 às 22:53
Obrigado, Fado, muito obrigado.


De O cão que fuma a 11 de Setembro de 2012 às 19:43
Sou luso-brasileiro. Depois de 38 anos de Rio de Janeiro, estou há dois em Portugal.
Hoje comentava com os meus pais sobre a extrema grosseria que se lê nas caixas de comentários de jornais, facebook... perguntava-me de onde vem tanto ódio – ideológico e pessoal...
Num ápice, ao relembrar as "intervenções" de um bispo, as "ferroadas" de um ex-presidente da República, a eterna suspeição e o cinismo esculpidos no ricto facial de um futuro ex-líder de um nanico partido, o eterno insulto na boca de um líder (?!) de um partido que só sabe pronunciar uma panóplia de palavras agressivas, ofensivas e insultuosas... o que esperar dos amestrados gorilas?
Abraços./-


De monge silésio a 12 de Setembro de 2012 às 01:29
Por enquanto palavras...
Sou absolutamente contra a ideia do povo sereno...
É daquelas ilusões que acriticamente se diz para aí
...deveriam ler os Autos da Inquisição e o poder da massa colérica...ou a guerra civil liberais/absolutistas do sec. xix,
... ou o interior das casas dos nossos paterfamilias chiques ou da ralé...


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