Sábado, 22 de Setembro de 2012
por Pedro Correia

Todos vimos em directo, nos canais de televisão. António Ramalho Eanes - talvez o político mais impoluto que conheci até hoje em Portugal -, João Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Soares, Bagão Félix, Leonor Beleza, Jorge Sampaio, Vítor Bento e todos os outros conselheiros de Estado foram insultados e vaiados, à chegada e à saída ao Palácio de Belém, por uma multidão que lhes chamava "chulos" e "gatunos".

"Quis ver os desavergonhados que se estão a aproveitar do nosso país", dizia uma senhora entrevistada por uma equipa de reportagem televisiva, enquanto um cavalheiro também presente na vigília da praça Afonso de Albuquerque berrava: "A democracia tem que acabar."

Uma coisa são as críticas - duras, indignadas, veementes - ao Governo. Outra é arrasar por igual todos os políticos, defender o fim das instituições democráticas e menosprezar os mecanismos constitucionais. Confundir tudo numa amálgama de impropérios onde só falta pedir um "pulso forte" para "endireitar o País" é meio caminho andado para desembocarmos numa situação muito pior do que a actual.

Os protestos de rua são inteiramente legítimos. Mas a rua não substitui o voto, por mais genuína que seja a indignação colectiva. E a insensatez dos insultos aos conselheiros de Estado está nos antípodas da cidadania. Ao contrário do que gritava o tal cavalheiro, a democracia não deve acabar. Deve melhorar, isso sim. E ser aprofundada. Sempre com mais cidadania, nunca com menos.

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9 comentários:
De Helena a 22 de Setembro de 2012 às 08:52
Portugal está à beira do abismo e a flirtar com a ditadura. Medo, muito medo.


De Pedro Correia a 23 de Setembro de 2012 às 16:24
As forças policiais mantiveram um comportamento irrepreensível. Mesmo sob uma saraivada de cuspidelas, insultos, pedras e até petardos.


De Marão a 22 de Setembro de 2012 às 11:36
As multidões são mesmo assim. Em todo o caso pode extrair-se uma conclusão a propósito destas movimentações. O que estará fundamentalmente em causa não parece que seja este 1º Ministro, mas todos os governantes que ao longo dos anos se vão sucedendo sucessivamente sem cessar. É de crer que o edifício da nossa organização política esteja a cair de podre, pelo que os redutos partidárias que aí se movimentam em rodízio deviam tomar a iniciativa, ponderar e accionar por dentro uma arejadora reforma. A não ser assim, para não ser exaustivo perguntaria quando é que a sociedade civil se organiza para terminar com o exclusivo ditatorial dos partidos na nossa participação e representação política? Uma nova lei eleitoral que deixe de reduzir a democracia a um casulo de compadrios entre elites banhadas em naftalina. Sem contemplações!


De Pedro Correia a 23 de Setembro de 2012 às 16:26
E no entanto - como a História demonstra - muitos despotismos começaram precisamente por se acolher sob a pulsão irracional de multidões em fúria.


De Marão a 23 de Setembro de 2012 às 17:24
Bem lembrado e com toda a oportunidade.


De Floriano Mongo a 22 de Setembro de 2012 às 14:47

Sinto por esses nostálgicos do autoritarismo a vergonha que eles não têm.

Tivessem um mínimo de inteligência e pudor essa gente perceberia q só está ali a manifestar-se porque existe a democracia que lhes garante esse direito. Por isso as democracias podem ser amadas ou odiadas.
Já as ditaduras só podem ser amadas.


De Pedro Correia a 23 de Setembro de 2012 às 16:23
O ódio à democracia representativa é o primeiro paso para a instauração de uma ditadura. Sempre assim foi.


De Rodrigo Saraiva a 22 de Setembro de 2012 às 22:33
é isso, sem tirar nem pôr.


De Pedro Correia a 23 de Setembro de 2012 às 16:23
Com as nossas televisões recolhendo e difundindo acriticamente as maiores atoardas que sempre servem para encher tempo de antena.


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