Sábado, 29 de Setembro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

Hoje, na Universidade de Vigo, explicava a um dos meus professores que um dos meus amigos e parceiro me denominava, enquanto perigoso regionalista nortenho, habitante da Galiza Sul. Ao que ripostou, com sonora gargalhada tão típica de galego, que ele se sentia um português do Norte.

 

Nem todos percebem esta relação verdadeiramente especial entre nós, as gentes do Norte de Portugal e as gentes da Galiza, sobretudo do Sul da Galiza – Tui, Vigo, Ourense, Pontevedra e mesmo, independentemente das rivalidades com Braga, Santiago de Compostela.

 

O Minho sempre foi uma ponte entre estes dois territórios, nunca uma fronteira ou um separador. As margens do Minho ou os montes que unem as duas regiões sempre foram pontos de passagem. Mais recentemente, no século XX, serviram de refúgio da Guerra Civil de Espanha ou de fuga/regresso, conforme as perspectivas políticas, nos primeiros tempos da nossa democracia.

 

Quando, por força da integração europeia, se aboliram as fronteiras mais nítida se tornou esta realidade. Quando se entra na Galiza torna-se difícil perceber que já não se está no Minho ou em Trás-os-Montes. Pelo menos para nós, aqui no Norte. A língua é praticamente a mesma (o velhinho galaico-português). Como ainda hoje me contava com piada um outro professor, quando vai a Lisboa confundem-no com um portuense ou minhoto ou transmontano por via da pronúncia. Expliquei-lhe que me acontece muito confundirem-me com galego em Madrid e Barcelona.

 

Um fenómeno muito interessante que se acentua na Galiza nas últimas décadas, sobretudo no meio académico e intelectual galego, é o seu profundo conhecimento sobre a nossa cultura – os nossos escritores, os nossos músicos, os nossos costumes. Infelizmente, nestas mesmas últimas décadas, o inverso não é tão verdadeiro, bem pelo contrário. O crescimento da aprendizagem da língua portuguesa na Galiza, até como forma de expressão política de determinados sectores da sociedade galega, é uma realidade indesmentível. Nos diferentes estudos de mestrado e doutoramento de universidades como a de Vigo e de Santiago, é possível a um estudante português apresentar as suas provas na sua língua materna. Sinceramente, desconheço se o inverso é verdadeiro nas nossas universidades. No meio académico galego o respeito pela língua portuguesa é extraordinário e deveria envergonhar muitos académicos nacionais que teimam em privilegiar o inglês em detrimento da nossa língua.

 

É, também, por isso que na Galiza me sinto em casa. Cada vez mais. Mesmo não sendo um “galego do Sul” nem eles “portugueses do Norte”. Não. Isso seria redutor. O que nos une é bem mais profundo...


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5 comentários:
De Nuno Resende a 29 de Setembro de 2012 às 13:17
Vai desculpar-me, Fernando, mas só quem não sabe História e nomeadamente História contemporânea é que acha que esta amizade é natural. Se assim fosse, com certeza que a Galiza nunca teria ímpetos nacionalistas e falaríamos todos ou galego, ou eles português. O regionalismo galego, feito da mistura esotérica de celtismo com movimentos wikka ou se abandona ao ódio irracional a Madrid ou centra-se naquela ideia de país predestinado. Os minhotos e muito particularmente os portugueses odiaram, em vários momentos da história, os galegos que consideravam pobres e serviçais. A expressão "trabalhar como um galego" é bem disso testemunho. Eles construiram-nos pontes, igrejas, os socalcos do Douro, venderam água pelas rua do Porto e carregaram com os anafados burgueses desta cidade. Em troca recebiam míseros ordenados e não poucas vergastadas. Esse discurso da amizade luso-galega é apenas um fait divers para justificar dinheiros europeus a que nos habituaram os governantes "nortenhos".


De Fernando Moreira de Sá a 29 de Setembro de 2012 às 21:17
Meu caro Nuno,

A relação entre os portugueses do Norte e os galegos do Sul é tão nítida que basta conhecer minimamente as zonas fronteiriças para verificar que desde a língua passando pelos costumes pouco se distingue - já para não falar das praticamente inexistentes diferenças geográficas.

Aliás, a história contemporânea é exactamente aquela que nos mostra uma maior aproximação e até integração entre estas duas regiões. Que, aliás, já foram uma só (em boa parte do seu território e tendo Braga como capital) e cuja língua deriva de um tronco comum. Ao longo da história, caro Nuno, se me permite a expressão, nuns períodos estivemos economicamente mais fortes que os galegos e noutros o inverso. Faz parte dos altos e baixos dos povos.

Nas últimas décadas, aquilo que se sente e verifica é uma aproximação entre as duas regiões - obviamente que os fundos europeus tiveram um papel fundamental. Já agora, quais as razões para não ter ocorrido o mesmo entre, por exemplo, a Andaluzia e o Algarve ou a Extremadura e o Alentejo? Como explica o Nuno que as universidades de Vigo e Santiago permitem aos estudantes portugueses de mestrado ou doutoramento apresentar as suas provas escritas e respectivas defesas orais em português? Como explica o crescimento dos estudos galegos sobre Portugal e o português?

Afirma o Nuno que existe um interesse. Claro. De ambas as partes. No entanto, tal não invalida que aquilo que nos aproxima - cultural e socialmente - é bem mais do que aquilo que nos separa. Nem evita, por muito incompreendida que possa ser esta afirmação, que os portugueses do Norte encontram mais elos em comum com os galegos do que com os alentejanos ou algarvios. A geografia também explica.

Quanto ao independentismo galego ele é tão minoritário que nem conta para este campeonato. Maioritário, isso sim, é o interesse galego pela nossa cultura. Sobretudo nos meios intelectuais e universitários.

Quanto aos governantes nortenhos, confesso: sem regionalização tal é uma inexistência prática.

Por fim, não tenho de desculpar. É a opinião do Nuno e por modéstia e feitio não discuto aritméticas de conhecimento. A liberdade de opinião é algo que defendo para mim e para os outros. O Nuno é livre de achar que aquilo que sabe e interpreta/retira do seu conhecimento de história é que está certo. Eu sou livre de achar que está equivocado e, principalmente, que a história dos povos não é o mero somatório das suas acções, sobretudo das dos seus "chefes" de ocasião mas, também e sobretudo, o conjunto (acções, omissões, cultura, geografia, economia, etc.).

Abraço.


De xico a 30 de Setembro de 2012 às 00:40
Pois eu não a entendo. Soa-me fictícia. Portugal fez-se, primeiramente, contra a Galiza.
Nasci e vivi em África. Uma das coisas que os partidos de libertação tiveram que lutar contra foi o tribalismo. Espanta-me voltar a vê-lo na Europa.
Soube de uma estudante alemã que estudou em Santiago e tão admirada ficou que disse que o discurso dos professores da universidade seria impensável e proibido na Alemanha. Um nacionalismo bacoco, serôdio e no mínimo ridículo, numa Europa que se quer construir. Admira-me que esse nacionalismo venha agora da esquerda.
Pois eu sinto-me perfeitamente em casa em qualquer cidade da Europa.
No Minho e na Galiza sinto-me estrangeiro.
Maldito século XIX que nunca mais acaba.


De Orlando Sousa a 30 de Setembro de 2012 às 11:33
Assino por baixo, relembrando que é um sentimento de muitos anos. De facto só conhecendo a Galiza e os galegos (não confundir com os castelhanos, essa raça maldita!) é que se percebe que é mais o que nos une do que o que nos separa.
Experimentem comer umas ostras de Arcade com um alvarinho de Melgaço!


De xico a 30 de Setembro de 2012 às 15:09
"Não confundir com os castelhanos, essa raça maldita!".
Um horror, Franco, o caudillo de Espanha, tinha um plano para invandir Portugal. Um horror, esse castelhano maldito!... O quê? Não era castelhano? Galego? Nãhn!


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