Terça-feira, 2 de Outubro de 2012
por Alexandre Poço

Media bias. Conhecem a expressão? Traduzindo literalmente significa a “parcialidade da imprensa”. Ora, esta expressão – bastante discutida no campo do jornalismo – é a mais acertada para descrever um género de jornalismo que tem sido feito nos últimos tempos em Portugal, a partir do momento em que a contestação ao governo aumentou.

 

Não é apenas a questão do relato emocionado, quase histérico, das manifestações, é também, algumas agendas em curso com objectivos muito claros. Vou apenas deixar esta breve nota, pois para bom entendedor, meia palavra basta: SIC e TVI não querem a privatização da RTP. Fez-se luz? Se não, amanhã às 20h recomendo que assistam ao telejornal, especialmente o do canal que segue o dois e precede o quatro. Estou certo que chegaremos às mesmas conclusões.

 

Como não quero “acusar” sem mostrar provas, vou utilizar dois pequenos exemplos para que vos possa elucidar sobre o media bias actual. Em seguida, estão duas notícias da passada sexta-feira, dia 28 de Setembro (sim, do mesmo dia): “Défice externo diminui para um terço no primeiro semestre” e “Défice público foi de 6,8% na primeira metade do ano”. Fez-se alguma luz na cabeça, caro leitor?

 

Vamos desconstruir, então: Estamos perante duas notícias sobre défices (externo e público, respectivamente). A primeira notícia é uma boa notícia para o país e é positiva para o governo. A segunda notícia é uma má notícia para o país e é negativa para o governo, pois lembra que o ajuste do défice está a correr de forma mais lenta que o esperado pelo executivo. Até aqui estamos de acordo, certo?

 

Agora, vejamos a linguagem: a primeira notícia não diz o valor do défice externo no primeiro semestre do ano. Ao invés, através de uma rebuscada construção frásica, o jornalista optou, não pela exactidão e por transmitir a informação de forma clara, mas sim, por fazer um jogo de palavras, no qual o leitor médio não consegue aceder de forma directa à informação. Primeiro, o leitor precisa de pensar quanto é um terço e posteriormente, consegue saber que o défice está abaixo disso (não lhe é dado no título o valor exacto). Por que motivo terá o jornalista construído assim o título? Dá que pensar. Não seria mais fácil afirmar que o “défice externo foi de 2.2% do PIB no primeiro semestre” ou caso quisesse comparar com anos anteriores, afirmar que “o défice externo caiu 66% face a 2011”? Seria muito mais acessível para o leitor, não concordam?

 

Quanto à do défice público, a tal que vem “chatear” o governo, nada a acrescentar. Um título assertivo, conciso e que informa convenientemente o leitor, como deve ser sempre. Não é este título que me faz confusão, mas sim, o contraste tão grande entre um e outro, sem se perceber o motivo para que tal tenha sido feito. Bem, não me vou alongar mais. Media bias. Perceberam o conceito? Espero que sim.


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