Domingo, 7 de Outubro de 2012
por Alexandre Guerra

Fort McHenry, com a bandeira americana hasteada, a ser bombardeado pelos navios ingleses a 13 e 14 de Setembro de 1814/Aguarela de J. Bower, Maryland Historical Society

 

A indigna e patética cena do Presidente de Portugal a hastear a bandeira nacional na posição invertida, em plena varanda da Câmara Municipal de Lisboa, no dia em que se celebrava o feriado da implantação da República, suscitou de imediato alguma reflexão deste arregimentado e trouxe à memória um dos episódios mais inspiradores dos primeiros tempos da formação da república dos Estados Unidos.

É interessante constatar a incoerência e o descaramento de alguns políticos, “senadores” e figuras proeminentes deste burgo, que não se coibiram de manifestar a sua indignação, esquecendo-se que têm sido os mesmos que nas últimas quase quatro décadas de regime democrático têm demonstrado um profundo desprezo pelos símbolos de soberania e do Estado. Um desprezo, refira-se, igualmente manifestado pelo Povo.

Sobre este ponto convém não haver hipocrisias. Sendo o autor destas linhas da geração pós-25 de Abril pode apenas afirmar com bastante convicção que os símbolos de soberania e de autoridade nunca foram respeitados e muito menos venerados no chamado “Portugal democrático”. Não existe essa cultura em Portugal a não ser, de tempos a tempos, uma espécie de histeria nacionalista colectiva (e algo bacoca, refira-se) materializada em cachecóis, bandeirinhas e no cântico do hino em redor da Selecção Nacional.

Em países como os Estados Unidos, Inglaterra, França ou Israel onde, apesar de tudo, a bandeira é vista como algo sagrado, os símbolos do poder e autoridade do Estado são ainda muito importantes como elementos agregadores e mobilizadores da nação. As bandeiras nos Estados Unidos ou em Israel, a Coroa no Reino Unido, o tríptico “liberdade, fraternidade e igualdade” em França são apenas alguns exemplos.

Por detrás destes símbolos existem histórias inspiradoras, mas que o tempo acabou por esbater. É precisamente uma dessas histórias que o autor destas linhas recupera.

Quando a 13 de Setembro de 1814 os navios da Marinha Real britânica iniciaram o bombardeamento ao Fort McHenry na cidade de Baltimore, Francis Scott Key, um jovem cavalheiro de uma família abastada com várias plantações e escravos na zona de Chesapeake Bay, Maryland, encontrava-se numa posição privilegiada para ver os acontecimentos que o iriam tocar de uma forma profunda.   

E seria uma bandeira hasteada que provocaria tamanha comoção. Uma bandeira americana de enormes proporções que o major George Armistead, comandante do Fort McHenry, tinha mandado fazer durante os meses de preparação para a defesa de um ataque mais que provável dos ingleses.

Embora consciente da desvantagem em relação aos ingleses, Armistead foi ousado e corajoso quando hasteou a sua gigantesca bandeira no Fort McHenry: “It is my desire to have a flag so large that the British will have no difficulty in seeing it from a distance.”  

E foi essa mesma bandeira que Francis Scott Key continuou a ver hasteada ao longe, depois de uma noite de intensos bombardeamentos dos navios britânicos sobre o Forte. A resistência heroica dos americanos evitou que Baltimore caísse nas mãos do inimigo.

Um esforço ainda mais valorizado aos olhos de Francis Scott Key, já que assistiu ao bombardeamento do Fort McHenry a bordo de um navio de tréguas, porque tinha ido a Baltimore utilizar os seus bons ofícios para libertar um amigo que estava detido pelos ingleses num dos navios da Marinha Real.

Francis Scott Key, que tinha uma sensibilidade romântica e nos tempos livres gostava de escrever poemas e sonetos em papéis que trazia sempre nos bolsos, emocionou-se às primeiras horas da manhã de 14 de Setembro ao ver que a bandeira de Armistead continuava hasteada após os britânicos terem cessado os bombardeamentos e baterem em retirada.

Como escreveu David Hackett Fischer, os “sentimentos românticos de Francis Scott Key estavam ao rubro”, tendo tirado um papel do bolso “no fervor do momento” para começar a escrever o poema que viria a ser o “The Star Spangled Banner” e que passaria a ser recitado ao som de uma música antiga inglesa chamada “Anecreon in Heaven”.

A letra do novo hino seria impressa a 17 de Setembro no Baltimore Patriot e em Outubro já a música era cantada em concertos públicos e replicada um pouco por todo o lado.

Desde então que o “The Star Spangled Banner” se tornou num elemento inspirador para os americanos, tal como a bandeira de Fort McHenry inspirou os soldados do major Armistead e Francis Scott Key. 

 


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