Domingo, 21 de Outubro de 2012
por André Miguel

Com mais um governo sob fogo cerrado e com a contestação nas ruas como há muito não se via começa a instalar-se a ideia de Portugal ser um país ingovernável.

Três falências em 38 anos de democracia não são para qualquer um e são motivo mais que suficiente para equacionar o epíteto de Estado falhado. Bem sei que o adjectivo é forte demais, mas um Estado no qual os seus cidadãos têm a sensação de que a justiça não funciona, onde há impunes, onde é quase impossível enriquecer sem as ligações certas, onde mais que cidadãos são tratados apenas como contribuintes sugados para a bancarrota e onde os seus salários são pagos de forma recorrente pelo FMI não merece ser considerado um verdadeiro Estado. Por muito que nos doa é hora de encarar a realidade: o regime não funciona. E não vale a pena vir dizer que as elites são fracas e as lideranças mais fracas ainda, que o são, mas foram paridas no seio do mesmo povo que governam, nasceram no mesmo país, andaram nas mesmas escolas e universidades que todos nós, e um povo que faz da selecção de futebol um desígnio nacional e do fado um estilo de vida tem as lideranças que merece. Já se disse que não governamos, nem nos deixamos governar. Nada mais longe da verdade, o problema é não nos interessarmos sobre como devemos ser governados. Quando a exigência e o mérito não são apanágio da prática diária de um povo é mais que normal surgirem lideranças fracas. E quando falo de exigência não me refiro a ir para a rua gritar palavras de ordem quando nos vão ao bolso, mas por exemplo manifestar um pouco de indignação quando um certo emigrante em Paris prometia o paraíso com dinheiro dos outros a troco de duplicar a dívida pública.

É por esta falta de exigência, este "deixa andar", este "depois logo se vê", que o país chegou a um estado perto do irrespirável, a um estado em que o chico-espertismo e o amiguismo levam a avante sobre o mérito e o esforço. Não por acaso nem um só político em Portugal se atreve a prometer trabalho, esforço e sacrifícios em campanha eleitoral e ele vê-se onde as facilidades e o progresso nos trouxeram... Só mesmo por manifesta ingenuidade muita gente ainda se pergunta porque quando emigramos mudamos tão radicalmente e lá fora somos excelentes em tudo o que fazemos. Nada mais fácil: o esforço recompensa, mesmo sabendo que nos espera muito trabalho. E em Portugal? Saberemos de que servirão os sacrifícios e o imenso trabalho de hoje? Se não, talvez seja hora de repensar de vez o sistema e recomeçar de novo.


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1 comentário:
De Marão a 21 de Outubro de 2012 às 12:20
Este escrito já tem uns anitos. Foi no tempo da picareta falante. Sem tirar nem pôr, e agora?



-Sociedade Portuguesa hoje
Analfabetismo funcional; in(cultura)/ignorância; apatia cívica/irresponsabilidade; ilusão/aparato/ostentação; irracionalidade/inversão de valores; indigência mental/anestesia colectiva; ensino postiço e inconsequente; autoridade tolhida e envergonhada; justiça sinuosa e selectiva; responsabilidades diluídas e baralhadas; mediocridades perfiladas e promovidas; capacidades trituradas e proscritas; sofisma institucionalizado.



-Quês e porquês
Maleita atávica e condicionamento manipulado pelos poderes instalados; negligência paralisante no dever de participação; vício embriagante na desculpa cómoda do dedo acusador sempre em riste. Culpar D. Sebastião, o padeiro da esquina ou dirigentes de ocasião é nossa mestria e sina nossa. Culpados somos todos nós, acomodados na obsessão estéril de celestiais direitos. Também é com a nossa apatia pelos valores de intervenção e cidadania, que somos conduzidos repetidamente para o conhecido pantanal. Os nossos governantes são o reflexo e extensão da gente que somos, mas valha a verdade em escala cujo grau de refinamento, incapacidade e subversão de interesses colectivos ultrapassa os limites da decência. Que qualquer governante em vez de esbracejar governe e em vez de iludir assente, invertendo essa carga em desequilíbrio e remetendo para as calendas a política de feirola de contrafeitos.



-Receituário extraviado
Cabe cultivar que ao cidadão comum não deve competir apenas votar ciclicamente em deputados acorrentados pela disciplina partidária. Na sociedade como nos bancos da escola, acautelar conceitos/aulas de civismo e cidadania, o que é liberdade, democracia, educação e compostura. A televisão pública como veículo que molda, não pode servir só para futebol, novelas e propaganda oficial. Não basta compor a rama, é preciso cavar a terra e aconchegar os tomates. Por hora o circo ameaça continuar, mas que o tempo (grande mestre) se encarregue de nos despertar enquanto é tempo. A nós, suporte colectivo de tragédias e façanhas, competirá sobretudo intervir responsável e interessadamente no que a todos diz respeito, não concedendo carta branca ao desbarato para o traçado do caminho, ao círculo restrito de políticos abengalados.


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