“Bolinha” para quem deu uma bola a Muniz
A crítica jornalística raras vezes é unânime e nem sempre coincide com a nossa opinião, o que é natural, já que cada um de nós tende a avaliar determinada peça artística a partir de referências que foi acumulando ao longo da vida. Há coisas que são inequivocamente boas e que não há como deitar abaixo e, o inverso, também acontece: depararmo-nos com uma peça tão má que não tem defesa possível.
Para mim, a expectativa em relação à retrospectiva de Vik Muniz, patente até ao final do ano no CCB, pertencia, sem sombra de dúvida, à primeira categoria.
Vim, no entanto, a constatar que Luís Soares de Oliveira (Ípsilon de 30 de Setembro) tinha uma opinião tão claramente antípoda da minha que fui a correr ver a exposição para garantir que não se tinham limitado a mandar para Portugal meia dúzia de trabalhos que Vik tivesse esborratado em início de carreira.
Luís Soares de Oliveira classificou com uma bola a exposição. Ora uma bola corresponde a abaixo de medíocre. É mau, mesmo mau. É como a classificação que a Moodys atirou para Portugal sem dó nem piedade e com a qual nós tanto nos indignámos. Uma bola é lixo.
Já José Luís Porfírio lhe atribui uma estrela na Actual de 1 de Outubro. Não sei se no Expresso há bolas, ou se a escala parte do estrelato no singular, mas vai dar ao mesmo. O que ambos os críticos estão a dizer é que a exposição é muito má e que aquilo que Vik Muniz apresenta é um grande espalhafato sem originalidade mais evidente do que a dos materiais utilizados.
Não tenho dúvidas de que devo perceber muito menos de arte do que Luís Soares de Oliveira ou José Luís Porfírio, caso contrário já me teriam convidado há que tempos para escrever críticas na imprensa nacional. Mas, sendo franca apreciadora de arte moderna, tenho alguns quilómetros de museus e de exposições que acredito que me tenham criado critérios para fazer avaliações assim mais para o amador.
Para mim, Vik Muniz é o artista plástico que mais me surpreendeu nos últimos anos (critério nº1). O conjunto da sua obra é homogéneo, tendo evoluído por várias fases e experiências, e trata-se inequivocamente de um artista com uma voz singular (critério nº2). Tem total domínio da técnica retratista, acrescentando-lhe a originalidade de trabalhar maioritariamente num esquema de baixo relevo (critério nº3). O conjunto dos seus trabalhos emana um rol de ingredientes capaz de recriar infinitamente as melhores das receitas: ternura, humor, ironia e intervenção social (critério nº4).
Posto isto, confesso que o que realmente me chateia é que estas duas críticas possam ter afastado potenciais visitantes que não terão tão cedo oportunidade de ver em Portugal uma exposição deste nível.
Para os senhores críticos mando já daqui uma bolinha e aconselho-os a ver o documentário “Lixo Extraordinário”. A Vik dou-lhe seis estrelas seis (como nos touros), assim de caras.




