Terça-feira, 23 de Outubro de 2012
por Pedro Correia

 

Alguns são aprendizes, mas em Portugal só Augusto Cid é o mestre. O melhor cartunista português, exímio praticante da sátira política em forma de caricatura, cultor do salutar princípio castigat ridendo mores (que herdámos dos antepassados romanos), está hoje desempregado. O que é outro sintoma da decadência do nosso jornalismo. Em qualquer outro país, Cid seria disputado por todos os jornais - da esquerda, do centro ou da direita. Assinaria editoriais desenhados, escreveria colunas de opinião com bonecos, faria reportagens com o recurso à arte da caricatura, que domina como se fosse herdeiro directo de Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença e Stuart de Carvalhais. Nós, por cá, assobiamos para o ar e fingimos tantas vezes que o talento não existe enquanto prestamos tributo à mediocridade. Puro engano. Basta ler esta excelente entrevista assinada por Leonardo Ralha no Correio da Manhã: eis Cid no seu melhor, igual a si próprio, falando do mesmo modo que sempre desenhou. Sem punhos de renda, sem papas na língua.

Leiam a entrevista: vale a pena. Desde as histórias da tropa, durante a guerra em Angola, às atribulações provocadas pela investigação às misteriosas circunstâncias da morte de Francisco Sá Carneiro em Camarate, do 25 de Abril aos retratos falados de diversos protagonistas de quatro décadas da política nacional.

Um episódio revelador, em discurso directo, ocorrido quando Sá Carneiro era primeiro-ministro: «Além de militante [do PSD] desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o Povo Livre, onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo, e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo".»

E assim foi.

Há tempos, no jornal onde colaborava, reduziram-lhe o salário. Pouco depois, nova redução. Cid disse basta: passou à pré-reforma e agora dedica-se à escultura. «Cheguei a um ponto em que aquilo que ganhava não justificava o que fazia. Não é só desenhar. Isto implica muito tempo a pensar e a investigar até chegar ao desenho final», confessou.

Há momentos assim, que exigem a palavra não. Palavra que é quase lema obrigatório de um grande cartunista - a estirpe a que Augusto Cid sempre pertencerá.

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2 comentários:
De Rodrigo Saraiva a 23 de Outubro de 2012 às 16:09
RESPECT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


De Pedro Correia a 23 de Outubro de 2012 às 22:16


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