Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
por Rui C Pinto

O comediante Louis CK parodia sobre o gap intergeracional que domina actualmente as sociedades ocidentais. Este gap não é novidade. Sempre existiu e sempre existirá. O problema, na minha modesta opinião é que ele tende a agravar-se com a evolução tecnológica. Eu ainda me recordo de ver abrir as valas nas ruas para o saneamento básico. No entanto, hoje, fico desiludido com a qualidade de som da conexão por bluetooth do iPhone com o rádio do automóvel. Isto seria pouco se não estivesse na base do capital de crescente descontentamento da geração "enrascada". 

 

 

Há um abismo profundo entre a geração que hoje protesta por se sentir excluída da "máquina" e a geração que se indigna com o protesto por considerá-lo um capricho de uma geração mimada. O sentimento de exclusão dos primeiros tem que ver com a falta de acesso ao "mercado", não têm poder económico para se integrarem no meio social. Hoje, viver em sociedade é consumir e a identidade social advém daquilo que se consome. A Apple não é, por mero acaso, a marca da actualidade... No supermercado já não se trata de comprar cogumelos. Trata-se de escolher entre porcino, cantarelo, maitake, maatsutake, morchella, trufas brancas ou pretas, sancha. A escolha parece trivial mas não o é porque a escolha define a sua identidade. Servir um jantar com cogumelo fresco por estes dias é tão out que os convidados falarão durante semanas. Se usar porcino vão acusá-lo de cliché. Retirar a capacidade de consumo à geração "enrascada" é retirar-lhe a identidade, e uma geração sem identidade está votada a descobrir-se pela violência. Somar isto ao alheamento tecnológico provocado pelo maior período de paz na Europa é assustador. O futuro é tão imprevisível quão imprevisível é a evolução da física nos próximos dez anos. Os movimentos de "indignados" surgem em todo o lado. Cá chamam-se à rasca, em Espanha são os acampados da Puerta del Sol, em Inglaterra são os insurrectos que assaltaram as lojas da Foot Locker. O capital de queixa é o mesmo: a necessidade de consumo e a perda de identidade. Vão ao facebook e comprovem: 50% dos jovens da minha idade não dão informação quanto à actividade profissional ou à sua formação académica, mas todos eles partilham os seus gostos musicais, cinematográficos ou gastronómicos. Hoje, dizer que sou um químico e social democrata pouco dirá ao comum dos mortais. Dizer que uso MacBook, Moleskine, Ray-Ban, ouço Foster the People e Florence and the Machines e adoro Lars von Trier e Sofia Coppola é muito mais exacto quanto à minha identidade. 

É preciso compreender esta realidade. Uma geração que cresceu com crescimento económico ininterrupto e avanços tecnológicos galopantes não aceitará a estagnação como inevitável. E pouco poderá fazer-se para evitar o confronto. Ele virá e, nessa altura, esta geração criará a destruição necessária para sustentar um novo crescimento. 


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15 comentários:
De k. a 11 de Outubro de 2011 às 09:13
Tenho 29, e a ler-te acho que vens de marte, ou então ainda vives com os teus pais.



De Rui C Pinto a 11 de Outubro de 2011 às 11:42
Ahahah
k., explique-se! Saí de casa dos papás aos 17 e sinto que foi o maior erro da minha vida.


De António Caldas a 11 de Outubro de 2011 às 09:32
Excelente texto.


De Rui C Pinto a 11 de Outubro de 2011 às 11:43
Obrigado António.


De l.rodrigues a 11 de Outubro de 2011 às 12:26
De facto, um militante do PSD dizer que é social democrata hoje em dia não quer dizer nada. Ou quer dizer que não faz ideia do que é a social democracia, ou então que vive muito infeliz com o seu partido. Mas é aquilo a que se chegou...

Quanto ao Louis CK, é talvez o maior desde George Carlin.


De Rui C Pinto a 11 de Outubro de 2011 às 13:07
A dimensão do assunto que se discute no post é muito maior que a ideologia partidária.
Acredite em mim.


De l.rodrigues a 11 de Outubro de 2011 às 14:49
Acredito. Mas, para mim, a destruição de que fala, a inevitável e necessária, tem tudo que ver com ideologias, partidárias ou não. Acredite em mim.


De Rui C Pinto a 11 de Outubro de 2011 às 15:08
Não acredito que seja necessária, mas parece-me inevitável. Ainda assim, não me parece que seja ideológica, porque a génese do descontentamento não tem ideologia. Os roubos de Londres não tiveram ideologia, os protestos de jovens na Grécia unem o espectro partidário.


De l.rodrigues a 11 de Outubro de 2011 às 15:18
Caro Rui,
faço notar que se contradiz, porque termina o seu post dizendo precisamente que ela é necessária para relançar o crescimento.
O que está em causa, como sempre na história dos povos, são questões de poder e acesso aos recursos. Não há coisas muito mais ideológicas do que as que lidam com estes factores. Mesmo que os actores actuais disso não tenham consciência. Como dizia Van Jones, sobre os que ocupam Wall Street, eles podem não ter a clareza da mensagem mas têm a clareza moral. Isso acabará por traduzir-se em algo ideológico, creio eu.


De Rui C Pinto a 11 de Outubro de 2011 às 16:10
Eu não digo que ela é necessária, meu caro. Eu digo que será causada a destruição necessária para sustentar um novo crescimento. Na medida em que, o crescimento possível na actualidade já não permite a redistribuição necessária para serenar o ímpeto dos jovens.

Com certeza que se trata de poder e de acesso aos recursos. A questão é que, no passado, essa querela levou à guerra entre nações. Hoje, a tensão vive-se dentro de cada comunidade. Certamente o conflito deriva em ideologia, mas não creio que a existir esse conflito se faça nos actuais moldes.


De Vasco Campilho a 11 de Outubro de 2011 às 13:32
Grande vídeo, grande post.


De Rui C Pinto a 12 de Outubro de 2011 às 11:15
Obrigado, Vasco. O mérito é do Louis CK, LOL.

Tenho de o trazer mais vezes para o blog, é um grande filósofo dos nossos tempos! Eheheh


De k. a 11 de Outubro de 2011 às 17:39
(OK, já entendi o que estás a dizer, apaga o meu comment - ia chamar-te burgues capitalista e tal)

(sorry :D)


De Rui C Pinto a 12 de Outubro de 2011 às 11:14
De burguês já tive um cheiro, a capitalista espero chegar um dia! ;)


De Ricardo Vicente a 14 de Outubro de 2011 às 15:11
1. "O sentimento de exclusão dos primeiros tem que ver com a falta de acesso ao "mercado"."

Acho que o problema dos primeiros será mais falta de acesso ao Estado.


2. Quem se preocupa tanto com cogumelos não estará de certeza excluído nem dos "mercados" nem do Estado nem de nada.



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