Estou boquiaberta com o ataque disparatado a Isabel Jonet que inundou as redes sociais durante o dia de hoje. Ao minuto, constato que já há petições para a senhora se demitir do Banco Alimentar.
Alguém tem noção do trabalho que envolve montar um projecto desta envergadura? Alguém já tentou gerir equipas de voluntários? Alguém conhece um digno sucessor de Isabel Jonet a quem pudesse ser passada a pasta? Eu não.
Vejo a reportagem responsável por tanta celeuma e aquilo que Isabel Jonet diz é que o rei vai nú: que os portugueses passaram os últimos anos a viver acima das suas possibilidades e que agora vão ter de aprender a viver de outra maneira.
Não diz que não podem ir a concertos rock, não diz que não podem comer bifes, não diz que não se podem divertir nem ter dignidade. Diz que é natural que, neste clima de austeridade, muitas famílias venham a ter de escolher entre ir a concertos rock ou ir ao dentista. Onde está a novidade?
Não lhe vislumbro qualquer intuito de ofender quem quer que seja, apenas uma perspectiva pragmática do infeliz panorama nacional.
Se os criadores dos grupos indignados nas redes virtuais dedicassem parte do seu tempo a alancar pacotes de leite no mundo real, fariam certamente melhor serviço. Indignante é ficar sentado na cadeira a insultar quem arregaça as mangas.
(vão lamber sabão, como dizia a minha avó)
é isso mesmo Francisca. Haja paciência.
De
POKE a 9 de Novembro de 2012 às 10:35
Permitam-me, porém e antes de mais, apresentar o contexto social de onde vem esta senhora, que aposto que nunca lavou um prato na vida nem nunca fez a própria cama. Estamos a falar de alguém que é "voluntária" (como ela diz) no banco alimentar há vinte anos porque nunca teve que trabalhar precisamente. Porém não há mal in having been born into money, o mal está em vir dizer alarvidades e idiotices, e pior acreditar nelas, como quem viveu uma vida inteira a leste do resto do mundo. Já para não falar que todos sabemos, a avaliar pelo currículo da grande maioria das famílias abastadas de Portugal, de onde é que a família dela há de ter tirado o dinheiro que permite à menina passar uma vida inteira a brincar às caridades.
"Passei 20 anos a lidar com esses" diz ela, com o enfado de quem teria preferido um outro tacho, numa qualquer fundaçãozinha talvez, mas esse há de ter ido para uma irmã ou uma prima qualquer, portanto lá teve a Isabelita de ficar com os pobres, "esses" com quem ela tem que levar, o mal necessário com que ela tem que lidar, para os dela poderem continuar a ir para a neve todos os anos... que horror que enfado, que sacrifício, pobre Isabelinha, tão nobre, uma santa, a sacrificar uma vida pela classe, e em nome da preservação do status quo. E o pior é perceber que ela de facto acredita em tudo o que apregoa.
Dir-lhe-ia tudo o que se segue, e bem mais, na cara. Mas como, por virtude do que a canalha que ela encobre em insultuosa demagogia e descarada idiotice, fizeram ao país em que nasci, me encontro aos 32 anos de idade sozinha do outro lado do mundo, aqui segue em carta aberta:
Minha excelentíssima senhora,
Os meus pais (retornados de Angola) nunca pediram um empréstimo na vida. Perderam tudo em Angola e chegaram a Portugal para terem que recomeçar a vida do zero, segregados num bairro social como cidadãos de segunda; segregação à qual nunca se acomodaram, não obstante, e da qual se conseguiram livrar através de muito trabalho e esforço pessoal, e, acima de tudo, nunca tendo pedido um subsídio sequer que fosse!
Trabalharam, houve tempos em que literalmente deixaram de comer para me poderem alimentar a mim e aos meus irmãos, e arrastaram-se para fora do bairro e do estigma só tinha eu 5 anos. Sacrificaram sonhos e objectivos pessoais e fizeram da minha educação o objectivo primeiro, através de trabalho única e exclusivamente, e mais uma vez, sem nunca pedir um centavo a nenhum banco ou ao Estado. E depois de trabalhar durante mais de 40 anos, sem nunca ter pedido nada a ninguém, sem que heranças de terras ou casas lhe tivessem alguma vez sido deixadas "na terra" , sem nunca ter feito viagens de lazer para fora do país, a muito sacrifício, privação e custo pessoal pagou o meu pai tudo o que adquiriu na vida A PRONTO, sem qualquer acesso a empréstimos, ou cartões de crédito (contra os quais sempre se aviltou), e tudo o que adquiriu pagou com mais nada senão um ordenado; E assim fez de nós classe média, a mesma classe média que a querida e os seus viriam depois a asfixiar com roubalheiras desmedidas de contratos leoninos e discurssos salazarentos, em virtude de poderem manter o status quo que dita que para vossa excelência poder ir para a neve todos os anos o resto de nós tem que gastar menos água quando leva a cabo a sua higiene oral, e deixar de viver para poder pagar a radiografia.
De qualquer das formas, e mesmo rodeado dos roubos e canalhices daqueles que governam este país, atingiu o meu pai valerosamente tal feito, o de subir a escala social a custo de trabalho e privação, em 30 anos de vida, e saliento: tendo recomeçado do zero num bairro social aos 19 anos, única e exclusivamente para atingir a meia idade, e em vez de colher os dividendos de tanto esforço e sacrifício ver ainda por cima o ordenado cortado em quase um terço, e ver serem-lhe removidos direitos adquiridos como os subsídios que um dia o ajudaram a pagar a educação dos filhos. Sim, porque nunca os usou para "viver acima das suas possibilidades", para ir de férias para Cuba ou para a neve, mas para me pagar a mim e aos meus irmãos “excessos” como material escolar e propinas.
Por isso, para si que gosta de falar (muito embora efectivamente não diga nada), para si que gosta de ter tempo d
Não faço ideia se Isabel Jonet é rica, muito menos se vai para a neve (nem me interessa), o que sei foi que, nos últimos vinte anos, dedicou a sua expertise profissional e os seus contactos pessoais ao serviço do melhor projecto de combate à fome que existe em Portugal. E fê-lo de uma forma inequiocamente profissional (o que é raro e só é possível com muito trabalho).
Tem tanto mérito sendo rica como sendo pobre ou remediada. E nunca a vi com postura de estar a brincar aos pobrezinhos.
Felizmente existem algumas Isabeis Jonets neste país.
O que eu não vejo a Isabel Jonet é a interrogar-se sobre aquilo que faz com que uma organizaçao como aquela a que preside seja necessária.
E não acredito que tu acredites que isso é culpa de quem precisa de ajuda.
Acho que estão a ser misturadas águas. A Isabel Jonet não faz parte do governo, não é banqueira, nem especuladora imobiliária, nem sócia da Cofidis.
A organização que ela preside infelizmente é necessária e felizmente existe.
De Dita Dura a 9 de Novembro de 2012 às 20:06
Dois pontos muito rápidos:
- não se critique demasiado a IJ, mas também não se deve santificá-la. Ela errou, tropeçou, foi pouco assertiva, as declarações foram parvas, ponto final.
- Conheço pelo menos 324 pessoas que seriam capazes de fazer o trabalho da IJ. Isto sem contar com os menores de idade.
Não a santifico, até porque tenho uma perspectiva muito pragmática sobre a vida. Mas faço voluntariado há meia dúzia de anos e posso afiançar-lhe que não há 324 pessoas que possam montar um projecto daquela dimensão, muito menos menores de idade.
Se os exemplos foram parvos é irrelevante. A essência do que foi dito é real e é isso que torna o discurso assustador. Meteu-se o dedo na ferida.
De Dita Dura a 11 de Novembro de 2012 às 11:36
Muito bem.
Um santo domingo,
DD
comentar tiro