Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012
por José Meireles Graça

Ex.ma Senhora Dra. xxxxxxx xxxxxxxx:

 

Permita-me confessar-lhe que nunca me aconteceu em nenhum serviço público ver um pedido formulado por escrito às 18H27 ser respondido pela mesma via às 18H34 do mesmo dia. Por isso lhe envio os meus agradecimentos, e lhe testemunho a minha admiração.

 

Hoje de manhã, imagino que por interferência desses Serviços, recebi o seguinte e-mail do Balcão xxxxxx de xxxxxxxxx:

 

Exmo. Senhor

 

Após várias tentativas telefónicas para o n.º xxxxxxxxx, sem sucesso, venho por este meio informar V/Exa., que a sua carta pin para proceder ao levantamento do seu CC, encontra-se nesta Unidade Orgânica, o qual deverá dirigir-se à mesma para o levantamento.

 

Com os melhores cumprimentos

 

A Oficial

xxxxxx xxxxx

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Na sequência desta informação, dirigi-me novamente à Repartição local, e tive o gosto de a mesma funcionária que com paciência ontem me atendeu me ter reconhecido (é raro: tenho um aspecto passe-partout, se me perdoa o desabafo), me ter chamado e ter já disponível a já tão familiar carta do alfinete, bem como o Cartão de Cidadão.

 

Que alegria, minha Senhora! Que eu gosto muito de cartões de crédito, e de pontos, e de cidadão, e assim - dá-se o caso de, não obstante o meu aspecto conservador, ser uma pessoa extremamente moderna.

 

Mas quando ia, alvoroçado, deitar as mãos ao cartão tão sofrido, ai! - não podia ser: tinha que me explicar para que servia não apenas o PIN, mas também o PIN da morada, o da autenticação e o da assinatura digital, além do código de cancelamento. Fiquei, não tenho vergonha de dizer, atordoado; e ia ouvir concentrado a aula de formação profissional em cidadania, mas a dor de cabeça de ontem manifestou-se com tal intensidade que tudo se me varreu da atenção, e por conseguinte da memória. Apenas me recordo de ouvir a funcionária dizer que tinha que memorizar um deles, para quando uma autoridade me pedisse o cartão, e que não devia guardar o papel na carteira, mas sim em casa.

 

E agora estou aqui, depois de um Brufen 600 e um Bromalex 3mg, aflito: com o meu antigo BI, realmente, bastava mostrá-lo, e sabe Deus a quantidade de funcionários, não apenas públicos, que tinham dúvidas sobre ser eu quem dizia ser, apenas sossegando depois da exibição do tranquilizador cartão.

 

Agora, se um polícia me pode levar preso porque não me lembro de um número, encaro a hipótese de, desrespeitando o conselho que recebi, guardar o papel junto do cartão. Mas será isto legal, isto é, não haverá desobediência? E se houver extravio, porque um papel é mais fácil de perder do que um cartão? Não seria melhor a Administração criar um novo cartão, exclusivamente para os números?

 

São estas dúvidas excruciantes que deixo à consideração de V. Ex.ª, certo de que, com a eficiência e a bondade que já abundantemente demonstrou, encarará favoravelmente a hipótese de me esclarecer.

 

Respeitosamente,

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.


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