Sábado, 17 de Novembro de 2012
por José Meireles Graça

Podia, forçando um pouco a nota, dizer umas larachas sobre o facto de a geração mais bem preparada de sempre não saber escrever (como, aliás, a que a antecedeu), aproveitando para uma resenha histórica sobre a eliminação do Grego, primeiro, e do Latim, depois, bem como sobre a desvalorização das Humanidades nos planos de estudo. Com a mão na massa, não seria descabida uma referência à pedagogia da sala de aula como lugar de aprazível divertimento, na qual o professor "interage" com o aluno, que "aprende a aprender" e vê o professor como "um irmão mais velho". Não vou por aí.

 

Podia bordar umas tretas sobre a bolorenta repartição pública da Velha Senhora, que conheci bem, os seus vícios, as suas práticas, a sua pequena corrupção, e compará-la com os écrans, as maquinetas, o design, a organização e a modernidade show-off da nova. Não vou por aí.

 

Podia salientar a evidente vantagem da internet, dos e-mails, da facilidade de acesso a níveis superiores de hierarquia, e contrastar isso com a crescente invasão da vida privada dos cidadãos e a ubiquidade do Estado. Vou por aí:

 

Decorre neste momento uma campanha de "sensibilização" dos cidadãos para a obrigação de emissão de factura no acto de compra de bens ou serviços, traduzida num e-mail em que um Director-Geral se dirige a cada um dos cidadãos, inteirando-o de alterações legislativas e procedimentais, ao que parece para o efeito da "criação de um incentivo fiscal aos consumidores finais que solicitem a menção do seu NIF (Número de identificação fiscal) nas faturas, em determinados setores de atividade".

 

Parece que esta interessante inovação se destina a que o cidadão ande com a carteira atulhada, colija um meio kilo de papel, examine, declare e faça contas. Depois, o Estado cruza e fiscaliza toda a gente, com a pesporrência e irresponsabilidade dos seus agentes, sob a protecção de uma legislação iníqua que obriga a pagar primeiro e discutir depois, permitindo porém, bondosamente, o acesso a tribunais que não funcionam, desde que se paguem custas terroristas.

 

A carta, os termos da carta e o processo na qual se insere são, com desculpa do chavão, kafkianos: o cidadão não é fiscal do Estado; não deveria ser necessário ser técnico de contas para pagar impostos; e uma carta na qual um funcionário se dirige aos cidadãos com ameaças veladas é um abuso.

 

É nesta tendência que se insere, perante a passividade, senão a aprovação, dos cidadãos, a fantasia do maldito PIN. É preciso memorizá-lo. Nas inacreditáveis palavras que a funcionária me dirigiu, "Não convém V. Exa. andar com o cartão e a carta pin juntos, bastará decorar o pin de morada, que lhe poderá ser solicitado por um agente de autoridade, para comprovar a morada com a carta de condução".

 

Reina o silêncio sobre estes assuntos - andamos aflitos com a troika, a austeridade, a emigração forçada e o resto. A burocracia, porém, não dorme - é da natureza das burocracias não dormirem, como é crescerem em peso e importância. E, lentamente, vai colocando as pedras do edifício em que a nossa liberdade fica enclausurada, não menos por muitos de nós apreciarem gaiolas, por as imaginarem seguras, confortáveis e justas.

 

Curioso mundo, este: o capitalismo selvagem, em que cada qual é livre de enriquecer ou morrer de fome, encontra-se na China comunista; e o Admirável Mundo Novo vai ganhando forma entre nós. 


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