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Forte Apache

Por quem dobram os carrilhões

José Meireles Graça, 22.11.12

Não há um número, um gráfico, um dado, uma quantificação que suporte as afirmações. As conclusões, elas, vêm logo ao princípio: Os problemas de Portugal derivam de "obsessão incompetente"; e os europeus de "negligência irresponsável, que nem a entrada em recessão da Zona Euro conseguiu abalar no seu imenso torpor."

 

Logo a seguir, explica-se o pano de fundo que criou as condições para chegar onde estamos. E é este: "Uns e outros procuram escamotear a evidência maior dos nossos dias, que é a do fim do ciclo ultraliberal iniciado entre finais dos anos 70 e começos dos anos 80 do século passado, com as respostas que Margaret Thatcher e Ronald Reagan deram às primeiras dificuldades que, com a crise do petróleo e as suas consequências, abalaram o horizonte de crescimento que enquadrava a economia ocidental desde os anos cinquenta. Com características, variantes e ritmos muito diversos, a solução ultraliberal impôs-se por todo o lado, com o seu cortejo de desregulamentações, privatizações, flexibilizações e... endividamentos."

 

Acho esta maneira de argumentar porreira: um grande fresco de história, frases profundas e dramáticas, um dedo acusador e fremente à direita "ultraliberal" e pimba, ponham a máquina das notas a trabalhar numa Europa Federal, e os Carrilhos a administrá-la, que tudo se há-de compôr.

 

Sobram algumas perguntas (são perguntas verdadeiras, não retóricas - não conheço a resposta):

 

i) O preço do petróleo é hoje mais alto, em termos reais, do que era em 1973? Quão mais alto?

ii) O peso físico dos Diários da Republica e dos equivalentes registos de legislação em vigor nos outros 26 países, e ainda na UE, é superior ou inferior ao que existia em finais da década de 70? E a quantidade de leis, decretos, portarias, directivas, regulamentos - tem diminuído desde que os "ultraliberais" tomaram conta da maior parte dos países e da barca europeia?

iii) As privatizações contribuíram para o descalabro e o endividamento de que forma? Há evidência de que a gestão privada das empresas antes públicas tenha sido um factor recessivo?

iv) A evolução demográfica é irrelevante?

v) Para além das leis do trabalho, houve flexibilização exactamente de quê? E o regresso a leis do trabalho mais restritivas do despedimento para "defender" os postos de trabalho faria crescer o emprego de que forma?

vi) Admitindo, sem conceder, que tenha sido a desregulamentação a provocar a crise do sub-prime, e esta a originar a global, por que razão o nosso país, entre outros, foi mais afectado, quando o sistema bancário local pouco foi tocado por aquela crise?

vi) O peso da despesa pública no PIB, durante os anos de gestão "neoliberal", tem diminuído? E, finalmente,

vi) Quem deve, deve a alguém - o montante da dívida é sempre matematicamente igual ao do crédito concedido, e para assegurar o seu serviço é preciso contar com os juros. Donde, em princípio e tarde ou cedo, os credores acabam por dizer - agora basta. Onde o crescimento da dívida não se traduziu por um crescimento do produto na mesma proporção, porque há-de pensar-se que no futuro seria diferente?

 

Carrilho é bem capaz de ter resposta para estas perguntas, sob a forma de proclamação: ele tem uma visão para a Europa. Outros também têm visões, não necessariamente a dele. Isto já é um embaraço, mas há outro: há quem seja pouco dado a visões, talvez por andar com os olhos abertos.

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