Domingo, 25 de Novembro de 2012
por João Villalobos

O vereador Sá Fernandes quer "esplanadas topo de gama" em toda a Lisboa. E faz muito bem. Quer no fundo uma cidade em que, "de uma ponta a outra", cada restaurante tenha a dignidade estilizada de um Bica do Sapato. Capaz de, deslumbrando com cada canto e recanto desde a Mouraria a Marvila, ofuscar com a sua ordem e vanguardista beleza os turistas americanos e nórdicos que folheiam as páginas da Monocle, da Wallpaper e do New York Times para que nos visitem e larguem aqui as suas moedinhas. Nada dessas pindéricas cadeiras de plástico. Proibam-se os pirosos tapa-ventos. Alguém já viu um tapa-vento em Oslo? Quem pode discordar do vereador Sá Fernandes? Só alguém de muito más famílias, depauperada educação ou assim.  

Terminada a ironia, imagino que pouco deve importar ao vereador Sá Fernandes - e a bem dizer igualmente ao presidente António Costa - a tempestade perfeita que já atravessa o sector da restauração. Prova-o a cereja em cima do bolo que é, de acordo com as instruções e diretivas estéticas dos senhores, a decisão de que as "esplanadas topo de gama" não poderão ostentar essa coisa horrorosa, toda ela kitsch e digna de cidades terceiro-mundistas que é a publicidade. Publicidade, essa, sem a qual os profissionais de restauração não poderão eventualmente manter nem a sua actividade de negócio, quanto mais os preços.  

Em qualquer outra cidade, estou certo de que um executivo camarário que acumulasse experiências envolvendo duplas rotundas, interditasse a circulação de veículos com base em critérios de discutível subjectividade, obrigasse todo um sector a sofrer retaliações como esta e, ao mesmo tempo, fosse ampla e repetidamente criticado por toda uma panóplia de serviços que não presta com a qualidade devida, seria penalizado nas urnas nas próximas eleições. Tratando-se de Lisboa, não aposto nem a feijões. 

Entretanto, a notícia do Público linkada acima também fala do outro lado desse "topo de gama". O do gamanço. Mas isso, ao que parece a quem lê, já não é com o vereador Sá Fernandes.


tiro de João Villalobos
tiro único | gosto pois!

De António Nunes a 26 de Novembro de 2012 às 20:21
O artigo que publica não tem grande sentido. Os comerciantes não ganham com a publicidade (apenas recebem os artefactos, geralmente de má qualidade, gratuitamente). Muitas esplanadas não cumprem a lei, são impecilhos a quem quer andar pelos passeios, a carros de emergência, etc. O turismo (especialmente o de Inverno) é uma das poucas vantagens comparativas que temos sobre o resto da Europa: temos de ter qualidade no que oferecemos. Como vivo na Duque de Ávila estou à vontade para lhe dizer que, se não fosse a requalificação operada, três ou quatro restaurantes já teriam falido. Relativamente à dupla Rotunda, pelo que escreve, percebo que não passa por lá muitas vezes (na minha opinião, o problema da Rotunda tem mais a ver com o Princípe Real e com o facto de não ter sido capaz de diminuir o tráfego ascendente da Av. da Liberdade).
Talvez fosse melhor ter começado pelo IVA : que subiu e desceram as receitas, essa é a grande incongruência em termos de políticas públicas.
Um bem haja e parabéns pelo blogue.


De João Villalobos a 27 de Novembro de 2012 às 05:56
Caro António Nunes, obrigado pelo seu contributo. Mas mora na Duque de Ávila?! Só brincando alguém pode comentar seja o que for sobre a cidade vivendo na rua que mais sofreu nos últimos anos. Vou, portanto, achar que ou é estreante no seu bairro, ou tem um grande sentido de humor. Em qualquer dos casos, parabéns.


De leitor a 30 de Novembro de 2012 às 18:04
Sim, foi vergonhoso o tempo de obras na Duque de Avila, mas a verdade é que o resultado final é um sucesso, basta passar por lá para ver que a rua ganhou mesmo vida. Já agora, só brincando alguém pode dizer que a avenida estaria melhor no estado miserável do resto das avenidas novas.

Sobre as esplanadas, o único argumento em que se dá no seu texto é de que os proprietários precisam da publicidade para sobreviver. Desculpe lá, mas é mentira. A única vantagem que têm em ter as esplanadas horrendas é não ter de pagar pelas mesas e cadeiras. E investir numa nova dúzia de novas mesas cadeiras (como tiveram de fazer para as de interior), não põe certamente em risco a sobrevivência dos restaurantes. Por acaso sabe quanto custa por mês ter uma esplanada na Rua Augusta?

Esta é a apenas mais uma regulação, a juntar a muitas outras, que constituem entraves ao livre mercado, como a proibição de colar publicidade nos prédios, ter letreiros gigantes e cheios de neons para chamar a atenção, montar a esplanada onde bem se enteder, etc, etc. E aliás, esta é uma medida, que, se torna o ambiente das esplanadas mais agradável, parece-me óbvio que tenderá a atrair mais clientes. Tal como atrai mais clientes ter um restaurante decorado sem cuidado nenhum, tipo taberna, e um restaurante com uma decoração cuidada, que crie um ambiente agradável.


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