Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012
por José Meireles Graça

Na intensa e permanente propaganda pró-UE, as Quatro Liberdades (uma formulação com ressonâncias maoístas) são apresentadas como uma conquista - mais uma - no longo e glorioso caminho da "construção europeia".

 

São elas, relembrando, a de movimento de produtos e mercadorias, de serviços, de pessoas (incluindo trabalhadores) e de capital.

 

Não viessem estas liberdades acompanhadas de um super-estado com uma crescente burocracia centralizadora, interventiva e legislativa; e não fosse já evidente que a Europa não é a das Nações, mas, crescentemente, a de um Directório, e, tendencialmente, a de um país; e sendo patente que, nas relações entre Estados, tal como na relação entre as pessoas, quem parte e reparte escolhe a melhor parte:

 

Estas quatro liberdades valeriam a pena. Mas o preço que se paga e o que se adivinha é cada vez maior, desde logo porque a liberdade principal de um país pequeno e pobreta como o nosso, que é a de gerir as suas dependências, não apenas desapareceu por força da bancarrota, como não se lhe vê o regresso, mesmo para lá do momento em que o País atinja o fundo que incessantemente parece mais fundo.

 

Não é que estas cogitações interessem muito: a classe dirigente é pela sua maior parte europeísta, o que quer dizer nas nossas circunstâncias concretas Eurista; o acumular de problemas e impotências facilita o aprofundamento da integração - qualquer solução parece uma solução; e não será a mesma classe que criou o monstro que o há-de liquidar - nem os políticos nem os burocratas são adeptos do hara-kiri.

 

Mas isto é entre nós. Noutras paragens, a propósito de assuntos menores, o Estado arreganha os dentes aos seus cidadãos que querem ir pastar para mais verdes prados - circula à tua vontade mas deixa ficar o arame. Se a intimidação não resultar, a solução que já generalizadamente se defende é a harmonização fiscal. Por cima, já se vê.

 

Mas não é provável que quem quer e pode ter impostos relativamente mais baixos esteja disposto a abrir mão da vantagem competitiva; nem que, com mais ou menos barulheira mediática, os cidadãos se deixem alegremente espoliar.

 

Isto é uma grande maçada: Todos os impérios se fazem com grandes proclamações e o bruxelense não é, neste particular, diferente. Mas a Europa escolheu a democracia e a liberdade como pedras angulares. E alguns cidadãos e alguns países não as veem como a democracia dos escravos do Estado e a liberdade de obedecer e abdicar.

 

Pelo que o affaire Depardieu, a mim, parece-me mais um sintoma que um fait-divers. E, para acabar o ano numa nota positiva, um sintoma de que a resignação não é o estado de alma ubíquo que a nós nos parece ser. 

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2 comentários:
De jfd a 28 de Dezembro de 2012 às 22:13
Excelente reflexão!


De José Meireles Graça a 28 de Dezembro de 2012 às 23:20
Excelente não será, Jorge - é mais descoroçoada. Mas obrigado.


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