Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
por Fernando Moreira de Sá

Ela trabalhou 40 anos e descontou outros tantos. A D. Isabel reformou-se aos 62 anos e fez uma festa de arromba.

 

Ela nasceu no interior do país e rumou cedo, muito cedo, até ao litoral numa constante busca por uma vida melhor. Ao longo dos anos fartou-se de poupar. Além do seu emprego tinha outro gancho fora das horas de expediente. O que ela labutou.

 

Mesmo depois do 25 de Abril nunca ligou muito à política embora, diga-se em abono da verdade, não falhou um só Domingo eleitoral. A sua geração sofreu na pele o que era viver num país sem essa possibilidade e entendia o voto como um dever cívico. Contudo, considerava os políticos e a política como algo estranho e próprio daqueles senhores de fato e gravata que surgiam, diariamente, na sua televisão. Coisa de doutores.

 

O seu esforço diário permitiu-lhe, como ela diz orgulhosa: “dar um curso à minha filha, a primeira doutora da família!”. Até tirou a carta de condução e comprou um utilitário. Azul. Ela só gosta de carros azuis. Que utiliza para levar os netos à escola e ao cinema – ela que entrou pela primeira vez numa sala de cinema puxada pelos netos. Uma vida de trabalho e dedicação à família. Uma vida honesta cujos poucos luxos, se se podem considerar como tais, são os gastos com os netos e o seu utilitário azul com pouco mais de 18 anos e miraculosamente em excelente estado.

 

A D. Isabel nunca ligou muito a essa coisa da política e seguiu sempre o seu instinto. Votou em Sá-Carneiro, em Ramalho Eanes, em Cavaco Silva, em António Guterres e em José Sócrates. Nas últimas eleições, preocupada, começou a levar a sério essa coisa da política e saiu de casa para apoiar Passos Coelho. Dizia às amigas que a última vez que tinha feito semelhante tinha sido nos finais de setenta para engrossar os apoiantes da AD de Sá-Carneiro, tal o medo de um regresso à pobreza e que agora, se sentia impelida a fazer o mesmo e pelos mesmos motivos.

 

Ela não sabia quem bem quem era aquele senhor que aparecia na televisão e de nome Paulo Campos, nem percebia bem o que era isso das SCUTs e nunca percebeu os salta-pocinhas do binómio política-empresas. O seu dinheiro nos BPNs ou BPPs? Credo, sempre na Caixa e com a caderneta por perto. As obras nas Escolas dos netos? Realmente, ficou surpreendida com o luxo e a rapidez das ditas e fartou-se de explicar aos pequenitos de como tinha sido no seu tempo: “é importante para eles darem valor, sabes”.

 

Hoje, ao saber de mais um corte e brutal, na sua reforma, a D. Isabel ficou em estado de choque. A filha é funcionária pública e ela, a senhora, nem sabe bem se lamente o corte a que foi sujeita, se os 15 mil euros que a filha diz perder, em salários, em ano e meio de trabalho. Olha para a sua mais-que-tudo e pensa como será para o empréstimo do T2 e da carrinha da filha e se os netos vão continuar no futebol, na natação e na música. Já para não falar nas férias dos miúdos, eles que este ano as viram reduzidas a uma espécie de fim-de-semana prolongado – o genro, entretanto, tinha perdido o emprego na construtora.

 

Ouviu em silêncio as palavras do Primeiro-ministro. No final, suspirou. Olhou para a filha e o genro e confessou o arrependimento por nunca ter dado a devida atenção à política, por ter votado nos sucessivos governantes que nos trouxeram até este pesadelo. Foi mais longe, contrariando o genro, lembrando que “estes ainda agora chegaram, como é que se pode culpá-los?”. Antes de se ir deitar ainda atirou para a filha: “E ninguém vai preso por nos ter feito isto”.

 

A D. Isabel, que trabalhou 40 anos e poupou todos os tostões de uma vida para os filhos e os netos não passarem as agruras que ela passou, não merecia isto. É por isso que me custa ver a hipocrisia daqueles que, por actos e por omissões, obrigam Portugal a cometer uma injustiça destas para com os seus reformados. É uma vergonha e um crime sem perdão, aquilo que sucessivos governantes fizeram a este país e cujo anterior governo foi o exemplo máximo da irresponsabilidade.


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