No primeiro dia do ano, enquanto me atolava em azevias, cometi a imprudência de partilhar com toda a família a minha grande resolução para 2013: livrar-me de 15% do meu peso actual (não confundir, por favor, com livrar-me de 15 quilos, que a situação é crítica mas não é preciso exagerar).
O meu irmão, num momento de perfídia, lembrou-se logo de uma informação muito útil que tinha apanhado no making of da nova versão de “Os Miseráveis”. Consta que Hugh Jackman, o actor escolhido para desempenhar o papel de Jean Valjean - um homem que, por ter roubado um pão para alimentar a irmã mais nova, é condenado à prisão – teve de perder vários quilos para se conseguir enfiar no corpo da personagem.
Iniciou então aquilo a que chamou “A Dieta do Condenado” e passou a escolher os alimentos que metia à boca em função daquilo que lhe parecia plausível estar disponível a um homem do degredo. Se entrava numa pastelaria, olhava para a montra e, em vez do habitual croissant com chocolate, encomendava uma carcaça seca. À hora do lanche, quando a fome se fazia sentir, entrava na cozinha e agarrava numa maçã macilenta. Ao jantar, atirava-se a um prato de aguadilha com a sofreguidão de quem manda abaixo um cabrito assado. E daí por diante.
Ainda tentei argumentar que me parecia um infortúnio ter um irmão que, em vez de roubar um pão para me alimentar, me queria condenar à fome, mas ele, irredutível, atreveu-se a acrescentar que a dieta não surtiria qualquer efeito se tomasse como modelo a nova leva de condenados de colarinho branco, dos que são servidos na prisão por caterings de prestigiados restaurantes lisboetas.
Pus-me a pensar que, de facto, é apenas uma questão de mentalização e que entrar no mind set de um condenado é uma opção tão válida como a de marcar consulta em qualquer nutricionista, com a vantagem de sair muito mais barato.
De maneira que, inspirada no Papillon, tenho-me agraciado à noitinha com uma insípida sopa de lentilhas (não sei porquê, mas tenho ideia de que no Papillon passam a vida a levar com lentilhas) agradecendo a Deus não ser, de facto, desterrada e não haver qualquer hipótese de me partirem as pernas numa rixa amotinada, que permanecer com as tíbias intactas dá-me jeito para as caminhadas.
Não tenho tido fome, é certo, mas ando cá com uma vontade de comer que nem vos digo nada.