Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013
por Francisca Prieto

 

 

 

Sempre pertenci à enervante categoria de pessoas que jamais se olvidará de todo e qualquer ínfimo pormenor de uma história que se lhes conte. Fui várias vezes apedrejada por amigos por muito inconvenientemente lhes recordar com vivacidade acontecimentos que já todos prefeririam ter enterrado nas brumas do Alzheimer social.

Tornou-se quase uma imagem de marca, esta capacidade de armazenar em ficheiros do cerebelo uma série de dados prosaicos que, sempre que a ocasião proporciona, são revelados com toda a naturalidade a rostos atónitos. “Como é que tu te lembras disso, mulher”, costumam exclamar.

Mas eu lembro-me, ó se me lembro. Disso e de muito mais.

 

Ultimamente, porém, ando a ser vítima de um fenómeno insólito sempre que resolvo pegar numa mantinha, enroscar-me no sofá e, de comando na mão, escolher um filme da panóplia do videoclube.

 

Começo a seguir o padrão de, por altura de três quartos da fita, dar com a sensação de já ter visto aquele actor naquela situação. E sei que o filho não é dele. Não faço ideia de quem seja, não sei como é que o homem vai descobrir a traição, mas tenho a certezinha de que se lhe fizerem um teste de ADN, vai haver bronca.

Isto quer dizer que já vi o filme, e o desenrolar do enredo vem fatalmente a comprová-lo. Mas se retirarmos um ou outro momento aleatório de lucidez, estava capaz de garantir que nunca tinha sido exposta à película. Tudo aquilo era Hollywood novinho em folha para os meus olhos.

 

Embora raiando o assustador, o fenómeno tem as suas vantagens. Ainda no fim de semana passado consegui gozar em pleno uma projecção do Annie Hall, filme que posso assegurar já ter visionado umas duas ou três vezes e que é um dos meus preferidos de sempre. Regozijei com cada pormenor do texto como da primeira vez e (re)vi todas as cenas com o triunfo de quem acaba de descobrir uma pérola secreta na vasta arca da cinematografia mundial.

 

Abre-se assim um novo mundo que me faz agora encarar, cheia de entusiasmo, toda e qualquer novidade que os DVDs empoeirados das estantes cá de casa me possam vir a trazer.

 


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