Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

Ficou célebre a boutade de Jorge Sampaio: Há mais vida para além do défice! Não é de excluir que este desabafo tolo venha a ter direito a uma nota de rodapé numa monografia sobre a III Républica, a escrever por um historiador que, daqui a cem anos, queira compreender o estranho regime que, em menos de duas gerações, levou o País à falência por três vezes, a última das quais com dívidas, pública e externa, sem precedentes.

 

O próprio diz que nunca disse o que se diz que disse, tendo antes afirmado: Há mais vida para além do orçamento! - como se fosse muito diferente, valha-o Deus.

 

Para já, estamos ainda a fazer a história deste período, do qual ignoramos o desenlace.

 

Cada qual é livre de construir uma lista dos factores que conduziram ao descalabro a que chegámos. Na minha figuram em lugar proeminente o crescimento constante do peso dos direitos económicos que a nossa gloriosa Constituição consagra, a evolução demográfica, a condução geral da economia de modo desfavorável ao investimento privado, o aumento imparável da importância da Administração na vida das empresas e dos cidadãos, e a adesão ao Euro. Este último por ter sido aquele que reorientou a economia para actividades sem futuro e porque permitiu atingirem-se níveis de endividamento, público e privado, que com moeda própria não teriam sido possíveis.

 

Na parte em que estes factores dependeram de decisões políticas não se nota especialmente a influência de Sampaio, dada a sua condição de figura menor até ser eleito Presidente da Républica. Aliás, tirando a famosa tirada de 2003, mais o facto de ter demitido um Governo com maioria parlamentar porque não era do seu partido e tinha uma grande falta de popularidade, os mandatos como Presidente não desmereceram da sua singular vacuidade.

 

Nestas quase quatro décadas Sampaio esteve sempre do lado errado. E esteve sempre em modo soft, embrulhando as banalidades das sucessivas vulgatas de esquerda que foi adoptando num palavreado que, quando era mais novo, era o mesmo do seu clube partidário, mas traduzido para intelectualês, e, agora que é um senador do regime, para paternalês.

 

Exagero meu? Não me parece.


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