Sábado, 15 de Outubro de 2011
por Luís Naves

Acho saudável que uma democracia tenha formas de canalizar o descontentamento da população, como é o caso da manifestação dos indignados que está a decorrer em Lisboa (vi na rua o início do protesto).

Já fico mais preocupado com as respostas (e algumas das perguntas) que vi em reportagens na televisão.

As pessoas manifestam-se naturalmente contra as medidas do governo, mas deviam ter protestado em devido tempo contra a troika. Deviam ter votado contra os partidos que aceitaram o acordo do memorando. As metas do acordo são claras: 5,9% de défice orçamental este ano; 4,5% no próximo. Se não conseguir alcançar estas metas, Portugal ficará sem financiamento externo e a sua economia estará numa situação muito pior do que a actual. Não haverá apenas cortes nos salários dos funcionários, deixará de haver dinheiro para pagar esses salários. 

Não é possível ter sol na eira e chuva no nabal. Por outro lado, não compreendo o catastrofismo de alguns analistas, como se não esperassem o que vinha aí, como se isto fosse tudo uma grande surpresa para eles. É ler-se a imprensa de hoje, está por todos os lados, escrito pelos mesmos que há duas semanas exigiam cortes na despesa e se espantavam pela sua ausência. Mas estes analistas não sabiam o que nos esperava? Não sabiam o significado do que eles próprios pediam, em artigos onde rasgavam as vestes?

 

Uma reflexão final sobre os indignados. Nos EUA, os manifestantes do Occupy Wall Street dirigem-se com maior nitidez aos abusos do sistema financeiro e dou por mim a concordar com grande parte do que dizem. Parece-me evidente que estamos nas fases iniciais de uma profunda crise do capitalismo e que é preciso maior regulação.

Já o movimento europeu é confuso. Tem as mesmas características populistas do movimento americano, de anti-política, mas em quantidades que me parecem tóxicas. A rejeição dos partidos e o processo de decisões anárquico, que facilita as manipulações e as chapeladas, são retrocessos da democracia, não são avanços. As assembleias gerais populares são facilmente manipuláveis.  E ser do contra porque parece moderno não resolve nenhum problema da sociedade.

Também não entendo a exigência de "democracia participativa". O país a ser governado na rua, por assembleias populares? O governo por sondagens ou pelas redes sociais?

Uma senhora está neste momento na TV a dizer que "a gente não paga a dívida". Isto é apenas outra fantasia, como aquelas em que este país viveu nos últimos anos. Claro quer vamos pagar a dívida, pelo menos enquanto os credores nos exigirem isso, pois a alternativa é um retrocesso ao nível da Albânia. Se fizermos o que os indignados querem, o país vai à falência e fica isolado. O que temos é mau, sem dúvida, os nossos "amigos" externos são duros, mas o poder da rua não passa de uma ilusão cruel.


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8 comentários:
De Chessplayer a 15 de Outubro de 2011 às 21:43
" ...mas deviam ter protestado em devido tempo contra a troika. Deviam ter votado contra os partidos que aceitaram o acordo do memorando..."

mas o pagode votou no PPC com base no que ele disse ... e na volta é Uma cópia do sócrates ...


De Luís Naves a 15 de Outubro de 2011 às 23:44
cópia em quê?
Este comentário só mostra até que ponto algumas pessoas se recusam a ver a realidade


De Pedro a 16 de Outubro de 2011 às 15:27
Oh Luis Neves, olhe que o indignado vai-se indignar com a sua pergunta. Desde quando factos são relevantes para uma discussão destas?


De Ricardo Vicente a 16 de Outubro de 2011 às 17:17
"mas o pagode votou no PPC com base no que ele disse"

Se assim foi, o "pagode" procedeu bem pois tudo o que PPC disse é verdade. E quando se vota com base nas verdades ditas, o voto é verdadeiramente consciente.


De natalia santos a 16 de Outubro de 2011 às 14:31
"O poder da rua não passa de uma ilusão cruel "? Quer acreditar nisso para se sentir mais sossegado?


De Luís Naves a 16 de Outubro de 2011 às 19:36
Tem razão, o poder da rua vai produzir um milagre e resolver o problema da dívida, limpar o défice...


De CAL a 16 de Outubro de 2011 às 17:47
Concordo que deva ser cumprido o programa da troika, mas porque o Governo não começou dando o exemplo? Na minha casa, primeiro tenho que dar exemplo de austeridade para, aí sim, exigir sacrifícios da família. Tem de haver moral para ser respeitado. O descrédito do povo pelos políticos é muito grande, é fundamental restabelecer a sua confiança! O mal dos políticos é achar que o número de votos que o elegeu lhe dá o direito de fazer o que quer.


De Luís Naves a 16 de Outubro de 2011 às 19:37
Os políticos e os membros dos gabinetes não têm subsídio de férias nem de natal, incluindo o primeiro-ministro


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