Domingo, 16 de Outubro de 2011
por Fernando Moreira de Sá

 

 

“Estamos a tomar o pequeno-almoço ao sol e de súbito o torso que antes víramos denso e liso antecipa a decadência da carne velha: urgem umas visitas à pedicura, o hálito ressuma ao jantar de ontem”, Fernanda Câncio, Notícias Magazine.

 

Segundo a revista Sábado, a Fernanda Câncio escreveu isto na NM sobre o fim de uma relação amorosa. A Sábado vai mais longe e numa espécie de puxão de orelhas escreve: “Fernanda Câncio não diz se está a falar de Sócrates, mas sabe que toda a gente está a pensar que sim”.

 

A bisbilhotice é um desporto nacional antigo a que muitos se dedicam com afinco. Recordo-me que nessa altura, julgo que no Aventar, escrevi que achava uma pulhice as notícias(????) publicadas sobre essa matéria e uma invasão de privacidade. Por ser a f. ou o Primeiro-ministro da altura? Não, por ser, nesse caso como noutros, uma invasão de privacidade. Ponto.

 

Por sinal, não li o artigo de opinião em causa. Não costumo ler a Notícias Magazine. Por isso vou arriscar, confesso, comentar aquele parágrafo sem conhecer o seu contexto e partindo de um pressuposto, arrisco, simples: a autora não está a falar de si. Pura ficção, portanto.

Então, o que me leva a escrever sobre isso? O que me fez olhar para aquele parágrafo e gelar? Simples, o que ele representa sobre as relações actuais.

 

Se um tipo não morrer antes, não escapa à velhice. Como não escapa à morte. Na actual sociedade existe um arrepiante sentimento de medo no que toca à idade, ao passar da idade. Por isso mesmo, a indústria da saúde, investe e ganha rios de dinheiro com o “combate à idade”. Ele são cremes (até de baba de camelo!), operações e injecções. Já existem clínicas e tudo. O meu falecido Pai dizia, com humor, que só faltava venderem merda em frasco para esconder as rugas. Já estivemos mais longe.

 

Uma relação a dois é uma das maiores empreitadas do ser humano. Somos todos tão diferentes que só a coragem de partilhar vida é todo um programa. Cuja complexidade aumenta se existirem filhos pelo meio. O número de divórcios é a prova da dificuldade.

 

O que mais me “encanita”  no pedaço de texto em causa é aquilo que ele representa: as relações pastilha elástica (mastiga e deita fora). A tal decadência da carne velha de que fala a f. é um processo natural que não é, penso eu, proporcional ou justificativo para uma outra decadência: a da relação a dois. Por muito verdadeiro que seja esse sentimento, ele não deixa de ser egoísta e, até, boomerang. Os olhos que conseguem ver a decadência da carne do parceiro escondem a nossa própria decadência. O nosso espelho é sempre simpático connosco e demolidor para com os outros. Mera questão de perspectiva.

 

Uma relação vive de partilha. De respeito. De amor. A evolução da “carne” é natural e não serve de justificação. Serve, quando muito, de desculpa para outro tipo de sentimentos que não se gosta de admitir: egoísmo, pulhice ou, mais simples e reles, quando o outro já não serve os nossos propósitos, as nossas secretas ambições e por isso, tal como a pastilha elástica, deita-se fora.

 

Nota: entretanto, já o li, AQUI. Tive sorte. Acertei, o resto liga com aquele simples pedaço.


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