O Plano B (2)
A QUESTÃO INTERNA DO PS QUE AFECTA O PAÍS
Uns dirão de António Costa que “não há surfista que não sinta atracção pelo mar. Mas é preciso saber escolher a onda. Costa percebeu que a onda que tinha para surfar não era a dele. Era a dos órfãos daquele que não pode ser nomeado. E Costa percebeu ainda que, se avançasse contra Seguro como general de um exército composto por soldados ainda intrinsecamente fiéis a lideranças pretéritas, mesmo em caso de sucesso seria refém e não vencedor“; eu diria que recuou um passo atrás para garantir que, num futuro a definir por ele mesmo, possa dar os passos que quiser para a frente.
O que ensombra a legítima ambição do próprio é, precisamente, estar acompanhado pelo grupo organizado por Sócrates no interior do PS, grupo esse que personificou a mais perigosa tomada e controlo de poder em Portugal desde o PREC.
Relembremos. Porque esta memória não pode ser curta.
Sócrates, com os “seus”, usou e intimou o Estado para proteger o seu projecto de poder autoritário. Tentou e conseguiu controlar a oposição na imprensa ( TVI, Público ), apadrinhou aquisições na tentativa de controlar linhas editoriais ( grupo Diário Notícias/Jornal Notícias/TSF com a contrapartida de manutenção do monopólio das transmissões desportivas, tentativa de compra da TVI pela Portugal Telecom ), montou um sistema permanente de informação e contra-informação, que, sem escrúpulos, que não se coibiu de atingir o próprio Presidente da República, utilizou dolosamente o Estado em contractos leoninos que favoreceram os parceiros privados em várias PPP’s e SCUTS, apadrinhou a tomada de controlo de um Banco privado ( BCP ) por parte dos seus correligionários, cujo suporte financeiro eram as próprias acções adquiridas sem garantias de colaterais, ocultou ( e mentiu ) aos portugueses sobre a verdadeira situação económica que nos conduziu à porta da bancarrota, utilizou a Banca nacional para financiar o Estado quando os mercados já não confiavam nele e aumentaram desmesuradamente os juros das operações de colocação de dívida.
A arrogância e má gestão tortuosa de Sócrates não faziam, até então, parte da tradição democrática do PS. Nunca o PS na sua história tinha sido usado por um projecto de poder autoritário de uma facção. O resultado foi claro: o país na bancarrota, o PS com a sua pior derrota eleitoral de sempre, as famílias e as empresas portuguesas a sofrerem economicamente para corrigirem os erros do seu governo.
Estivemos no limite da democracia, como muito bem nos alertou várias vezes António Barreto.
Este limite da democracia nunca foi criticado por António Costa. Bem pelo contrário. Apoiou Sócrates até ao fim e, mesmo, depois do fim, arranjando sempre justificações e imputando sempre a outros a causa do descalabro que nos afectou a todos.
A QUESTÃO EXTERNA DO PAÍS QUE AFECTA O PS
“ Não podemos voltar ao passado”, afirmou J A Seguro na noite das facas longas em que defrontou António Costa.
Não voltar ao passado, por parte do PS, é uma dupla questão essencial que o PS tem de resolver. É não voltar a um projecto político que não aceita as regras europeias, é não voltar ao projecto de poder que Sócrates construiu dentro do PS. Se o PS der este passo definitivo, a hipótese de haver um acordo de regime dos partidos democráticos que resulte num equilíbrio entre a função e a dimensão do Estado e os impostos que os portugueses estão dispostos a pagar por ele, pode vir a ser possível.
Isso significa que o PS tem de assumir que é um partido europeu, e que as regras económicas e financeiras da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu são para cumprir. E, aqui, ao PS basta ouvir Hollande. Não tem de abdicar dos seus projectos de política social: não pode é infringir as regras de equilíbrio orçamental, de deficit e de dívida que nos permitem ser europeus, ou seja, estar na EU e pertencer à zona euro.
Isto é pedir muito ? Hoje ainda é, mas é possível.
Amanhã, com a projecto de poder de Sócrates travestido em Costa, além de impossível, pode ser perigoso.
