Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013
por José Meireles Graça

Para a maior parte dos eleitores o 25 de Abril só ainda não é o 28 de Maio porque ainda se fala muito dos Cravos - estão vivos muitos protagonistas e espectadores, e a gente velha não se cala com o antigamente.

 

O 25 de Novembro, então, já deve estar abaixo do nível do 5 de Outubro, que só não cai no olvido definitivamente porque o putativo Rei anda por aí, como andam em países retrógrados muitos que são reis verdadeiramente.

 

Quando os da minha geração, na qual há já grandes e crescentes clareiras, forem muito poucos e a cair da tripeça, a memória do 25 de Abril morará apenas no coração enfraquecido e na cabeça atarantada deles; e depois juntar-se-á ao 31 de Janeiro, à Maria da Fonte, ao 5 de Outubro, numa amálgama dos cacos da nossa História.

 

Para um democrata como eu, é bom que seja assim. Porque a comparação entre o que somos e o que fomos, o que éramos perante o resto do Mundo e no que nos tornámos, faz com que, por vezes, seja difícil conter uma explosão de cólera e exclamar: Volta Marcelo, estás perdoado!

 

Entendamo-nos: Marcelo era muitíssimo tolerante, com excepção de não deixar falar, e menos ainda escrever, quem discutisse ou contestasse o Poder; e apreciava fortemente a Liberdade, com a condição de o exercício dela não pôr em causa a ordem estabelecida ou ao abrigo dela se conhecer o que não conviesse à Situação.

 

Para quem com gosto e frequência se alivia das suas opiniões, como eu, estas limitações são intoleráveis. Mas tenho trabalho e não vivo mal. E cabe perguntar se quem não o tem e se encontra na miséria conserva um tão acrisolado amor à Democracia: é que os eleitos trouxeram algumas coisas óptimas, mas abstiveram-se cuidadosamente de esclarecer que para pagar as promessas eleitorais contraíram empréstimos como se não houvesse amanhã. Mas havia - é hoje.

 

É que Portugal, até 1974, crescia, e muito mais do que os seus futuros parceiros; e agora a única coisa que cresce é a dívida pública, muito, e as exportações, alguma coisa. Essa malfadada dívida era na altura de cerca de 15% do PIB, apesar de o País suportar uma guerra colonial em três frentes; e as reservas de ouro no Banco de Portugal, que pelos tratados para pouco servem, eram quase o dobro do que agora "temos".

 

Não podíamos falar. Mas nas caixas dos supermercados, aliás raros, não se encontravam licenciados; e mesmo que, então e agora, houvesse emigração, sempre o emigrante podia enviar as suas poupanças para uma banca segura e um país respeitador da propriedade e amigo da estabilidade.

 

O Estado encarregava-se de fazer a vida num inferno a quem activamente era inimigo do Poder de então. Mas, mesmo com os custos de um aparelho repressivo e uma guerra que não poderíamos ganhar, ficava-nos barato. E, desde que pagássemos o preço com silêncio e inacção, deixava-nos largamente em paz.

 

Agora não deixa: não se pode comprar uma camisa, ir a um restaurante, adquirir um livro, sem que quase um quarto do preço seja imposto; do que resta, basta ter rendimentos que na Europa são considerados de classe média para o Estado se apropriar de metade; os impostos sobre o vício ou o prazer são demenciais; nas empresas e na vida das pessoas há um fiscal à espreita, especialista em normas, regulamentos e proibições, brandindo coimas terroristas; e a cada novo orçamento, a cada nova legislatura, crescem as proibições, os interditos, as sanções.

 

Houve um tempo, que vivi, em que havia o censor - conheci aliás um espécime da categoria que, no pós vinte e cinco do quatro, se converteu à social-democracia; e houve um tempo em que havia o bufo - denunciava Fulano como sendo da "Oposição" e Fulano estava metido numa alhada.

 

Parece que os bufos recebiam uma pitança. Mas não era obrigatório ser bufo, e só fanáticos e escumalha se prestavam ao papel.

 

Agora, toda a gente é obrigada a ser bufo, sob pena de multa. Mas não se pode parar o Progresso: enquanto paga pode falar, ninguém lho proíbe - isso seria contra a Liberdade. 


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