Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

Tiago Miranda (Expresso)

 

Em parte é verdade, em parte é mentira. A parte de verdade é esta: estamos endividados para cobrir os défices de funcionamento e as rentabilidades negativas de tantos projectos, por exemplo de construção civil, que serviram única e exclusivamente para injectar dinheiro nas empresas amigalhaças do poder político, nomeadamente a Mota-Engil. É possível que formalmente não haja ilegalidade nenhuma. Mas utilizar os trâmites legais para privilegiar interesses privados expoliando os contribuintes é, substantivamente, um roubo. Roubalheira, ladroagem: são palavras do povo, desagradáveis, deselegantes. Mas são as palavras que com maior propriedade podem classificar, por exemplo, os negócios entre os socialistas do partido e os socialistas da construção civil.


A parte de mentira é esta: estamos endividados porque a economia portuguesa nunca produziu o suficiente para financiar o nosso welfare state, nomeadamente os salários e as pensões da função pública, em particular dos que foram contratados antes de 1993. A dívida de hoje, neste caso, é o preço que as gerações actuais têm de pagar pelos salários e as pensões já pagos no passado a um conjunto de portugueses que se tornou classe média graças e, muitas vezes, por favor do Estado. A menos que se considere a função pública uma classe dominante e os seus rendimentos um roubo, aquela frase não é verdadeira.

 

Tiago Miranda (Expresso)

 

O Estado somos todos nós ("cada cidadão um político") também é só meia-verdade: somos quase todos nós quando o que está em causa é pagar impostos; é uma minoria (demasiado grande porém) quando o que está em causa é mesmo fazer parte do Estado, isto é, trabalhar para o Estado tendo um contrato vitalício, pensão de cem por cento ou próximo disso, acesso à ADSE e outras regalias.


A dívida de hoje é pois o resultado de dois factores: um, puro nepotismo e captura do dinheiro do Estado para servir interesses privados, interesses que são depois defendidos com recurso às narrativas/mentiras da modernização e do Portugal é o único país que ainda não tem isto nem faz aquilo...; dois, a expansão desmesurada de um welfare state sem ter em conta o fraco crescimento económico e, até, o efeito negativo que essa expansão teve/tem no próprio crescimento, um welfare state perverso que consiste em tributar o todo para garantir o bem-estar de um número excessivo de funcionários públicos e subsidiodependentes, número este que quanto mais aumenta mais rapidamente conduz o próprio sistema à falência.


P.S.: Ao ver as fotos nos dois linques do Expresso, a impressão que tenho é que os "indignados" não chegaram sequer a um milhar.


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6 comentários:
De Cobarde a 17 de Outubro de 2011 às 14:08
Correcção: os funcionários públicos sempre descontaram para um sistema de saúde e para um sistema de reforma. Quem não descontava -era facultativo, ou fugia-se - eram os privados -patrões e colaboradores!

Foram as pensões pagas a milhões de não contribuitivos, ou pequenos contributivos (2 anos) que fez a dívida; ISSO E AS REFORMAS MILIONÁRIAS DE DETENTORES DE CARGOS PÚBLICOS, depois de 8 ANOS DE SERVIÇO!

Isso mais a acumulação de reformas das majestáticas: como o outro que 'trabalhou' 1 mês e recebe milhares de euros/mês!

Mas o gajo não era FP -foi político profissional toda a vida e como nem gostava do regime anterior foi indeminizado!

Porque não quantificam as reformas das lontras do regime? Os QUE NUNCA DESCONTARAM?

POIS!...


De Ricardo Vicente a 17 de Outubro de 2011 às 16:24
Os vários sistemas de reforma da função pública NÃO eram/são de capitalização. Isso significa que são sustentados em boa parte pelos impostos cobrados sobre o sector PRIVADO. Por outro lado, na medida em que em muitos casos a produtividade da função pública fica abaixo dos salários (o que não acontece tanto no sector privado uma vez que é muitíssimo mais fácil despedir os trabalhadores menos produtivos nesse sector), esses salários (e, consequentemente, as contribuições dos funcionários para os seus fundos de reforma) são o resultado não de criação de riqueza mas de transferência de riqueza do privado para o público.

Estou de acordo consigo quando refere a importância da injustificada e, muitas vezes, obscena desigualdade na distribuição das reformas em Portugal.


De inês tavares a 18 de Outubro de 2011 às 19:06
E as contribuições foram para...?
Os privados é que pagam as reformas? Só se for: pagam -em impostos- os salários da FP.

Caro Vicente: há quantos anos é que conhece a vida empresarial e a da FP? É que ultimamente houve mudanças, mas as pensões são resultado de situações muito antigas. E eu já trabalhei nos 2 sistemas e já fiz muitos recibos (c/ descontos) de uma empresa privada e sei que há 40-50 anos quantos pagavam para a sua aposentação. Pois uma minoria, que hoje recebe uma pensão. Paga, com os meus impostos e NÃO COM OS DESCONTOS QUE NÃO FEZ!


De Ricardo Vicente a 19 de Outubro de 2011 às 11:32
A minha resposta ao seu comentário só pode ser esta: leia o meu comentário anterior outra vez. Está lá quase tudo (só o ponto 4 abaixo é novo).

1. As pensões da FP NÃO são de capitalização. Os impostos de TODA a gente, funcionários públicos ou privados, contribuem para essas pensões, tal como os impostos de TODA a gente contribuíam para financiar a ADSE ainda que desta só beneficiassem os funcionários públicos (isto da ADSE mudou, e bem, com Sócrates). As pensões da FP têm pois efeitos de redistribuição da riqueza do todo dos contribuintes para os funcionários públicos, tal como a ADSE tinha.

2. É muito mais fácil despedir no privado do que no público. Daí que um trabalhador pouco produtivo ou obsoleto ou desnecessário tenha muito mais probabilidade de manter o seu emprego no público do que no privado. Num caso de tal trabalhador, de onde é que vem o seu salário? Não é da riqueza que ele gera: mais uma vez estamos perante uma redistribuição de riqueza. Sendo que o número de obsoletos/inúteis/pouco produtivos é maior no público do que no privado, uma PARTE da massa salarial da função pública - e portanto das suas contribuições - é redistribuição de riqueza do privado para o público.

3. Ninguém diz que as pensões do privado são de capitalização. Mas se tivermos em conta que os trabalhadores privados têm menos regalias, maior precariedade, pior acesso à saúde (não tinham nem têm ADSE), não são promovidos pela mera passagem do tempo e podem muito mais facilmente serem despedidos, aquilo que ganham (salários+pensões) está muito mais próximo da riqueza que efectivamente produziram e foram capitalizando. O fluxo de redistribuição, tanto ao nível de salários como de pensões vai do privado para o público e não inversamente.

4. E vai também das gerações mais novas paras as mais velhas. Quem paga as pensões privadas de gente que trabalhou 50 anos e contribuiu pouco são as gerações mais novas. Mas espero que não tenha a imaginação de supor que essas pensões são outra coisa que pura miséria e que também não suponha que essas pensões se aproximam minimamente das do sector público.

E muito importante: a minha vida empresarial ou pública ou whatever, a si, não lhe diz respeito. A mim também não me poderia interessar menos a sua vida privada. Aqui não se discutem vidas privadas, percebeu?


De Cobarde a 17 de Outubro de 2011 às 14:18
funcionários públicos e subsidiodependentes,

caro ricard penso espero que seja um jovem ainda pouco batido na vida, porque quem escreve o que escreve num momento em que um conjunto numeroso de familias não sabem como enfrentar o futuro, no minimo revela uma alma cristã.
depoi se me explicar que quem ganhe mais de 650 euros é um chulo ou parsita desta sociedade agradeço.
quanto à manif, a qual não fui, não se iluda eram muitos, só lá faltaram os da jsd que em março estavam arrasca, mas agora calculo que já não
um grande bem haja
um funcionário publico aka parasita


De Ricardo Vicente a 17 de Outubro de 2011 às 16:28
o Cobarde parece acreditar que todos ou a maioria dos funcionários públicos ganha apenas 650 euros. A questão não é de ser "parasita" como diz nem é de saber se alguém ganha muito ou pouco. O que interessa é saber se um funcionário público mantém o seu posto de trabalho porque verdadeiramente produz riqueza ou simplesmente porque não pode ser despedido legalmente, por um lado, e os governos temem os custos eleitorais dos despedimentos, por outro.

Quanto à manif, os "muitos" de que fala, apesar de reconhecer que não foi lá, são obviamente muito poucos.


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