Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
por Joana Nave

Quantas vezes dou por mim a dizer: gosto disto, e disto, e mais isto, mas não gosto daquilo, e do outro, e mais outro. Parece simples definir os gostos de cada um, mas na verdade é uma tarefa muito difícil e da qual poucas vezes tomamos consciência. Há aquelas pessoas que são conhecidas por não gostarem de nada e outras que parece que gostam de tudo. O gosto de cada um varia vezes sem conta ao longo da vida e é bem mais fácil definir o que não se gosta do que o contrário. Os gostos definem a individualidade do ser humano, mas são ilimitados no alvo a que se referem. A importância de definir gostos facilita o relacionamento com os outros, pois pessoas semelhantes tendem a aproximar-se para partilhar o que têm em comum.

Quando penso na definição de gostos vem-me à memória o filme "Runaway Bride", em que Júlia Roberts é uma mulher que tem fobia ao casamento e por isso deixa sistematicamente os noivos no altar. Porém, a particularidade desta personagem está relacionada com o facto de não se conhecer a si mesma e por isso não saber o que quer. Claro que numa comédia romântica não pode faltar um homem interessante que desafia esta mulher a descobrir quem ela é, do que gosta e o que lhe dá prazer. Há uma cena caricata no filme em que ela resolve descobrir como gosta dos ovos, experimentando todas as formas em que podem ser confeccionados. A questão é que há coisas que temos de saber por nós mesmos como queremos e gostamos, pois a indefinição do gosto faz com que nos transformemos sempre na sombra de outra pessoa que não aquela que nós somos. Querer agradar aos outros é um gesto nobre se não nos anularmos a nós mesmos, se não deixarmos de ser quem somos. A identidade de cada indivíduo está assente num conjunto de gostos que o definem como fazendo parte de um determinado grupo. É difícil sermos totalmente diferentes uns dos outros até porque a vida em sociedade é mais fácil e enriquecedora. Se cada um de nós tiver de descobrir tudo sozinho, dificilmente poderá ir muito longe. No entanto, se soubermos o que realmente queremos e, de acordo com isso, nos aproximarmos dos nossos semelhantes, mais depressa atingiremos um bem-estar de equilíbrio e partilha no seio do grupo que nos define.

A vida que levamos é uma correria desenfreada assente em querer e ter. O tempo que dedicamos a conhecer-nos de verdade é limitado e, por isso, somos uma miscelânea de todos aqueles com quem nos cruzamos e que nos afectam de forma mais ou menos intensa. Costumo dizer que sei exactamente o que quero, mas quem me conhece bem diz que apenas sei o que não quero. Fico feliz, porque já é um princípio, agora resta-me abrandar o ritmo e entender realmente o que quero.


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