Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
por Luís Naves

Uma das ideias que ouvi repetidas nos últimos dias com mais insistência é a de que Portugal começou agora a seguir o caminho da Grécia e o resultado será uma recessão brutal. Em exemplo de Jugular. Os defensores desta tese não explicam o que devia o Governo fazer, mas concluem que as opções deste orçamento são erradas.

Julgo que em Portugal não há noção das diferenças entre a Grécia e Portugal e, sobretudo, as pessoas não entendem a brutalidade das medidas gregas ou as diferenças significativas entre os dois países. Por exemplo, é muito referido que foram cortados três subsídios (13º, 14º e 15º mês); na realidade, na Grécia só são pagos 14 meses, embora um deles dividido em dois pagamentos (na Páscoa e no Verão). Em 2010, estes subsídios foram cortados totalmente, mas apenas para funcionários públicos que recebessem mais de 3 mil euros; os outros trabalhadores tiveram um corte de dois terços. Seis meses depois, o corte estendeu-se aos pensionistas.

Apesar do ajustamento brutal, o défice grego é ainda de 19 mil milhões de euros, contra 10 mil milhões em Portugal. As pessoas esquecem que em 2009 o défice grego atingiu 15,4% do PIB e que a dívida continua a crescer, já estando acima de 170% do produto. Há apesar de tudo algumas semelhanças: o IVA só agora subiu para os restaurantes; e os dois países têm a mesma taxa. Mas estes autores nunca nos comparam com a Irlanda, apesar de haver paralelos mais evidentes. Ali a conversa é como ir além do memorando da troika. E já ninguém fala na insolvência irlandesa, apesar das dificuldades (desemprego a 15%, sinais de crescimento frágeis, dívida a 110% do PIB). Tal como a Irlanda, Portugal atingirá as metas do défice acordadas com a troika. A Grécia falha em 2011 (meta de 7,6%, défice efectivo de 8,5%) e em 2012 (meta de 6,5% e novo objectivo orçamentado de 6,8%). Já falhou nos anos anteriores.

 

É evidente que a Grécia só sai da situação precária em que se encontra se reestruturar a sua dívida, cujos juros absorvem 15% da receita do Estado. Dou um exemplo: só no final de 2012 haverá excedente primário nas contas públicas, mas mesmo assim o défice será de 6,8%. Como é que um país pode pagar uma proporção destas da sua riqueza só em juros? Mas a reestruturação depende da boa vontade dos credores. Alguém terá de sustentar a economia e a banca durante uns dez anos: serão os europeus a fazê-lo, obviamente, e custa dinheiro.

Os analistas que andaram com Sócrates ao colo e que se mantiveram calados quando os anteriores governos levavam Portugal à falência deviam explicar qual é a alternativa às actuais medidas e sobretudo explicar como podemos pagar as dívidas sem austeridade. Se não controlarmos as contas públicas, jamais poderemos negociar a suavização do memorando ou a reestruturação da dívida, se for esse o caso. Portugal depende dos credores e da benevolência da troika. Por outro lado, se desistimos de travar o endividamento, deixamos de ter financiamento externo, ou seja, deixamos de ter dinheiro para pagar a importação de remédios, de energia, de comida. Os funcionários públicos não teriam menos dois salários; não teriam qualquer salário.

 


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4 comentários:
De João André a 18 de Outubro de 2011 às 14:52
Apesar de não ser analista e de não ter andado com Sócrates ao colo (não gosto dele nem de Passos Coelho), decido dar uma resposta aqui à história.

Antes de mais o comentário que parece obrigatório. A Grécia cortou então os 13º e 14º meses aos funcionários públicos que recebessem mais de 3 mil euros, sendo que os restantes perderam 2/3 dos seus subsídios. Portugal, em contrapartida, cortou a totalidade dos seus a quem toda a gente que recebesse mais de mil euros e criou um corte progressivo entre o salário mínimo e os mil euros. Até aqui, e sem fazer as contas todas (os gregos, apesar de tudo, parecem ter feito o corte de 2/3 também a quem recebia o salário mínimo), dá-me a sensação que Portugal cortou mais a eito. Isto é só um ponto da situação.

Uma questão importante: independentemente de quaisquer esforços de contenção de défice, a verdade é que pagar o dinheirinho de volta depende totalmente de a economia o permitir. Ora é certo e garantidíssimo que a economia se retrai se não houver consumo. Uma vez que a economia de Portugal depende muito mais dos serviços que da produção (isto é um facto e tem muitos responsáveis, não só os dos últimos 6 anos), a verdade é que tais cortes brutais vão fazer com que a economia portuguesa perca força.

Aqui entra o argumento: mas depois as coisas melhoram e a economia cresce e Portugal poderá pagar as dívidas e os juros. Ora aqui é onde entramos em futurologia e ninguém pode ter a certeza nem de uma coisa nem de outra. Pura e simplesmente não é possível sabê-lo. Pode dar-se muito bem o caso de Portugal, daqui por um ano (ou dois, ou três, ou dez) estar a implementar as últimas medidas de desmantelamento do estado porque pura e simplesmente não pode pagar nada: nem salários nem empréstimos.

Perguntam-me: mas então qual a alternativa que eu vejo. Não sou economista, mas posso dar uma opinião (é de graça, ninguém paga nada, nem juros nem taxas moderadoras) que vale o que vale.

Antes de mais, fazer os investidores perceberem que, ao comprarem uma oferta de dívida de um país, estão a fazer isso mesmo: um investimento. Pode correr bem ou mal. A primeira coisa seria fazê-los compreender que não vão receber o dinheiro todo com que contavam. Ou perdem parte dos juros, ou os juros na totalidade ou até perderão parte do investimento. Ou receberão o dinheiro, na totalidade ou parcialmente, mais tarde. Claro que é fundamental pagar o máximo da dívida possível, caso contrário a credibilidade desaparece mesmo. Ainda assim, uma perda parcial para os investidores seria um começo.

Depois, seria uma questão de dizer aos países que nos estão a emprestar actualmente o dinheiro que o receberão de volta, mas a juros que não ultrapassarão a inflacção da zona euro. A Alemanha e outros países estão a fazer uma negociata fabulosa com isto tudo (vão acabar a ter um lucro superior ao dos investidores iniciais), mas não é essa a ideia. Estão a fazê-lo pelo lucro e porque, se Portugal falisse, acabariam a pagar o dinheiro numa única tranche aos seus bancos, os quais detêm uma fatia enorme da dívida. Sendo assim, não só não deveriam receber juros, como deveriam dar dinheiro que ajudasse a estimular a economia.

Isto não impediria que Portugal tivesse que pôr as suas contas em ordem, mas teria maior flexibilidade para o fazer. Também poderia assim acabar com as negociatas e as promiscuidades com os grupos empresariais do país (que este governo mantém tal como todos os anteriores).

Resumindo:
1 - algumas perdas para os investidores;
2 - renegociação do resgate,
a) remoção de juros
b) alargamento de prazos
c) aumento do resgate para poder estimular a economia
3 - Manutenção de reformas (não é o equivalente a sangrar).

Dir-me-ão que a Alemanha não o aceitaria, mas nesse caso poder-se-ia ameaçar com o default simples e saída do Euro. Seria catastrófico? Talvez, mas também o está a ser este remédio. E a Alemanha não o aceitaria, uma vez que esse cenário seria catastrófico também para si. Isto seria chantagem pura, algo para que a Europa não foi construída mas, por outro lado, também não o foi para o diktat da Alemanha.

PS - extenso, eu sei, mas isto não se escreve em meia dúzia de palavras.


De Ricardo Vicente a 18 de Outubro de 2011 às 16:00
Portugal e Grecia sao diferentes mas as diferencas sao sobretudo quantitativas. Alias, o que distingue os problemas portugueses dos gregos dos problemas da Franca e sobretudo isto: o grau de intensidade dos excessos do welfare state e em que medida esses excessos tem dificultado o crescimento economico.

Esses excessos tambem existiam na Alemanha e na Espanha mas estes dois paises realizaram reformas estruturais muito antes do inicio da crise.

Mas ha uma coisa em comum com a Grecia: tambem e inevitavel e e desejavel que ocorra uma reestruturacao inteligente da divida. E e verdade que estas duas reestruturacoes so ainda nao ocorreram porque e preciso esperar pelas eleicoes na Franca e na Alemanha.

Uma grande reestruturacao da divida portuguesa ou grega agora nao seria aceite pelo eleitorado frances ou alemao e, dai, Sarkozy e Merkel perderiam a reeleicao.

Saber o quanto o pais esta actualmente a perder por causa deste periodo de espera e, para mim, a questao mais interessante e mais grave.


De João André a 19 de Outubro de 2011 às 07:11
Tenho as minhas dúvidas que o eleitorado alemão não o compreendesse (não vivo na França, por isso não me pronuncio). Cada vez que Merkel toma uma decisão (habitualmente errada) sobre a crise acaba fustigada em eleições regionais. Também a minha impressão é a de os alemães compreenderem que isto está a ser feito por causa dos próprios bancos e que, se Portugal e Grécia optarem pelo default, Berlim acabará por ter de resgatar a sua banca e gastará o dinheiro na mesma.

Mas posso estar errado. Seja como for, duvido que venhamos a descobri-lo. Merkel e Sarkozy não têm coragem para explicar o que está em jogo.


De Ricardo Vicente a 19 de Outubro de 2011 às 20:30
O eleitorado compreende tanto como qualquer outro: pouco. E é pelo menos tão nacionalista como os mais nacionalistas. Sarkozy e Merkel não têm coragem para sair do estado de negação porque irão às eleições já muito fragilizados.


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