Terça-feira, 19 de Março de 2013
por José Meireles Graça

Belmiro disse o óbvio: sem salários baixos não há emprego. Não é que não haja empresas que paguem salários altos - há; não é que não haja empresas que, podendo pagá-los, se abstenham - há. Porém:

 

1) As empresas que, podendo pagar salários mais altos, não o fazem, correm o risco de ver os seus melhores trabalhadores voarem para a concorrência. Se a empresa pode pagar salários mais altos isso quer dizer que está de boa saúde. E não é normal em pequenas e médias empresas uma receita que funciona manter-se indefinidamente sem que alguém a copie;

 

2) As diferenças abissais entre o que ganham os membros da administração e os trabalhadores são típicas de sectores protegidos da concorrência, ou nos quais a concorrência real é uma ficção (banca, energia, combustíveis, etc.), grandes empresas que, pelo volume de negócios, permitem remunerações da administração que, ainda que significativas, pouco pesam na estrutura de custos (na grande distribuição, por exemplo); e empresas de nicho que, por obstáculos à entrada ou simples qualidade da gestão - que não se decreta - alcançam resultados atípicos;

 

3) A ideia quase pacífica de que não é possível competir pelos salários baixos porque haverá sempre quem os tenha ainda menores (China, Vietname, Cazaquistão, o catano) é falsa. A proximidade, a flexibilidade, as pequenas quantidades, as condições de pagamento e o prazo de entrega, por exemplo, podem permitir (e permitem) vender mais caro do que a concorrência de países mais baratos. Mas isso não quer dizer que o preço se torne irrelevante e que possa acomodar o nível de salários que os poderes públicos e as organizações daninhas para a criação de emprego, vulgo sindicatos, estimam desejável;

 

4) A imaginação, a criatividade, a diferenciação, podem permitir (e permitem) a sobrevivência de muitas empresas, por demencial que a fiscalidade se tenha tornado, por ineptas que sejam as decisões que afectam a vida das empresas, por permeáveis que sejam os poderes públicos à influência dos sindicatos, numa palavra - por intrometido que o Estado seja. É fazer o bypass ao Estado, diz um consultor de gestão que estimo e admiro. Mas acreditar que os empresários criativos, inovadores e dinâmicos brotam de nenhures pelo expediente de lhes colocar obstáculos no caminho - requer, não lógica, mas fé.

 

5) Políticos, pensadores, economistas, sociólogos, sindicalistas, consultores, falam de modelos - ele há o modelo dos salários baixos, que faz os países pobres, e o modelo da tensão salarial, que os faz altos. Disparates: há países sem salário mínimo mas com salários altos, sem salário mínimo e com salários baixos, com salário mínimo e salários altos, e ainda com salário mínimo e salários baixos. Na situação em que o nosso País está, e na que estão os países para onde vai a maior parte das nossas exportações, aumentar os salários quer dizer aumentar as falências.

 

Ah, é verdade, os desempregados não pagam quotas a sindicatos. E boa parte dos que falam destas coisas nunca fez, não faz nem fará empresas. Nem precisam: recebem do Estado, estão nos cafés, cujas mesas estão inçadas de gestores de grande qualidade que nunca tiveram as condições para a porem à prova, ou imaginam que centenas de milhares de empresários à rasca estão à espera que o legislador os esprema um pouco mais, a fim de aumentarem os preços conservando os clientes, ou consumam os tesouros de imaginação gestionária que não têm visto a luz do dia, ou que vão buscar debaixo do colchão o tesouro acumulado com a exploração dos trabalhadores.


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3 comentários:
De xico a 19 de Março de 2013 às 20:44
Há quem diga que o movimento americano contra a escravatura tinha mais a ver com o facto de ser muito mais em conta manter operários do que manter escravos. Belmiro faz empresas à custa do empreendedorismo dos agricultores: só não vê quem não quer. Houvesse um estado que não o protegesse e impedisse manobras de exploração como se fazem nas grandes superfícies e eu queria ver o grande empreendedor. Não sou defensor dos métodos acariciadores de pescoços, mas que ajudaram a pôr alguns problemas de equidade e redistribuição da riqueza na devida perspectiva, ai isso ajudaram. Quem ganha salários baixos pode não saber muito mas para dar ao gatilho só basta pontaria.


De José Meireles Graça a 19 de Março de 2013 às 23:47
O post era sobre a opinião que Belmiro expendeu a respeito do salário mínimo, não sobre o próprio Belmiro. A pontaria é uma qualidade óptima se se for atirador ou caçador. Fora dessas duas meritórias actividades não lhe vejo realmente grande utilidade.


De jo a 20 de Março de 2013 às 18:25
Daqui a uns tempos teremos os merceeiros a queixarem-se que ninguém vai à mercearia porque ninguém tem dinheiro.
Nessa alturam resolve-se o problema abrindo sucursais no Brasil e na Polónia. Só que só se resolve o problema dos Belmiros os que cá estão ficam sem dinheiro e sem merceeiro.

Para estes grandes economistas deve-se vender nas economias emergentes onde os salários estão a subir e comprar onde os salários estão a baixar. É uma boa idéia para uma empresa, mas nem tudo o que é bom para um indivíduo é bom para a totalidade da população. É para antever isso que os ministros têm a folha de Excel. É pena que não a saibam usar.


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