PRAIA DAS MAÇÃS, 1918
Naquela tarde de 28 de Março de 1918, a Praia das Maçãs estava bem mais soalheira do que as tardes deste Março que nos calhou este ano. O Hotel Restaurant Royal Belle-Vue, de Eugene Levy , que no tempo da Monarquia contava entre os seus hóspedes alguns ilustres que acompanhavam a Corte que se deslocava para Sintra com a Casa Real no período estival, e onde Afonso Costa, mais tarde e com o Rei morto, fazia frequentemente a sua villiggiatura, ainda oficiava na colina norte da praia ( haveria de arder até à destruição total três anos mais tarde, em 1921 ) Os ventos da Guerra , a primeira dita mundial, na qual Portugal se envolveu para , à custa de muita impreparação e de muitas vidas de militares portugueses, a Iª república "garantir" como espólio da guerra o direito de continuar na posse das colónias africanas, os ventos de guerra, dizia eu, não impediram os presentes nesse dia nas Maçãs de banharem os pés e, tranquilamente, gozarem o Sol que anunciava a Primavera. O país de então, que ainda não discutia o armistício nos jornais, na realidade estava há vinte anos a sobreviver e a pagar a "grande bancarrota". Parecia que estava finalmente governável com a mão de ferro do Sidónio, mas com os bens de primeira necessidade racionados, postos de vigilância da Guarda à entrada das cidades, a "pneumónica" a matar a torto e direito ( o meu avô haveria de morrer cinco mais tarde, ainda bastante novo ). O mesmo Sidónio, o Presidente-Rei, que seria assassinado nesse ano em Dezembro, tinha entretanto criado, como paliativo para tanta desgraça, a "sopa dos pobres".
Os anarco-sindicalistas queriam a revolução contínua, os comunistas ainda não existiam como organização, as diferentes facções republicanas iam ocupando o poder, à vez. Os sufrágios que se repetiam sucessivamente abrangiam tão poucos eleitores (ainda menos que durante a Monarquia) que transformaram uma pretensa democracia numa eutropia, em que caudilhos urbanos se enredavam e revezavam no poder "em nome do povo" que não votava.
Neste Março de 2013 a Praia das Maçãs esteve mais chuvosa. Mas prefiro-a à de 1918.
Apesar deste “mal português “ que nos corrói os ossos, sempre diferente e sempre igual.