Terça-feira, 9 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

Vítor Bento diz que a decisão do Tribunal Constitucional deixa apenas três hipóteses: “Impostos, fecho de serviços e despedimentos. Não vejo outra via”.

 

Bento não está sendo exaustivo, claro que sabe que há outras hipóteses - por exemplo o pagarmos tudo assim que possa ser, com juros, desde que: nacionalizemos a banca e as maiores empresas (as médias, nacionalizadas as primeiras, passariam a ser as grandes, pelo que a seu tempo iriam pelo mesmo caminho, e as outras acto contínuo, pela mesma lógica); regressemos à moeda própria, planifiquemos a economia, e ponhamos o País a viver do que produz e a exportar, ao preço da chuva, o que alguém queira comprar. Claro que haveria racionamento, gente a morrer de fome, refugiados a fugir a grande velocidade, e para controlar todo o processo uma polícia política e uma democracia, hum, popular. É o que defende o PCP, e é o que defendem os patetas úteis do Bloco, mesmo quando julgam que defendem outra coisa. E é a solução romena, sem um Ceausescu para a encabeçar - mas Jerónimo, com a sua esfusiante simpatia, serviria perfeitamente.

 

E não é esta a única alternativa, há mais: Por exemplo, o esgrimir penoso do estado de necessidade contra a arrogância dos credores, negociando, pedinchando, discutindo, retomando o investimento público, arrastando os pés, abrindo excepções, incumprindo por querer fazer o casamento impossível entre os cortes na despesa e o crescimento. É a solução do PS, que conduziria a seu tempo a um perdão de dívida, antes do segundo que fatalmente teria que vir em insistindo na receita. Pobre PS, um partido que, se os meus concidadãos estivessem verdadeiramente conscientes da nossa situação, faria um estágio na Oposição pelo menos até à próxima geração.

 

Depois há a saída negociada da UE, conjugada com o aprofundamento da reforma do Estado. Implica um empobrecimento súbito, uma economia de guerra durante ninguém sabe quanto tempo, possíveis retaliações e um salto no desconhecido. Para os meus co - crentes, abriria uma luz no fim do túnel, a qual nenhuma das outras soluções garante. Mas a opinião pública não cogita disso porque as classes dirigentes disso não cogitam. Talvez suceda, mas por iniciativa de terceiros, caso em que o Euro vai para o armário dos sebastianismos - um grande azar que nos sucedeu, outra oportunidade há-de aparecer um dia.

 

Assumamos então que a via de Vítor Bento é a única. Mesmo assim, fica por explicar o como. Por mim, apreciaria que não tivesse falado em impostos. É que, não obstante o discurso de Passos Coelho em que os rejeitou, este Governo tem o gatilho fácil para as soluções fáceis, e ainda há cidadãos que têm algum de seu. Mas como a vaca exangue dá sinais de o apertar-lhe as tetas produzir, não leite, mas inflamações, acreditemos que vai haver fecho de serviços e despedimentos.

 

Não consigo falar de despedimentos com a mesma serenidade de gente que do risco deles está a anos-luz. E isto mesmo que já tenha feito, como fiz, muitos mais do que desejaria. E ainda que a incerteza no futuro, que é a sina de quem trabalha no privado, contraste fortemente com o estatuto de boa parte dos funcionários públicos, digam os privilegiados do TC o que disserem, nem por isso me parece razoável que, pela mera invocação do estado de necessidade, se faça um pogrom na função pública, sem mais.

 

O mais é pagar-lhes bem para saírem, o que colide com a poupança que se pretende. Sucede porém que  recursos: o negregado Miguel Cadilhe, detestado pelo PSD porque se lembrou de não deificar o consulado cavaquista; abominado pelos outros partidos por ser do PSD; suspeito de falta de chá por ser do Porto, uma proveniência que não recomenda ninguém em Lisboa a não ser que se mude de sotaque; e mal visto porque foi expulso do naufrágio do BPN com um gordo pecúlio - escreveu há anos um livrinho discreto que explicava o modus faciendi.

 

É adoptar e adaptar. E agora que já dei a tática vou ao meu livrinho. Chama-se O Mar Negro, mas não tem nada a ver connosco.


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