Terça-feira, 16 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

A família próxima está inteirada do que fazer aquando do meu infausto passamento: quero ser cremado e que, no velório, se ouçam incansavelmente três requiems - de Mozart, Verdi e o Alemão, de Brahms.


A cremação nada tem que ver com crenças religiosas ou ecológicas, mas com o medo de ser enterrado vivo: já levei algumas tampas ao bater a portas que não se abriram, mas daí não se segue que encare com equanimidade a perspectiva de bater na tampa do caixão.


A selecção musical não tem a generosa intenção de elevar postumamente os gostos musicais dos meus próximos, por bem que lhes fizesse. Muito pelo contrário, se existir um assento etéreo para onde suba, e lá se consentir não apenas a memória, mas também a possibilidade de ver o que por aqui se vai passando, sempre quero ver os olhares não puros mas furibundos dos amigos do defunto, rosnando: o puto do caixa-de-óculos até mesmo depois de morto continua a ser um chato do c.


Estas considerações melancólicas foram despertadas por esta notícia: Médicos aprovam novos critérios que facilitam colheita de órgãos.

 

Num dos consulados de Cavaco, saiu uma lei que estatuía que o de cujus que não declarasse expressamente, perante não sei já quem, que não era dador de orgãos, doava o seu corpo ao Estado, para efeitos de este lhe retirar o que desse jeito, segundo a opinião dos senhores médicos, para consertar outros corpos ainda viventes.

 

A ideia de que o meu coração, ou outro orgão, possa sobreviver noutro corpo, não me  aflige. Mas já me aflige uma lei oportunista e celerada, que presume, numa matéria tão pessoal, da vontade do falecido, mediante o expediente de interpretar como concordância a preguiça de preencher um impresso que ninguém sabe onde está, nem a quem entregar, em troca de um cartãozinho de não-dador.

 

A ter que existir um cartãozinho, deveria ser o de dador. E, na inexistência de cartão, e tendo em conta os outros interesses legítimos em presença, a decisão deveria ser confiada à família.

 

Comigo, a comunidade ficou a perder duplamente: tenho o tal cartão e têm-no também as minhas duas filhas, para as quais o requeri com a concordância da mãe. E é pena, porque o que estou disposto a deixar ser reduzido a cinzas não se me daria que tivesse alguma utilidade, se nisso não houvesse um intolerável abuso.

 

Os cartões estão por aí nalguma gaveta. Do assunto nunca mais ouvi falar, e o cartão de cidadão, que tem dados que não deveria ter, não tem este. O assunto, de toda a evidência, não interessa, e já faltou mais para que os bens do falecido intestado revertam para a comunidade, quer dizer para a tróica - ele haveria lá coisa mais generosa?

 

Os médicos vão agilizar o processo. E a mim ocorrem-me quatro dúvidas: sendo o Estado Português o que é, e as coisas e os médicos portugueses o que são, no caso de um acidente mortal perguntarão alguma coisa à viúva? Se perguntarem, a viúva encontrará o cartão a tempo? Se o não encontrar a tempo, e os facultativos removerem a parte cobiçada, haverá sanções? Quais e para quem?


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7 comentários:
De l.rodrigues a 17 de Abril de 2013 às 11:25
Ja reparou que a recolha de um orgão ou outro pode obviar aquele que é o seu grande terror, o de acordar dentro do caixão? Para efeitos práticos, fica ao nível da cremação.


De José Meireles Graça a 17 de Abril de 2013 às 12:05
Já reparou que não é possível saber adiantadamente se vai haver recolha ou não? E, mais uma vez: a questão é de princípio, e tem que ver com os poderes do Estado e seus agentes.


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