Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
por Luís Naves

Tal como acontece às andorinhas, todos os anos em Abril regressa a este País a vocação e o gosto da sacristia. As beatas excitam-se e reclamam a necessidade da pureza ideológica do regime. Fazem-se discursos a cheirar a mofo, com o tremendismo típico dos sermões de missa. Enquanto se autoflagelam, os crentes vão recitando a ladainha: “ A democracia é nossa, 25 de Abril sempre”.

 

Em cada aniversário, reemergem os inúteis e velhos apelos a uma revolução mítica que nunca aconteceu, ressurgindo ao mesmo tempo todos os gastos argumentos sobre o destino de Portugal. Muitos regimes morrem por não conseguirem resolver os seus problemas. Foi assim com a monarquia constitucional, vítima da estagnação económica e da ausência de renovação política nas duas décadas após a bancarrota de 1891. Foi assim com a primeira república, que não resistiu ao apodrecimento causado pela instabilidade crónica. E não haveria 25 de Abril se o anterior regime tivesse lidado com o problema do império e da guerra colonial, mas os seus líderes preferiram enfiar a cabeça na areia.

 

Hoje, se lermos o que se escreve nas redes sociais, a discussão é sobre a propriedade intelectual do actual regime, reclamada pela esquerda em nome de mitos fundadores que, pelo menos fora do eixo Havana-Caracas, já deixaram de fazer sentido.

 

 

Após 39 anos, o actual regime democrático modificou o País, a ponto deste não ser reconhecível. Cito apenas alguns indicadores retirados da base de dados Pordata. A esperança de vida à nascença era de 67 anos em 1970; em 2010, atingia 79 anos; em 1970, apenas 14% da população tinha instrução equivalente ao nosso 9º ano; a proporção é agora superior a 90%. Um pouco antes do 25 de Abril, havia mais de 2 milhões de analfabetos; actualmente, estes rondam os 500 mil.

Apesar da taxa de desemprego de 2%, Portugal era um país muito pobre, com mais de um milhão de pessoas a trabalhar na agricultura e uma emigração de 150 mil pessoas por ano. Quatro décadas depois, é claramente um país europeu, com problemas, é certo, mas desenvolvido.

Esqueçam por um momento a crise (que é conjuntural) e observem o resto. Os portugueses nunca foram tão livres, tão ricos e tão saudáveis como são hoje. O mérito é inteiramente do regime democrático, que permitiu uma exemplar integração europeia.

Nas últimas três décadas, Portugal recebeu transferências financeiras da UE em valores que chegaram a ultrapassar 3% do PIB ao ano e que são actualmente da ordem de 2% do PIB. Existe liberdade de expressão, segurança e um Estado de Direito que dá plenas garantias de justiça à generalidade dos cidadãos.

 

É neste contexto de inegável sucesso que faz o seu caminho a perigosa ilusão da “revolução dos cravos”, uma autarcia utópica e anticapitalista, com hinos próprios, frases esgotadas e a memória distorcida do passado. A “revolução dos cravos” levou dois anos a chegar à democracia e o processo de descolonização foi uma catástrofe humana (o anterior regime tem enormes culpas e talvez não pudesse ser evitada, mas a palavra catástrofe é adequada).

Os proprietários da democracia não se limitam a exaltar estes elementos meio românticos, mas servem-se da actual crise para defenderem o abandono do factor que garantiu o êxito desta fase da nossa História: a integração europeia e o seu símbolo máximo, o euro. As visões simplistas dizem “basta” e “esta não é a nossa Europa”. Acho, pelo contrário, que quanto mais nos afastarmos do núcleo central da construção europeia, maiores serão os riscos deste regime não sobreviver. Nada é eterno, nem sequer uma democracia que tem evidentes pergaminhos para mostrar.   

 


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