Segunda-feira, 29 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

Temos os que defendem o Euro à outrance (recuar nunca, credo!), dos quais há duas variedades: os que temem que isso faça ruir o projecto europeu, com grandes riscos, imaginam, para a paz na Europa, a qual, aliás, para ter peso no Mundo, tem que "falar a uma só voz"; e os que se abstêm de grandes voos de especulação geoestratégica, mas acham que a sobrevivência dentro do Euro implica disciplina das contas públicas, coisa que a Democracia entre nós nunca deu sinais de garantir.

 

Uns e outros estão dispostos a alienar o mais remoto resquício de autonomia financeira, os primeiros porque supõem que no colégio europeu a voz portuguesa teria, logo que a deriva autoritária alemã esteja emendada, mais peso do que isolada no Mundo, e que a solidariedade entre países não é uma fantasia; e os segundos porque não veem a utilidade da independência, se for para nos condenar ao tipo de gestão orçamental e económica que nos pôs de joelhos, e à sociedade atrasada e pobre que, creem, é o corolário lógico de uma moeda fraca, que seria por sua vez o corolário lógico da gestão socialista a que estamos condenados.

 

Há mais factores, claro, desde o pavor do desconhecido (os precedentes que existem - Império Austro Húngaro, Checoslováquia, Argentina, outros ainda, nem são convincentes nem aliciantes) até à imensa burocracia que tem o prestígio e o bem-estar ancorados à "Europa", passando pelos nossos responsáveis que, tendo comprometido o País na aventura, não podem, sem perder a face, dizer hoje o contrário do que sempre disseram.

 

Depois, há os que defendem a saída do Euro. Fora os comunistas, são uma insignificante, ainda que crescente, minoria, tão pequena que é muito mais provável que o Euro se esboroe, ou dele sejamos convidados a sair, ou dele saiam outros e nós por arrasto, do que algum dos partidos que têm estado no Poder desde há mais de três décadas dê o dito há pouco mais de uma por não-dito.

 

Estes últimos, ademais, têm a vida consideravelmente dificultada porque se lhes exige que digam, expliquem, quantifiquem, o que se vai passar, e eles, coitados, não sabem, que Deus lhes perdoe. É como dizia há dias um economista, cujo nome não retive, para Ferreira do Amaral, com o dedo em riste: Mas reconheça que o problema conceptual da saída é muito diferente do da entrada! Ferreira concordou, e eu também concordaria: a entrada foi muito feliz, mas a sociedade engravidou de um problema, e agora resolvê-lo é conceptualmente - de facto - muito diferente. Para quem quiser inteirar-se do que nos espera, um bom começo é este livrinho e este estudo. Nem um nem outro responde à dúvida principal, que é esta: economia de horror durante quanto tempo?

 

Isto julgava eu: Ficar ou sair, eis a questão. E a ela dei há muito a minha resposta, previsivelmente minoritária.

 

Tropeço agora nesta declaração: "Sou partidário de uma saída provisória da união monetária por parte dos países mais débeis", disse Sinn ao jornal Fankfurter Allgemeine Zeitung.

 

Ele já havia um partido a defender a saída da Alemanha. Saídas provisórias, sem mais detalhes, parece-me à primeira vista fazer sentido nenhum.

 

Mas as brechas do edifício alargam-se; e aparecem novas. Talvez venhamos, mais cedo do que julgamos, os que contam com a Alemanha para pôr ordem na casa, e os que não querem ordem a preço e prazo incomportáveis, a ficar sem motivo para desentendimento. 

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3 comentários:
De O Autor a 30 de Abril de 2013 às 12:06
Caro José Meireles,

Gosto muito da forma equilibrada com que escreve (vou partilhar na página FB do A.I.). Independentemente de seus pontos de vista estarem ou não alinhados com os meus, gosto. Para mim o sinal é quando não me custa ler até ao fim - muitas vezes não acontece com outros.

No que toca a este tema Euro-Europa, venho partilhar dois extratos de escritos meus de 2011 - que convido a visitar pelos links fornecidos. Aqui ficam:



de Europa: Regresso ao Passado?
29 Outubro 2011
http://antologiadeideias.wordpress.com/2011/10/29/europa-regresso-ao-passado/

"O tema “União Europeia” presta-se, desde logo, a uma declaração de interesses: o Autor é um eurófilo* por convicção. Assume, sem pejo, o romantismo de sempre se ter encantado com a perspectiva de pertencer a uma nação – seja ela união, federação ou confederação – vasta em geografia, culturalmente diversa e economicamente poderosa. Sufoca-o pensar estar reduzido política, cultural e economicamente a uma nação de 10 milhões de pessoas – por muito nobre, valente e imortal que esta seja. Em reflexão, não será completamente alheio a este sentimento, o facto de ter nascido e passado parte importante, e formadora, da sua existência fora do país. Mas isto são excentricidades do Autor, estranhas para o cidadão com patriotismo mais luso."

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de Europa: Diferenças Que Devem Unir
8 Novembro 2011
http://antologiadeideias.wordpress.com/2011/11/08/europa-diferencas-que-devem-unir/#more-281

"Que outras forças motrizes e aglutinadoras, que não “orgulho, medo, ideologia e sobrevivência”, estiveram por detrás dos grandes feitos geo-políticos e militares da nossa História? Que outras, que não estas, foram as motivações que conduziram – não sem sangue, não sem lágrimas – aqueles que fundiram, e fundaram, a potência hoje conhecida como Estados Unidos da América? Teria sido possível algum tipo de hegemonia cultural, económica e militar, como aquela que a América conheceu, desde a segunda metade do século XX, sem a escala dada por um bloco político, social e económico, que alberga mais de 300 milhões de almas? A oportunidade que uma Europa, dizimada que foi por duas guerras, constitui para E.U.A, ter-se-ia materializado sem a escala da sua capacidade produtiva? E que imaginar, quanto ao que poderia ter sido o resultado da Segunda Grande Guerra, não fosse a importante intervenção do militar dos E.U.A? Ich weiß es nicht, aber ich habe eine Idee."


Bem haja!

O Autor
Antologia e Ideias
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e-mail: antologia.wordpress@gmail.com


De José Meireles Graça a 30 de Abril de 2013 às 15:50
Agradeço-lhe duplamente o que diz, Autor: por se dar ao trabalho de manifestar uma apreciação que possivelmente nem mereço, e por o fazer quando tem pontos de vista que, no que toca à UE, são opostos aos meus. É raro. Vamo-nos desentendendo por aí e, entretanto, um abraço amigo.


De Nuno a 1 de Maio de 2013 às 22:54
É curioso que alguns dos maiores defensores da permanência no euro sejam os primeiros a dizer que os limites orçamentais impostos nos tratados e memorandos não são para cumprir.


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