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Forte Apache

Assumptos do dia (6) Da hipocrisia

Luís Naves, 03.05.13

Sob pressão de um compromisso internacional, o Governo vai ser forçado a avançar com cortes na despesa do Estado que equivalem a 3% do PIB. O anúncio das medidas será feito hoje, mas a ex-líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, já veio a público criticar esta política, dizendo que os cortes não terão qualquer resultado. Serão um desastre inútil, uma calamidade.

 

Compreendo que Bloco de Esquerda, PCP, até o PS, estejam contra os cortes na despesa. Já não compreendo quando a política é criticada por uma dirigente do PSD que sempre defendeu a redução do peso do Estado na economia. A isto chama-se hipocrisia.

Por inépcia, Manuela Ferreira Leite desperdiçou em 2009 uma excelente oportunidade para vencer eleições legislativas. Uma vitória do PSD, naquele momento, poderia ter evitado alguns dos erros que nos atiraram para a bancarrota.

Não cabe neste post discutir se as medidas do Governo serão adequadas. O que critico é que elas sejam arrasadas antes do respectivo anúncio. Ferreira Leite podia criticar uma medida em concreto, dizer que não funcionava, mas pronunciou-se antes de conhecer os detalhes. A antiga líder sabe que não é possível cortar na despesa do Estado sem mexer em pensões e salários. Mas critica os efeitos recessivos, sabendo ao mesmo tempo que não há margem para fazer de outra forma.

 

Cortar 4 mil milhões na despesa do Estado é uma imposição externa e Manuela Ferreira Leite sabe disso. Sem o anúncio das medidas de corte, não haverá sétima avaliação positiva e, portanto, o País estará numa catástrofe muito pior do que um corte de 3% do PIB na despesa pública.

A troika não se comove com a indignação de Ferreira Leite e é indiferente à sua inépcia. Julgo não haver um caso semelhante na Europa de um ex-líder de partido a criticar os seus sucessores quando estes estão no poder.

 

Vivemos numa época profundamente hipócrita, onde nunca há verdadeiras discussões. Quando surge uma questão que é necessário debater, logo a conversa se entrega à furiosa análise de pormenores bizantinos. Estamos rodeados por jogos de curto prazo, omissões, pontos de vista, falsos dilemas. Onde ontem havia uma convicção, agora existe apenas o vazio de uma fingida preocupação social.

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