Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Forte Apache

Assumptos do dia (7) Morrer na praia

Luís Naves, 06.05.13

A esquerda parece entusiasmada com um artigo publicado na Alemanha, da autoria do ex-dirigente do Linke, Oskar Lafontaine, a sugerir a criação de um sistema monetário europeu e o fim do euro.

O texto pode ser lido, traduzido para português por Helena Araújo, no excelente blogue Dois Dedos de Conversa.

 

A Alemanha está em pré-campanha eleitoral e fazem o seu caminho as teses de abandono da moeda única. A ideia está também a crescer em Portugal. Voltar ao escudo seria, na visão de muitos, uma escolha que evitaria longos anos de austeridade.

Recentemente, um especialista alemão afirmava que os países do sul ainda têm de empobrecer 30%. (Com aliados assim, mais valia estarmos a lidar com inimigos). O valor é utilizado na argumentação de Lafontaine e alguns comentadores aproveitam a deixa para defender a nossa saída do euro. Infelizmente, não é explicado que o sistema monetário europeu, criado para conduzir as diferentes moedas a uma convergência que permitisse o euro, era instável e sujeito a especulação, bastando lembrar o devastador ataque à libra que atirou o Reino Unido para fora da moeda única.

 

Para Portugal, a sugestão de Lafontaine seria provavelmente uma catástrofe. Os riscos de haver pânico e desvalorização descontrolada do escudo seriam enormes.

Os bancos poderiam entrar em colapso, já que estão carregados de dívida cujo valor passaria talvez para dois terços ou até metade. Muitas empresas entrariam em incumprimento, atirando o desemprego para valores que o Estado não poderia sustentar.

As poupanças eram destruídas e o País não teria dinheiro para importações (pagas em moeda forte), nomeadamente para petróleo ou para medicamentos.

Desvalorizações descontroladas de moedas na União Europeia implicariam o fim do mercado único. Muitos países teriam a tentação de reintroduzir barreiras alfandegárias a todos os produtos dos países vizinhos, que subitamente surgiam a preços esmagadores das indústrias locais.

 

 

Apesar destes problemas, é compreensível que a esquerda mais socialista queira sair do euro. As regras de contenção orçamental são incompatíveis com políticas expansionistas de despesa pública. No escudo, haveria desvalorização e inflação para reequilibrar o sistema. Quando o Estado não tem dinheiro, fabrica moeda, podendo assim gastar à vontade. Fora do tratado orçamental e das regras de Maastricht, a despesa tinha poucos limites.

 

Portugal é hoje um protectorado financeiro e será até Junho do próximo ano, ao sair a troika, no caso feliz de conseguirmos regressar aos mercados até Setembro, o que evitaria o segundo resgate.

Para nos conseguirmos livrar da troika, teremos de cumprir o programa de ajustamento e concluir os cortes na despesa, mantendo um mínimo de estabilidade política.

Dentro de quatro anos, o nosso défice estrutural será de 0,5% do PIB. Depois, terá de ficar abaixo desse valor. Na via do cumprimento do programa de ajustamento, há dois caminhos: o da Grécia, cujo segundo resgate está a ser mais violento do que aquele que foi pedido inicialmente; ou o da Irlanda, país que regressou aos mercados, com esperança de crescimento já este ano.

 

A terceira via, a da saída do euro, corresponde a uma catástrofe numa escala inimaginável e a um recuo político que exigirá pelo menos 20 anos para ser recuperado. Os sacrifícios de duas décadas serão tornados inúteis em poucas semanas. Vamos regressar à irresponsabilidade financeira e retomar o caminho das ilusões já fracassadas da utopia socialista. Seremos pobres como nos anos 80.

 

As duas opções iniciais, devemos reconhecer, também não dependem só de nós, mas de uma espécie de milagre europeu que ponha fim às crescentes divisões entre norte e sul. 

Portugal está a ser vítima dos seus erros e da falta de competitividade, mas também de um choque assimétrico que resulta das falhas de construção da própria zona euro. É possível reparar a moeda única, criando uma verdadeira união bancária, reforçando a união política, introduzindo eurobonds com limitações de voto ou até dividindo a zona euro em duas partes. Acabar com o projecto é que parece ser uma emenda pior do que o soneto.

 

Também é possível concluir o programa de ajustamento. Esta é a via sensata, a que nos aproxima da Irlanda. Ela exige responsabilidade política. Faltam menos de 14 meses. Desistir agora era morrer na praia.

 

6 comentários

Comentar post