Segunda-feira, 6 de Maio de 2013
por Alexandre Guerra

Forças da oposição síria/Foto:Reuters

 

A comunidade internacional, através dos seus líderes, tem uma tendência para polarizar guerras civis, identificando de imediato os “bons” e os “maus” de acordo com formatações político-ideológicas e conveniências geoestratégicas, mesmo que essa catalogação seja redutora e ignore a “grande área cinzenta” em que se movimentam forças contrárias.

A Síria, mergulhada numa guerra civil sangrenta, é o mais recente exemplo dessa abordagem maniqueísta que quase nunca corresponde à verdadeira realidade dos factos no terreno.

Com a eclosão do conflito sírio, há pouco mais de dois anos, a comunidade internacional ocidental não hesitou em classificar o Presidente Bashar al-Assad como o mais recente déspota opressor dos povos indefesos.

Em parte, esta assunção é correcta, já que o líder sírio não pensou duas vezes antes de avançar contra a sua própria população, por modo a manter o status quo que sustenta a minoria alauita no poder.  

Mas esta é apenas uma perspectiva da realidade. O problema é que as principais chancelarias ocidentais têm ignorado a outra parte do problema trágico que afecta a Síria: o comportamento errante e criminoso dos rebeldes (que noutras alturas davam pelo nome de “freedom fighters”).

Já não é de agora que surgem relatos menos dignos do comportamento dos revoltosos na Síria. Além da sua desunião e incapacidade de forjar uma frente política comum, têm vindo a público relatos de abusos inqualificáveis por parte daqueles sobre a população.  

Carla del Ponte, alta funcionária da ONU e antiga procuradora-geral do ICTY, vem agora corroborar esses mesmos relatos, sublinhando que há “fortes” indícios e “suspeitas concretas” da utilização de gás sarin por parte dos rebeldes. Del Ponte não exclui também o uso daquela arma química por parte de forças do Governo.

Embora a comissão internacional de inquérito, criada em Agosto de 2011, ainda não tenha provas conclusivas, del Ponte ficou “estupefacta” pelo facto das primeiras indicações apontarem para a culpabilidade dos rebeldes na utilização de gás sarin.

Um golpe brutal na credibilidade da oposição síria e nos esforços de criar uma alternativa política séria ao regime de Bashar al-Assad, até porque poucos terão coragem para colocar em causa o relatório da comissão liderada pela conceituada e respeitada Carla del Ponte.

Como escrevia Bridget Kendall, correspondente diplomática da BBC News, uma coisa são as suspeitas que têm vindo a público de fontes pouco credíveis, outra coisa são indícios levantados por uma alta funcionária da ONU.

Outro ponto a favor da credibilização dos resultados da comissão independente tem a ver com o método utilizado, baseado na recolha de testemunhos directos no terreno.

Este cenário levanta o que restava do véu que ainda cobria parte da crueldade de um conflito interno entre duas forças que não hesitam em sacrificar a população inocente para avançar nas suas posições.

Com o regime de Damasco condenado (e com razão) pela opinião pública internacional e com a oposição síria cada vez mais descredibilizada, é improvável que Washington tenha algum interesse em envolver-se na Síria.

Sem um interlocutor viável e sério para apoiar na Síria, o Presidente Barack Obama, de forma mais ou menos directa, já deixou bem claro a sua mensagem de que não tem intenção de se “meter” nos assuntos internos da Síria. Moscovo e Pequim não parecem também muito interessados em alterar qualquer relação de forças naquele país do Médio Oriente.

Perante esta acomodação de interesses geopolíticos, a Síria tende a médio prazo tornar-se palco de um conflito crónico que poderá baixar de intensidade com o passar do tempo, mas nem por isso menos trágico para a sua população.   


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