Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Forte Apache

Algumas tendências insustentáveis no modelo sócio-económico Português

Carlos Faria, 26.07.12

Não são um exclusivo de Portugal e até algumas medidas económicas recentes devem ter acelerado o processo no nosso País e por vezes de uma forma pouco humana, mas, por mais que barafustem, existem de facto algumas tendências que a longo prazo são insustentáveis na nossa sociedade:

- Redução progressiva das taxas de natalidade e aumento dos número de professores necessários na educação;

- Migração progressiva das populações para os grandes centros urbanos e manutenção em proximidade de todos os serviços do Estado nas terras desertificadas;

- Aumento continuado do número de vagas e de cursos nas Universidades em função dos gostos e apetites de alguns catedráticos e alunos sem olhar às reais necessidades da economia interna e ainda exigir a colocação do excedente de licenciados que resulta deste modelo;

- Crescimento continuado do consumo para dinamizar a economia nacional sustentado na solidariedade e subsidariedade de outros países e sem uma cobertura cada vez maior da produção interna que anule as necessidades de ajuda e de endividamento.

Quem disser ao contrário – político ou sindicalista – é, conscientemente ou inconscientemente, mentiroso e cidadão que acredite na sustentabilidade destas tendências é ingénuo, mesmo tendo em consideração injustiças que existem na repartição da riquezas dentro de Portugal.

O crescimento do lado da oferta por Joana Nave

jfd, 02.07.12
No passado dia 20 de Junho decorreu mais um Fim de Tarde na Ordem com Daniel Bessa, que abordou o tema “Crescer, sim; o problema é como.”.


Seguindo a abordagem do modelo keynesiano, a curto prazo faz sentido aumentar a despesa, estimulando o consumo. No caso de Portugal, e na actual situação do país, não é possível fazer crescer a economia pelo lado da despesa, porque não há financiamento. No entanto, esta via não está esgotada num contexto global europeu. Tem surgido esta ideia com as eleições em França e a mudança de opinião na Alemanha, onde se pensa que faria sentido aumentar a despesa e a inflação. Porém, Daniel Bessa não pensa que esse caminho seja viável e, por isso, prefere não contar com ele.


Para quem vende no mercado externo as quotas são próximas de zero, ou seja, o aumento da procura não é relevante. Temos de olhar para o lado da oferta, tornar os nossos produtos mais competitivos para ganhar quota de mercado, e apostar nas supply sales, onde empresas, empresários, tecnologia e meios de produção são as variáveis que estão em causa.


Será que o crescimento económico em Portugal é atingível através da austeridade e das reformas estruturais? Por um lado, a redução dos custos de trabalho só funcionou do lado do sector público e traduziu-se em encargos para a segurança social e aumento do IVA; por outro, as reformas estruturais só têm efeito no longo prazo.




Um ano de Governo

Fernando Moreira de Sá, 24.06.12

Em Outubro escrevi sobre um receio: a possibilidade do doente morrer da cura.

 

Agora que passou o primeiro ano de Governo, repito o receio. O caminho para a desejada recuperação da nossa economia só pode, na minha opinião e de forma simplista, passar por um verdadeiro "choque fiscal": descida para metade do IRC, descida do IVA (com apenas duas taxas de 5% e 15% respectivamente), fim da dupla tributação no imposto automóvel. Num prazo de dois anos, a implementação de uma verdadeira harmonização fiscal em toda a UE.

 

Além disso, renegociação total das parcerias público-privadas (e publicitação integral do conteúdo dos contratos existentes); continuar as reformas já iniciadas e finalizar, rapidamente, as privatizações em carteira. Sobretudo nos transportes (TAP, CP, STCP, Metro, Carris, etc). Indústria, Turismo e Formação Profissional devem ser as principais apostas da revisão do QREN e na negociação do próximo quadro comunitário - acautelando, na revisão, as expectativas jurídicas em face dos contratos existentes.

 

Só assim se pode salvar o doente sem o matar com a cura.

O pecado do despedimento

José Meireles Graça, 29.05.12

De um padre espera-se que diga as coisas que os padres dizem: não vem no geral mal ao mundo, e de patrões católicos e não católicos espera-se que não ajam sem incorporar no seu processo decisório preocupações éticas.

Ao Padre António Fernandes o discurso económico não é alheio - diz que "é preciso estimular a economia, incentivar o microcrédito."

E também disso não vem mal ao Mundo: todos temos direito às nossas opiniões sobre Economia, e se alguma coisa já deveríamos ter aprendido nestes tempos é que nem as maiores sumidades do ramo, nem catedráticos de universidades prestigiadas, nem prémios Nobel, estão ao abrigo de asneirarem e de a realidade os desmentir a curto prazo.

Vou mesmo mais longe: a previsão económica do tolo da aldeia, e as medidas recomendadas pelo último dos cavadores de enxada, não são menos confiáveis do que as de muito albardado de diplomas com o peito coberto de medalhas.

Ainda bem que é assim: senão encarregávamos do governo um comité de especialistas, ao menos para tratar do crescimento, e a gente ficava para aqui a falar de Artes, Letras e causas fracturantes, assuntos que muitos de nós encaram com tédio.

Mas o Senhor Padre diz mais: diz que "despedir é pecado e uma grande falta de solidariedade."

Ora aqui temos a burra nas couves: porque bem vê, Reverendo, dá-se o caso que eu conheço muito patrão que despede (eu próprio fui um desses, e não estou em condições de garantir que não voltarei a ser) e a principal razão que os levou a enveredar por esse caminho não foi "despedir para ter mais lucro“, foi acreditar que se o não fizessem os trabalhadores - todos - se despediriam a eles próprios, porque a empresa iria à falência.

É claro que cada caso é um caso; e na classe dos patrões não há menos sacanas e oportunistas que noutra qualquer. É mesmo possível que algumas vezes o despedimento tenha origem na incapacidade para encontrar soluções alternativas para lidar com uma situação adversa.

Burrice, já se vê. Ser burro não é pecado, espero, Senhor Padre? Porque em Portugal os patrões (os pequenos; nada de meter aqui as luminárias do PSI20), como é geralmente sabido, são uma quadrilha de ladrões e uma súcia de ignorantes dobrados de patifes. Agora, pecadores, salvo para o Fisco, que de toda a maneira é um empreendimento do Demo - espero que não.

O mundo está do avesso

Judite França, 22.05.12

O líder do Syriza, Alexis Tsipras, veio avisar que não negoceia com o inferno, mas o inferno já mandou dizer que negoceia com qualquer partido eleito na Grécia. Mesmo que seja contra o programa de assistência.

 

Ou seja, o devedor falido recusa-se a negociar com o «inferno». O credor, o tipo que emprestou o guito e que tem os salários dos funcionários públicos gregos nas mãos [desde polícias a enfermeiros], está disposto a sentar-se às mesas das negociações, mesmo se o governo eleito quiser rasgar de alto a baixo o contrato assinado.

Parece que alguma coisa está do avesso. Deve ser o mundo.

O panfleto

José Meireles Graça, 26.04.12

Documentário disponível em todos os blogues de esquerda perto de si? Nada, nada, também se arranja de melhores proveniências - foi que o encontrei.


Mas não é um documentário. É uma peça de propaganda: Eugénio Rosa, economista comunista, com perdão da cacofonia e da contradição nos termos, e Fernando Rosas, um historiador neo-marxista pós-moderno, ilustram a explicação de como no Portugal do séc. XIX até hoje a upper class viveu e medrou com a promiscuidade com o Estado.


Não explicam se, sem o condicionamento industrial e o proteccionismo, teria sido possível criar uma base industrial; se as relações familiares dentro da pequena tribo de plutocratas eram uma originalidade portuguesa; por que razão a enormidade de recursos concentrada nas mãos de poucas famílias foi adjuvante para o atraso do País, ao contrário do que sucedeu noutras paragens; e se as taxas de crescimento de Portugal nos anos 60 (não obstante uma guerra colonial que chegou a consumir 40% do orçamento do Estado, sem aumento significativo do endividamento público) se explicam por obra e graça do Espírito Santo (o da trilogia, não um prócer da família homónima).


Não explicam isto nem uma quantidade de outras coisas. Mas dão a entender que o relativo atraso de Portugal poderia ser anulado se se acabasse com a promiscuidade através do expediente de eliminar os grupos económicos privados.

.

Simples, não é? Foi experimentado noutros lados e nunca resultou. Mas aqui poderia - quem sabe? - resultar. É uma questão de fé, e isso não discuto. Agora, panfletos em formato de documentário, lá isso - discuto.

Palavras de Paul Krugman em Portugal

Pedro Correia, 27.02.12